As lições da tragédia de Realengo


Emerson Araújo

Não dá mais para silenciar diante de todas as dores que o assassinato de 12 crianças e ferimento em outras tantas diante da cobertura jornalística tradicional recente. O fato não é deixar de divulgar a tragédia, mas as intervenções apressadas e exageradas de analistas que, principalmente, as grandes redes de televisão têm levado ao ar desde quinta-feira próxima passada.

Especialistas em segurança, advogados criminalistas, promotores de justiça, pedagogos, psicopedagogos, psicanalistas, psiquiatras forenses, políticos federais, estaduais e municipais ou não e até comentaristas de programas policiais fizeram e tem feito a mídia tradicional se tornar um espaço de opiniões desvairadas, emocionais e sem nenhuma contribuição efetiva para que novos eventos desta natureza não venham acontecer nos espaços públicos e coletivos da Pátria novamente.

A carnificina da Escola Municipal Tasso da Silveira em Realengo – RJ não pode ficar sob a exploração de uma mídia acostumada a blá, blá, blá e sangue. Há, nela, infelizmente ou não, um caráter didático primoroso que nos ensina a lidar com outras extensões que vão além da insanidade, carências, confusões espirituais intensas do atirador Wellington Menezes de Oliveira.

Os “achismos” dos analistas na mídia não reproduzem, na prática, a dimensão do fato na sua essência. Ninguém neste, momento, parou para subtrair da tragédia de Realengo as problemáticas que giram em torno da educação básica pública brasileira e suas debilidades, tais como: falta do Serviço de Orientação Escolar na escola, falta de treinamento dos agentes/auxiliares administrativos (porteiros, zeladoras, merendeiras, etc), falta de um serviço de atendimento médico nas escolas, falta de enfermaria de urgência e de formação continuada de todos os atores escolares para casos desta magnitude. Evidentemente que a escola, principalmente, em área de risco social não estará imune à violência da sociedade sobre ela como foi o caso da de Realengo.

Ficar preso, apenas, na insanidade mental de Wellington é muito pueril diante de outras lições advindas desta ação maléfica e dolorosa. Cabe a todos enxergarem a necessidade de intervenções dos poderes públicos a curto, médio e longo prazos no contexto da educação/escola em várias áreas para que eventos deste porte não se tornem uma mera repetição cotidiana. Quando se fala em intervenções prementes dos poderes públicos não se quer banalizar e nem simplificar esta problemática que é complexa e que traduz soluções coerentes. Assim não cabem as sugestões apressadas de transformar as escolas brasileiras em guaritas dos órgãos de segurança e nem transformá-la em contextos de “controle total” ferindo a liberdade de ir e vir. As soluções das necessidades do ambiente escolar advém da atuação e das respostas fundadas na própria escola com a anuência de quem tem responsabilidade de geri-la no âmbito do público. Feito isso se volta a acreditar que ação de Wellington se tornará pontual sem possibilidades de repetição.

(*) Emerson Araújo – é professor e especialista em educação profissional

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