A lírica necessária


Imagem: Arquivo Google


VISÃO


Rúben Darío (Nicarágua)

Trad. Antonio Miranda


Atrás da misteriosa selva estranha
vi que se levantava ao firmamento,
perfurada e lavrada, uma montanha,

que pousava na sombra o fundamento.
E na montanha estava o ninho erguido
do trovão, do relâmpago e do vento.

Dentre os seus arcos negros o rugido
se ouvia do leão, e, qual escura
catedral de algum deus desconhecido,

aquela fabulosa arquitetura
formada de prodígios e visões,
visão monumental, me deu tremura.

A seus pés habitavam os leões;
suas torres e flechas de ouro fino
se juntavam com as constelações.

E havia um vasto domo diamantino
onde se alçava um trono extraordinário
sobre sereno fundo azul marino.

Ferro e pedra primeiro, e mármor pário
depois, e ao alto mágicos metais.
Uma escada subia ao santuário

divino. Os esplendores siderais
as divisões da escada repartidas
de três em três banhavam. Colossais

águias coas grandes asas estendidas
contemplavam-se ao centro de estelar
atmosfera de luzes e de vidas.

E numa palidez de ouro lunar
uma alva pomba as álulas batia,
pérola alada em misterioso mar.

A montanha lavrada parecia
por algum Piranesi arquipotente,
babélico. Em seus flancos dir-se-ia

que houvera cinzelado o bloco ingente
o raio; e no alto, enfim, enorme friso
um áureo beijo recebia ardente,

beijo de luz de aurora e paraíso.
E eu na sombra gritei: -Em que lugares
hoje vaga minha alma?- De improviso,

entre cítricas flores, e colares
de branquíssimas rosas, surge Estela,
a que sói habitar os meus cantares.

E disse-me com voz de filomela:
-Não temas, não: no reino estás da lira
de Dante; e a pomba que revoa bela

na luz é Beatriz. Aqui conspira
tudo ao supremo amor e alto desejo.
Aqui chega o que adora e o que admira.

-E aquele trono, disse-lhe, que vejo?
-Nele, entre louros, é que a glória assenta
O gibelino Orfeu.- E aquém do adejo,

abaixo, é onde dormir sói a tormenta.
É onde o lobo e o leão por entre o escuro
acendem a pupila, qual violenta

brasa. E o vasto e misterioso muro
é de pedra e de ferro; essas arcadas
do meio são de mármor; de ouro puro

a parte superior, onde em gloriosas
albas eternas se abre ao infinito
a sacrossanta Flor, Rosa das rosas.

-Oh, bendito o Senhor! -clamei-; bendito,
que ao florentino arcanjo azou potência
para tal mundo de mistério escrito

com língua humana e sobre-humana ciência
deixar, e criar estranho império eterno
e esse trono de rútila eminência,

ante o qual abismado me prosterno.
E feliz quem ao Céu a alma levante
pelos férreos degraus de seu Inferno!

E ela: -Que este prodígio diga e cante
a tua voz.- E eu: -Pelo amor humano
eis que chego ao divino. Glória ao Dante!

Ela, em ato de graça, o vôo arcano
das águias me apontando na lonjura,
ascendeu como um lírio soberano

até Beatriz, pomba da etérea altura.
Brancas marcas no azul deixava, e vê-las
a minha alma consola e transfigura.

E vi que me fitavam as estrelas!

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