Cidade hostil


Da janela, Munhoz pode avistar a avenida logo ali, quase ao alcance da mão. Escolheu o apartamento no primeiro andar do prediozinho decadente no centro da cidade, justamente para poder dispor daquela vista privilegiada, perfeita para alimentar sua atividade. Para qualquer pessoa normal, o apartamento dos fundos (e que dá para alguns silenciosos telhados de casas antigas, onde os únicos ruídos são o dos pássaros e de um ou outro gato ralhando de madrugada), que também estava disponível para alugar segundo a velha, proprietária do prédio, seria muito mais atraente, mas não para ele. Munhoz é escritor, eis o motivo.

Sua mulher aguentou o quanto pôde, mas num certo dia o cálice transbordou e ela arrumou as malas e partiu com o filho para o interior, para a casa da mãe. A gota d'água foi quando Munhoz subitamente largou o emprego de corretor de imóveis (que ainda os mantinha dignamente e permitia que houvesse comida em casa), argumentando que agora pretendia se dedicar inteiramente à literatura. Ridículo, berrou Carolina, jogando na cara dele que o único livro que ele conseguiu publicar não vendeu nem trezentos exemplares, a maioria comprada por amigos bondosos e parentes que se sentiram na obrigação de fazê-lo, mas que meteram o exemplar autografado, virgem, numa prateleira sem se dar ao menos trabalho de folhear.

Na rua, um carro subiu com as duas rodas na calçada, repentinamente, provocando a fúria do motorista do ônibus que vinha logo atrás. Munhoz parou de digitar e ficou olhando a cena urbana. O pisca-alerta do veículo foi acionado e um jovem pulou pela porta em direção ao bar que existe embaixo do prédio. O motorista cravou a mão na buzina e xingou um desaforo violento, desviando abruptamente, por pouco não atingindo um carroceiro que vinha pela faixa central. Confusão armada. Munhoz ficou ali de seu mirante, deliciando-se. Quem sabe aquilo renderia uma crônica para o Correio Central? – jornal medíocre que pagava a Munhoz um trocado a cada crônica publicada.

Assim que se mudou para aquela quitinete, depois da separação, posicionou sua mesa de trabalho colada à janela, cuja vista do caos cotidiano alimentaria sua “criatividade ficcional”. Criatividade ficcional, Munhoz gosta da frase, frase que encerra uma redundância evidente, mas que ele repete insistentemente para as pessoas quando as obriga a ouvir suas divagações confusas sobre literatura, sua própria literatura, na maior parte das vezes.

Agora ele se desliga temporariamente da rua e leva o copo aos lábios, dá um longo gole no café com leite quente, pega o sanduiche de margarina que está sobre uns rascunhos e dá uma mordida enorme, pela metade do pão, sem cuidado, deixando cair migalhas no teclado e no colo. De boca cheia, mastigando, volta ao texto.

– Bico de sapato nas costelas eu conheço bem, delegado, aprendi a conhecer. É melhor que despertador para avisar a hora devida de um homem acordar. A rua ensina, a rua ensina rápido, o senhor não imagina; mais rápido do que a Universidade, onde lecionei por duas décadas... – O delegado fez menção de dizer algo, mas sentia-se paralisado frente à eloquencia daquele surpreendente mendigo trazido pelo soldado Evaristo e pelo Lino, postado à sua frente, falando com aquela clareza tão incomum para um morador de rua, mas que, no entanto, apesar da aparente civilidade, tinha agredido uma senhora havia pouco."Será que esse filho da puta foi mesmo professor universitário?”, perguntou a si mesmo, mentalmente, mas preferiu ouvir mais um pouco a conversa do homem.


– Atrás de um bico de sapato há sempre um homem que desconhece a dor e a solidão que advém da derrocada de um ser humano. Minto, minto, delegado, nem sempre é um homem, às vezes é uma mulher, mas nunca uma mulher jovem, sempre velha, como essa. É que as jovens não mexem nesses vespeiros, o senhor é delegado, sabe disso, conhece a natureza humana; elas têm maridos para fazer esse trabalho sujo por elas, e se acaso não for casada tem a mãe, o pai, um irmão que se voluntaria com prazer em acordar o mendigo imundo que resolveu dormir na frente de sua casa e que


Munhoz pára de digitar e se detém a observar novamente a cena na calçada. O rapaz do carro agora tenta se justificar para o guarda de trânsito, que surgiu sabe-se lá de onde. Maço de cigarros recém-comprado na mão, o jovem bem vestido gesticula e sorri, todo pedinte, simpático, tentando evitar a multa. Munhoz não consegue ouvir o que ele diz, mas o imagina argumentando que foi uma paradinha muito, muito rápida, seu guarda, o senhor sabe, o vício da gente é uma praga...

Volta ao texto e acende ele também um cigarro. Entende o vício do rapaz. Larga uma baforada prazerosa que envolve a ele e ao computador em uma única nuvem azulada. Cidade Hostil, esse é o título do romance que escreve, já quase pode ver a capa com seu nome gravado abaixo do título, as letras em relevo Agripino Leodércio Munhoz ou talvez apenas A. L. Munhoz, sim, sim, melhor, como Anton Pavlovitch Tchekhov, A. P. Tchekhov. A. L. Munhoz. Perfeito. Um dia, quando já estiver morto, o resumo de sua obra será conhecida nos meios intelectuais e estudada nas universidades como a Literatura Munhoziana. Sim, certamente Cidade Hostil será seu primeiro grande sucesso, um sucesso tão grande que fará Carolina largar Vargem Arada e voltar correndo para São Paulo, para pular em seus braços, pedindo desculpas, contando que soube do livro através da listagem dos mais vendidos da Veja, que ficou tão, tão orgulhosa...

