A lembrança travada




Foto: Sem Crédito


E eu te beijava
sem me dar conta
de que não te dizia:
Oh lábios de cereja! 
(Garcia Lorca)




Fiz na tarde que passou
Pluma e perfume num quarto de abril
Noite e madrugada sob o odor
De colírios e pétalas de rosa azul
Sem dizer uma palavra adocicada.

Apenas traduzi tantos suspiros
De querer mais mel e pão asmo
Folha de hortelã
E morangos a descer
Pelo corpo de azeitona
E azeite quente.

Foi o silêncio, o secreto dedilhar
Que vislumbrou a fenda negra
De água viscosa e leite a banhar a aurora
Entre um cálice e outro, uma lua e outra
Fatias de maçã e cerejas à vontade
Na face revirada.

Não ficou o propalado beijo
Nem o jeito  avesso sobre a cama
Apenas a mágoa do dever descumprido
Na tarde da cidadezinha
No olhar da tardezinha
Que se tornou pavio de algodão.

Emerson Araújo.

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