SOBRE O RAL E OUTRAS COISAS

Por João Luiz do Nascimento


Grande Ral, grande amigo, grande poeta da nossa geração. Recebo a notícia de seu passamento com tristeza e resignação, afinal, como já dissera alguém, somos seres nascidos para a morte.

Um a outro, nos conhecemos ainda na segunda metade dos anos setenta, em verdade, uma das primeiras pessoas que de nossa geração que tive o prazer de conhecer. Trabalhamos juntos (eu, ele e Paulo Machado, o poeta, registre-se) na então recém-inaugurada (e hoje extinta) Livraria Corisco, que ficava na esquina da 13 de maio com a Areolino de Abreu. Éramos vendendores e atendentes, ao mesmo tempo. Foi o meu primeiro emprego e trabalhava com o que eu mais gostava (e gosto): livros. Na época, a Livraria Corisco (que ainda não tinha sido picada pelo aguilhão dos livros didáticos e produtos de papelaria) só se dedicava à literatura (ficção e poesia). Foi ali que, juntamente com o Ral, tive contato inicial com os contistas e poetas nacionais que me influenciariam, em especial quanto ao realismo fantástico e que, posteriormente, me levariam até Kafka, Júlio Cortázar, Borges, Juan Rulfo e Gabo, dentre outros. Vivíamos o "boom" da literatura. E o conto era o principal veículo daquele momento literário. Civilização Brasileira e Codecri eram as editoras mais evidentes nesse segmento. Lembro, como se fosse hoje, das palavras do Cíneas Santos, meu professor de Literatura e primeiro grande incentivador: "para escrever, basta olhar pela janela". Claro que estava querendo dizer que, vivíamos os anos de chumbo, tema havia para todos os gostos, o que não dispensava, por óbvio, o talento para escrever. Na prosa curta, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, J.J. Veiga, Roberto Drummond, Murilo Rubião, Domingos Pellegreni Jr, Wander Piroli, João Antônio, Luiz Vilela, Antônio Torres, Luiz Fernando Emediato, Caio Fernando de Abreu, Deonísio da Silva, dentre tantos outros, eram os nomes emergentes de nossa ficção. Tempos bons aqueles. Havia uma grande dose de romantismo em tudo, natural para um jovem de 18 anos. Talvez isso tenha contribuído para que não percebêssemos que o ovo da serpente, que mais tarde transformaria a utopia em mais uma desilusão, já cozinhava. Mas enquanto durou, o sentimento, jurado em conjunto, de que o mundo poderia vir a ser outro, nos alimentou a esperança.

O tempo, a distância e a necessidade de assumir compromissos pautados pela faticidade cuidaram de nos afastar (eu e o Ral, eu e outros tantos) e recortar nossos objetivos.

Mas, esse tempo que afasta é o mesmo que aproxima, é o que se guardou na memória rígida. E isso não há força ou alguém possa nos arrancar. 

Tempos bons aqueles, Raimundo Alves de Lima. Onde quer que esteja, fique bem, fique em paz.

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