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editorial
Contrariando a ladainha de alguns pessimistas, a crítica literária, no Brasil, apresenta uma quantia considerável de nomes de qualidade, gente com grande capacidade para analisar textos ou obras inteiras com grande sagacidade e erudição, observando tanto a poética compositiva do discurso literário quanto a ligação da literatura com outras formas de discurso. Aqui mesmo, nesta revista, não poucos já desfilaram análises e teorizações de reconhecido valor por pesquisadores, escritores e por essa imensa variedade de gostos e sensibilidades que planificamos sob a rubrica de “leitor comum”. No entanto, se pensamos em críticos que têm de fato uma contribuição singular a dar, enriquecendo desde os trópicos até a cultura ocidental, a conta fica macérrima. E dentro dela deve constar o nome do paraense Benedito Nunes, falecido em 27 deste fevereiro. No dizer de Antonio Candido, “Benedito se tornou um grande crítico literário, sendo, ao mesmo tempo, filósofo. É raríssimo. Quer dizer, o filósofo traz para a literatura o nível de reflexão e de abstração que os críticos geralmente não trazem; ele leva para a filosofia um sentimento estético e um senso de beleza que os pensadores nem sempre têm”. Num depoimento publicado na Estudos Avançados (SP, 2005), Benedito, convergindo com as palavras de Candido, falou de si: “O meu interesse intelectual não nasce nem acaba no campo da crítica literária”. De fato, não nascia nem acabava, mas sempre tinha como eixo central a literatura. Devemos a Benedito tanto estudos analíticos de grande densidade sobre autores como Clarice Lispector, Oswald de Andrade e João Cabral, como trabalhos de envergadura mais teórica, em que ele trava um diálogo nada epigônico com a fenomenologia, o existencialismo e a hermenêutica. A cultura brasileira sentirá a falta de Benedito, cuja capacidade de articular idéias, transitando da filosofia para a poesia, ofereceu sugestões para mais de um crítico de relevo e nos ajudou a compreender mais de um autor. O que seria – para ficarmos num só exemplo – de Clarice Lispector, ou melhor, em que patamar ainda estaria a nossa compreensão da obra de Clarice Lispector sem os estudos rigorosos e apaixonados de Benedito Nunes? Que, na variedade de textos que aqui se publica neste 9º número de dEsEnrEdoS, brilhe, senão a erudição e a sagacidade de Benedito Nunes, por difíceis que são de serem atingidas, ao menos seu exemplo de seriedade e amor ao ofício.
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