Linguagem


O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora

17/02/2011

Leandro Konder

As imagens mostradas na TV e a diversidade dos impactos produzidos pelo levante da população egípcia desmoralizaram subitamente a ideia de que esse tipo de revolta explosiva, que o conservadorismo considerava morto, não deveria ocorrer. Em especial, a direita tentou sustentar o reconhecimento da validade de critérios ditos liberais com a comprovação da drástica impopularidade do presidente do Egito.


Quando a gente vê os debates entre certos políticos descambarem para a grossura, só podemos lamentar isso. Pior, contudo, é a perda de tempo em alguns discursos ocos, reacionários, conservadores e prolixos, que nos é imposta pelas transmissões de rádio e TV, como agora acabamos de verificar na disputa pelas cadeiras de chefes do legislativo.


O que leva os políticos demagógicos a indulgir na malandragem? Cada caso é um caso.


As perguntas se multiplicam e se confundem. O filósofo Tales de Mileto declarava que a filosofia começa com o espanto. Quando nos surpreendemos com o fato de o mundo ser como é, estamos começando a filosofar. Lembremos de Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros.


Depois de Tales de Mileto, outros filósofos elaboraram as suas filosofias, porém não deixaram de reconhecer a importância do espanto filosófico. Um setor da realidade, em especial, mereceu grande atenção. Um interesse particular foi concedido à filosofia da linguagem.


A linguagem tem duas funções básicas. Ela pode ser comunicativa ou expressiva. Como comunicação ela informa a aquele que ouve aquilo que o falante acha que deveria informar. Na pré-história, uma parte sumamente importante da função comunicativa era a função nomeadora.


O mundo estava cheio de coisas e de seres que permaneciam anônimos. Os homens eram desafiados a superar esse anonimato. No mundo, os riscos cresciam e a humanidade se defrontava com animais de grande porte, que podiam acarretar a extinção do gênero humano. Para diminuir os riscos, os indivíduos precisavam se comunicar. Precisavam da linguagem.


A outra função era a da linguagem expressiva, que se desenvolveu depois de algumas conquistas básicas da comunicação. Foi o trabalho que proporcionou ao ser humano contrapor-se à natureza, criando o sujeito.


O trabalho ainda tinha características primitivas. Mas os pontos em que travou sua batalha bastaram para lhe assegurar a sobrevivência. O mundo em que viviam leões, tigres, rinocerontes e outras feras de grande porte parecia inabitável para seres tão frágeis como os homens. No entanto, os homens se impuseram.


Através do desenvolvimento da linguagem, foi possível desenvolver todo um sistema educativo que permitia às comunidades humanas enfrentar animais rudes e, aparentemente, invencíveis.
O que os seres humanos conquistaram na vida prática só foi mantido e aperfeiçoado por meio da linguagem. Quando o indivíduo usava a palavra “leão”, isso não significava nada para a fera, mas podia alertar nossos antepassados e salvar-lhes a vida.


Reconhecido o valor da linguagem, as pessoas passaram a cultivá-la com maior rigor e, eventualmente, com maior prazer (aparecimento da poesia, anterior ao nascimento da prosa).


Trabalhar com as ideias era uma atividade difícil, mas compensadora. Combinadas e articuladas umas com as outras, as ideias compunham os chamados conceitos, que eram composições eficientes, criadas a partir da convicção humana de que o fortalecimento do gênero humano era coletivo antes de ser individual.


A linguagem nos ajuda a montarmos sistemas que atendem às necessidades da nossa segurança e contribui para enfrentarmos as pressões, geralmente silenciosa, dos conservadores, detentores do poder.


Expressar-se corretamente e fazer comunicações, tanto quanto possível, amplas e precisas, é uma forma de participarmos ativamente dos grandes conflitos sociais, ao lado de quem trabalha.
Os trabalhadores constituem a principal força a manifestar sua responsabilidade. O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora. Depois, com os gramáticos.


Por sua ligação com a vida, a linguagem é sempre potencialmente reveladora de alguns problemas (e de algumas propostas de solução para esses problemas).

Leandro Konder é colunista semanal do Brasil de Fato.

Publicado originalmente na edição 415 do Brasil de Fato

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