O dilema do Ensino Médio

por Ernesto Faria

O Conselho Nacional de Educação revisou todos os requisitos nacionais de qualificação profissional. A revisão diz que os alunos devem adquirir competências que podem ser utilizadas em diferentes campos e transferidas de profissão para profissão; que as competências devem atender as necessidades do mercado de trabalho, mas também promover a aprendizagem ao longo da vida; e que os módulos de estudo devem ser flexíveis e que deve haver uma possibilidade de várias combinações.

O leitor sabe de onde esse texto foi retirado? Caso você esteja pensando que ele se refere às novas diretrizes curriculares do Ensino Médio no Brasil aprovadas nessa quarta-feira pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) está enganado. Essa é uma tradução de um trecho de um relatório de uma organização da União Europeia que descreve as diretrizes curriculares do Ensino Médio (upper secondary education) da Finlândia.

Dados os resultados da Finlândia e sua tradição em Educação a ideia tende a nos parecer boa. Mas é boa no contexto do Ensino Médio do Brasil? Não sei, e peço ajuda para conseguir ter essa resposta. Além disso, o sucesso de uma política depende de muitos outros fatores que vão além de uma boa ideia. Para uma política educacional como a aprovada pelo CNE ser bem sucedida é necessário muito trabalho, muito estudo, fiscalização, comprometimento, suporte necessário (infra-estrutura e professores, por exemplo), adequação dos processos seletivos…

O Ensino Médio é um tema complexo no Brasil, pois trata-se de uma etapa que tem que ser atrativa, de modo que possa manter os jovens em um estabelecimento de ensino – e para isto é necessário que esta etapa atenda algumas demandas do mercado de trabalho –, sendo que é uma etapa no Brasil que atende um grande número de alunos com defasagens de aprendizado em todas as áreas do conhecimento, em especial em matemática. A flexibilização da carga horária acaba se tornando um dilema. Por qual caminho devemos optar: reforçar o ensino em matemática, em língua portuguesa e em ciências para que os jovens possam sair do Ensino Médio com um bom nível de aprendizado ou flexibilizar o Ensino Médio para que os jovens fiquem na escola e tenham acesso mais fácil ao mercado de trabalho?

O Ensino Médio no Brasil envolve aspectos muito distintos do Ensino Médio em sistemas em que os alunos chegam com um nível de aprendizado mais alto nessa etapa. Com muitos alunos ingressando nessa etapa sem ter sequer as habilidades esperadas em matemática para um aluno de 5º ano do Ensino Fundamental a tarefa de fornecer um aprendizado adequado para a vida e para o mercado de trabalho ao mesmo tempo é muito, mas muito árdua.

Muitos fatos envolvendo o Ensino Médio aconteceram nessas duas últimas semanas: o lançamento do projeto de lei do Pronatec (o texto segue para o Congresso Nacional, onde tramitará em regime de urgência), a aprovação no Senado do aumento da carga horária na Educação Básica (a medida irá para a avaliação da Câmara dos Deputados) e a aprovação pelo CNE das novas diretrizes do Ensino Médio (as diretrizes seguem para homologação do ministro da Educação). O momento é muito propício para ler, estudar e discutir bastante.

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