Lançamento

Torquato Neto ou a carne seca é servida


Os doze trabalhos de Kenard Kruel

Durvalino Couto Filho

Conheço o Kenard Kruel há mais de 30 anos, desde quando ele chegou de Parnaíba, em 1977, magrinho, franzino, logo escrevendo nos jornais de Teresina - O Estado, O Dia, Jornal do Piauí, Jornal da Manhã, Correio do Piauí, Jornal de Serviço e aqui fazendo o seu O Cobaia, mimeografado. Ele que já vinha de uma experiência nos jornais de lá - Folha do Litoral e Norte do Piauí, além do mimeografado Batalha do Estudante, que editava no Colégio Estadual Lima Rebelo, de onde foi expulso.

De lá para cá, foram muitas empreitadas, muitas jornadas, jornais, suplementos, revistas, livros, shows, manifestos, seminários, congressos, encontros, salões, debates, brigas e mil confusões que fazem de Kenard Kruel uma figura ímpar.

Eu sempre comento com os amigos que talvez a maior qualidade do Kenard Kruel seja o fato de ele ser um grande arregimentador, um incansável tarefeiro cultural. Já se tornou uma legenda a figura de Kenard Kruel sempre apressadíssimo, agora grandão, pesadão, com pastas e papéis debaixo do braço, entrando de rompante nos salões, terraços, redações, agências, palácios governamentais, sempre com uma nova empreitada por fazer. Pode demorar, mas dá conta do recado, porque não abandona nunca a ideia (fixa).
O Kenard Kruel é um louco.

O Albert Piauí, confessadamente o seu melhor amigo, já se intrigou com ele umas sessenta vezes, e perdi a conta dos fantásticos Salões de Humor que os dois organizaram, trazendo a Teresina figuras como Angeli, Ares (Cuba), Borjalo, Biratan Porto, Clériston, os irmãos Caruso (Paulo e Chico), Cláudio Oliveira, Cláudio Paiva, Edgar Vasques, Glauco, Jayme Leão, Jaguar, Jorge de Salles, Lailson, Laerte, Lapi, Lor, Mino, Millôr Fernandes, Mariano, Márcia Braga (Z), Nani, Otto, Reinaldo, Sinfrônio, Ziraldo, Zélio Alves Pinto e outros grandes humoristas do traço brasileiro. Sem falar de mil outras realizações, como a de criar, também, a Fundação Nacional do Humor, que Albert Piauí preside desde então.

Kenard Kruel é polêmico, intempestivo e carinhoso. Cuida com competência dos seus projetos e também arregaça as mangas para tocar os projetos dos outros. Nunca se omite. E é um dos mais entusiasmados, até parecendo que defende a própria cria. E nada quer em troca. Kenard Kruel é o sujeito mais solidário que conheço.

Agora tenho em mãos esta imensa pesquisa que ele fez sobre Torquato Neto. Confesso que discordei frontalmente dele quando começou a fazer este trabalho. Ele havia me mostrado um dos primeiros poemas de Torquato Neto, entusiasmado. Fui ver, era um poemeto de menino, que Torquato Neto havia escrito, num remoto dia das mães, para a Dona Salomé. Eu fiquei puto, falei que publicar aquilo era uma aberração, que Torquato Neto rasgaria a relíquia se vivo fosse, que Kenard Kruel esquecesse e tal. Mas hoje tenho em mãos um trabalho gigante, obstinado, bem documentado - e o que é melhor - cheio de inéditos de e sobre o anjo torto da Tropicália.

Kenard Kruel fez um levantamento minucioso da biografia de Torquato Neto desde os bisavós, os avós, os tios, os primos, colheu depoimentos de velhos amigos; resgatou inúmeros textos, como o que Torquato Neto escreveu, aos vinte anos, sobre Arte e Cultura, no jornal O Dia, em fevereiro de 1964, e poemas inéditos, como você verá; desencavou documentos que, com certeza, irão encher os olhos dos milhares de torquateiros espalhados por esse Brasil-mundo afora.

Posso dizer mesmo que o trabalho de Kenard Kruel, tal como se apresenta , é fundamental para todos aqueles que querem aprofundar seus estudos e conhecimentos sobre a não-obra deste poeta inquieto, sempre marginal, de nosso país.

Por isso mesmo, não gostaria de tecer mais considerações sobre Torquato Neto. A diagramação é do próprio Kenard Kruel, um faz tudo, com capa do nosso Paulo Moura, artista gráfico de mão cheia. Um outro talento raro. Raríssimo, se me permitem!
O livro que você tem em mãos está cheio de preciosas novidades sobre sua vida e sua produção descontínua e abundante.

Nesta edição, a terceira, conta com revisão de Dodó Macedo, que eliminou erros de toda espécie, inclusive dando nomes aos ilustres até então desconhecidos. Foram acrescidos novos trabahos, novos poemas canções, novas fotos, e Kenard Kruel, ainda assim, me confessou que tem material para fazer um outro grande livro.

Dinâmico, já se prepara para nova edição deste seu / nosso Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida, com novo formato, mais fotos e textos inéditos. É um bom sinal, que corrobora o que disse Leminski sobre Torquato Neto: um homem sem obra, como Buda, Confúcio, Cristo. Obra desencavada pela obstinação da história e de pessoas como Waly Salomão, Ana Maria, Georde Mendes, Paulo José Cunha, Fifi Bezerra, Edwar Castelo Branco, Toninho Vaz e, notadamente, Kenard Kruel, para quem a voz do poeta não cala e não cessa. Olhos à obra.

Kenard Kruel, grande tarefeiro e velho amigo, é um prazer lhe dizer, com orgulho: missão cumprida.

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