Tu país está feliz de Antônio Miranda ganha edição em russo

Anderson Braga Horta*

Tu País Está Feliz chega a 12ª edição, bilíngue, português/russo

Em fins de 1970, inícios de 1971, um jovem poeta brasileiro, estudante na Venezuela, teve um gesto absolutamente romântico: com poemas de sua autoria (que haviam sido lançados em 1969, em edição mimeografada, como era comum na época) ensaiou um espetáculo, ele é quem o diz, “em estilo jogral”, inicialmente na Biblioteca Pública Paul Harris, de Caracas. Os textos transpiravam liberdade, num momento em que o país do autor era sufocado pela ditadura militar, e em que noutras plagas latino-americanas não eram mais saudáveis os ventos políticos. Com a música de Xulio Formoso, esses poemas cênicos, cuja simples leitura já lhes demonstrava a generosidade e riqueza, no dizer do autor da mise-en-scène, o argentino Carlos Giménez, agigantaram-se e se transformaram num “violento e maravilhoso grito de rebeldia”, que se fez canto e empolgou o público.

Assim, nosso poeta, antes mesmo de se fazer conhecido no Brasil, tornou-se sucesso de público e de crítica e viu sua peça exibida não apenas na capital, mas também no interior venezuelano; teve enorme sucesso no mais famoso dos eventos congêneres da região naqueles tempos, o Festival de Teatro de Manizales, na Colômbia, além de ter-se apresentado no Equador, na Argentina, no Chile, em Costa Rica, em Cuba, na República Dominicana, chegando ao México e vencendo festival em Porto Rico. Treze anos depois, conforme relata o autor em palavras reproduzidas na primeira edição em português de Tu País Está Feliz (Thesaurus, Brasília, 1991; belíngue), volta ele à Venezuela e reencontra a peça em cartaz no Ateneo de Caracas! Reencenada em 2003, acaba de ser remontada em Caracas, num festival em Valença e ainda em Barcelona. Cabe aqui mencionar que Tu País Está Feliz propiciou o surgimento dos grupos teatrais Rajatabla (Caracas, Venezuela) e Cuatro Tablas (Lima, Peru), que seguem ativos até hoje.

Diante de tal invejável trajetória, é natural que se cogite de apresentar esse vitorioso poema dramático – assim o qualifica a edição de 1991 – a povos de outras latitudes e outros idiomas.

Esta nova edição (a 12ª), também bilíngue, tem em mira o leitor de língua russa. Esse novo público potencial, privilegiado pelo acesso direto a uma literatura profundamente humana e – nem seria preciso lembrá-lo – naturalmente aberta a questões existenciais e sociais, decerto há de receber com simpatia o texto jovem e vibrante que lhe oferece Antonio Miranda. E para vertê-lo ao russo, ninguém melhor que o bielo-russo Oleg Almeida, que, transplantado para estes trópicos, abrasileirado de tronco e família, exerce com proficiência o ofício de tradutor e se revela poeta original e forte com os recém-saídos versos de Memórias dum Hiperbóreo (7Letras, Rio, 2008).

Voltemos, entretanto, aos poemas que resultaram em Tu Páis Está Feliz. Não foram a estreia de Miranda, cujos primeiros livros já haviam surgido, em Caracas mesmo, uns poucos anos antes; nem seriam o termo de sua lavrança poética, acrescida de diversos volumes que não cabe enumerar aqui – mas não deixarei de citar pelo menos três: Retratos & Poesia Reunida, de 2004, Despertar das Águas (2006) e Eu, Konstantinos Kaváfis de Alexandria (2007). Tem publicado outras obras, de teatro, romance, novela, conto, crônica, história, sem falar na produção relacionada com sua condição de doutor em Ciências da Comunicação, mestre em Ciência da Informação, graduado em Biblioteconomia.

Os poemas deste livro têm, decerto, notórios aspectos sociais, mas não se limitam a essa vertente: são filosóficos, de autoindagação, líricos, de um lirismo comovente, que envolve e conquista o leitor/ouvinte/espectador. Completam o espectro poético de Miranda os livros seguintes, com o bom-humor e a ironia presentes, por exemplo, em Brasil, Brasis, a homenagem a ilustres vultos pátrios, como em Canto Brasília, e ainda o metafísico, o metapoético, o lúdico, encontráveis ao longo de sua caminhada. E a essa altura, já que esbocei um retrato do autor, cabe mencionar, ainda que de passagem, suas atividades de escultor, professor, botânico delitante – que mais?

Maranhense por nascimento, homem do mundo por vocação, com trânsito principalmente pela América Latina, como já tive oportunidade de dizer, Antonio Lisboa Carvalho de Miranda viveu em Buenos Aires, Caracas, Bogotá e Londres, tendo-se fixado afinal em Brasília, onde é professor universitário, no momento “descansando” para carregar nos ombros a grande responsabilidade de fazer funcionar uma Biblioteca Nacional novinha em folha, mas ainda em fase de montagem. Em qualquer de todas as suas atividades, a força motriz é a poesia, que explodiu, verdadeiramente, naquele início da década de 70 em Caracas, e, como vemos, continua a arder , como uma estrela.

Lidas as páginas deste livro, e meditado o resumo de vida canhestramente tentando nas linhas que se vão encerrando, o leitor de Tu País Está Feliz, lusófono ou russófono, concluirá que a pátria de seu poeta não pode ter endereço exclusivo em sua terra natal, nem em nenhuma das nações ou das cidades aqui mencionadas. O país de Antonio Miranda está onde quer que se reúnam homens de boa vontade, e em qualquer lugar onde se oficie o culto da Liberdade.

E basta dizê-lo para reafirmar o alto valor deste poema.

* Apresentação da 12ª edição bilíngue português/russo.

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