quarta-feira, 30 de março de 2011

O segredo de março



Alfred Sisley, Rest by the Bank of the Ruisseau, 1872.



Não há sopro e nem mariposas nestes caminhos
A chuva serôdia, o sol da manhã, o dedo em riste
Luz no caminho
E lâmpada para os pés
Em noite de promessa e flauta flutuante.


Não se confia mais no tempo dos homens
Nem em suas ruas manchadas de sangue
Vinho tinto de sangue em caneca de barro
Asa de porcelana e cedro do Líbano
O tempo visado é de ouro e mirra
De címbalo e sopro
Pluma em alguidar artesã.


Consagra-se a água cristalina do regato
E como poesia a que se destina
Fia-se o novelo e a couraça da justiça nova
Nos lábios que sorvem mel e pão de milho
Entre a escuridão e os dezesseis movimentos
Que se canta sem instrumentos de corda
Sem saltérios.

E na convergência milagrosa da tarde
Verifica-se o segredo de março
E na convivência exemplar da palavra
Expõe-se desejos, sonos, sonhos
Entre o beijo conduzido
A consciência de um dia partido ao meio.


Emerson Araújo

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