A crônica da vez...

A Michele do futuro



Era uma manhã de sábado, e flagrei a Michele, minha filha de 3 anos, numa pose especial. Subitamente linda e casual, parecia uma moça crescida, uma mini-mulher ali em pé, debruçada na sua caminha, compenetrada folheando um dos seus livrinhos, enquanto com a outra mão segurava o queixo; uma perna estava estendida e a outra em ligeira flexão, vestia uma calça justa de algodão inteira estampada com flores grandes, uma camiseta e uma faixa na cabeça; um raio de sol que se insinuava pela janela iluminava seu corpo e uma faixa flutuante de poeira, dando à cena uma dimensão atemporal.

E eu e a Vanessa nos pegamos juntos olhando pra ela; e a Vanessa observou, num vislumbre exato, num rasgo de percepção, que aquela pose tão adulta poderia se repetir indefinidamente no futuro da vida da Michele, em muitas idades, como naquelas sucessões de cenas de filmes, em que muitos anos se passam enquanto a música toca, com o personagem no mesmo lugar, mas que de forma sutil vai se modificando e que, num repente, se vira para a câmera e então se percebe que não se passou um mero instante, mas muito, muito tempo...

Então imaginei a Michele se virando repentinamente para nós, já uma adolescente apressada, sempre pronta a deixar os pais para ir fazer suas coisas mais interessantes. Ou então ela se viraria pouco mais velha, uma década adiante da adolescência, talvez uma mulher de trinta, com aquela imbatível beleza balzaquiana, e naquela virada diria algo como “Papai, mamãe, passei mesmo só pra dar um beijo em vocês, mas já vou indo que o Douglas está sozinho em casa com as crianças”.

A verdade é que o tempo urge e não se pode segurar o furioso escoar dos dias. Sei disso muito melhor agora que cheguei aos 40. E como não se pode conter a areia dessa ampulheta, tenho procurado registrar cada instante que posso da vida da Michele. Já são centenas de filmes e fotos, produções semanais, quase diárias. Gosto mais dos filmes do que das fotos, porque naqueles há voz e movimento; são um legado de amor que quero deixar para minha filha.

Fico imaginando como seria se hoje de repente eu descobrisse num baú qualquer uns filmes da minha primeira infância. Estou me imaginando agora sentado de frente pra televisão, preparando o DVD, uma taça de vinho, e subitamente, a um clique no controle remoto, vendo se materializar diante dos meus olhos um Cesar de dois, três, quatro anos, com meu pai e minha mãe falando e andando, ainda jovens, depois a minha avó, ou os tios e primos num almoço; talvez um cão que já tenha sido esquecido; os objetos e os sons daqueles dias, as imagens animadas dos lugares em que moramos; e de olhos fechados eu me vejo desta vez em primeiro plano, com os ruídos de uma São Paulo que já se foi por detrás, ou talvez andando pelo Zoológico, ou num parque que já virou um prédio faz tempo, quem sabe uma rua de paralelepípedos que já derramaram asfalto, como a da minha avó Mi, e os carros antigos passando ao fundo, e de repente um homem que aparece com uma moça, de mãos dadas, namorados, e somem para sempre, desconhecidos, na cena e no tempo; enquanto isso eu, no colo, dou agora um tapa na careca do seu Aloisio e desabo numa risada cheia dos dentes de leite que eu tive e nem me lembrava...

Quanto eu não pagaria para ter um filme assim para assistir hoje, para mostrar à minha filha, à minha mulher? Reuniria todos os amigos para um churrasco e poria num telão!

A Michele terá centenas, senão milhares de filmes assim para assistir. Filmes curtinhos, de 1 a 3 minutos, que faço com ela o tempo todo, em casa, tomando banho, brincando de luta na cama comigo, arrumando o cabelo com a mamãe, chegando da escolinha de perua, de cavalinho, no parque, no carro, cantando, dançando, chorando e fazendo manha, dormindo, enfim. Em cada um desses filmes surge a minha voz dizendo data, hora e local, e narrando o que vejo. São tantos arquivos digitais que já os armazeno em dois HDs externos.

Hoje os mais antigos já são surpreendentes. Dia desses estávamos eu e ela assistindo a um deles, ela com um ano, numa tentativa capenga de corrida atrás do gato que tínhamos, correndo e rindo, sem dentes, babando no babador preso ao pescoço. Quem é, papai?, ela me perguntou. Você, eu disse. Ela morreu de rir, incrédula. "Como posso ser eu lá se estou aqui?", suponho que ela tenha pensado.

A verdade é que esses filmes encerram um curioso contrasenso existencial: são uma recordação única e preciosa para o futuro, e simultaneamente um relembrar perene do horror da gente à finitude de nossas próprias vidas. Um filminho desses é a apreensão de um momento que não volta mais, de um tempo desmaterializado, esvaído, fugidio; a imagem da areia caída para sempre na âmbula inferior dessa ampulheta que não se pode desvirar.

“Dá tchau pra Michele do futuro, filha!”, digo a ela, sempre que estou para encerrar um dos nossos filminhos.

“Tchaaaau, Michele do futuuuuro!”, ela diz, agitando aquela pequena mãozinha em direção à câmera do papai.

E eu sempre a imagino assistindo a isso, lá no futuro.




Cesar Cruz
Julho 2011

Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Obrigado, Emerson! Você sempre generoso e cavalheiro. Além de comentar getilmente no meu blog, ainda posta e divulga aqui no seu!

Só tenho a agradecer; e dizer que, quando vieres a Sampa, vais comer uma pizza comigo, por minha conta, e em companhia da minha família!

Só avisar!

Abço forte
Cesar