Agora Munhoz balança a cabeça negativamente, ao ler o que escreveu há pouco. Escrever é cortar, lembra-se de ter lido em algum lugar, e crava o dedo na tecla delete. O trecho que vai da palavra final, “que”, começa a desaparecer e para em “humana”. Munhoz se afasta como um pintor faria para apreciar seu quadro e lê o que resta da sentença em voz alta:


“É que as jovens não mexem nesses vespeiros, o senhor é delegado, sabe disso, conhece a natureza humana

Satisfeito, põe um ponto final na frase, solta decidido a fumaça pelas narinas e esmaga o toco num cinzeiro cheio de bitucas que se equilibram, todas incrivelmente em pé, como totens fincados na terra. Ainda sorri, sentindo o prazer proporcionado pela simplificação da sentença. O restante está subentendido, em literatura, menos é mais, pensa. Levanta-se da cadeira se achando inteligente e caminha pelo cômodo, desvia da cama, quase colada à mesa, e vai à cozinha, que na verdade não é exatamente uma cozinha, mas um canto com uma pia de resina e uma boca de fogão improvisada por algum morador anterior, toscamente embutida num furo do tampo; o bujão de gás embaixo, escondido pela cortininha de plástico encardida. Uma engenhoca funcional, apesar de feia. A geladeira vermelha, antiga, exatamente ao lado, que ele comprou de segunda, terceira, quarta mão talvez, ali no centro, numa loja escura, espécie de brechó, cemitério de produtos domésticos. Subiu a geladeira, pesada como um bloco de granito, no braço e no peito, pelas escadas estreitas, se ralando todo na parede, numa manhã de sábado em que contou com a ajuda de má vontade do dono da loja.

Puxa a porta. Não há quase nada nas prateleiras. O pote de margarina, o final do leite e dois pedaços de pizzas na embalagem redonda de papelão, que ele põe sobre a pia em cima de uns pratos sujos de molho e macarrão seco de anteontem. Livra-se da tampa, agarra os pedaços gelados numa mão e faz um barco que mastiga ali mesmo, em pé, sentindo a calabresa e a cebola ressecadas coladas na massa, mas saborosas. Pensa no homem frente ao delegado, uma vítima inocente da cidade hostil. Teria ele agredido a mulher de caso pensado? Ou foi motivado pelo impulso da indignação de ser chutado no chão? Ainda não sabia para onde a história os levaria, ele e seu homem. Aquele homem que poderia ser ele mesmo, mas que no invólucro do personagem que criou foi potencializado; aquele era sim um homem que levou um tombo maior que o seu, ah, sim, sim, bem maior que o seu! Um personagem que era a forma inconsciente de fazê-lo crer que, óbvio, pode haver sempre uma desgraça maior que a sua no mundo. Uma desgraça maior do que ter de se humilhar tentando vender livros para os jovens barulhentos e irreverentes nos barzinhos noturnos, por entre as mesas de lata espalhadas pelas calçadas do centro da cidade, sempre cheias de garrafas de cerveja, maços de cigarro e chaves de carro. “Boa noite, jovens, sou um escritor independente e gostaria de oferecer a vocês o meu primeiro romance O limiar da realidade, é a história de um comerciante que...”. Geralmente acabava falando sozinho.

Ah, com Cidade Hostil não precisará passar por nada daquilo, ali está clara a sua evolução técnica, a história é dinâmica e envolvente, sem sobras, exata. Será sem dúvida um best seller, haverá briga entre as editoras para comprar os direitos da publicação, que, claro, será nacional. O desterro do professor universitário que perde tudo, traído e abandonado pela mulher, trapaceado pela instituição, humilhado pelo próprio filho, que se arruína financeira e emocionalmente, e se deprime, de tal forma que se afoga no álcool, e se perde e acaba na rua, mendigo, dormindo sobre marquises, acordado, dia após dia, chutado pelas pessoas, como um cão sarnento...

Engole o último pedaço da borda da pizza, limpa a boca no pano de prato imundo que larga dentro da caixa vazia. Vira-se para voltar para sua história e para sua janela profícua, mas a vontade de urinar quase esquecida o faz desviar a rota para o banheiro. Entra no cubículo e acende a luz. Recua um passo, o coração acelerado pelo susto. Há uma barata grande na borda da tampa da privada. Munhoz estremece. Um homem que tem medo de baratas. Sempre teve. Medo não, pânico. Uma barata o faz paralisar. Carolina as matava para ele. O inseto permanece parado, só as antenas se movimentando como radares. Munhoz não se move para não assustá-la. Sorte a tampa estar aberta. Ela está à beira da morte e não sabe, bicho asqueroso. Traça mentalmente a estratégia da execução perfeita e limpa. Munhoz será seu verdugo. Então se recosta lentamente na parede ao lado da porta e, alicerçado ali, ergue com cuidado a perna, flexionando o joelho. Agora sustenta o pé no ar, como um jogador congelado fazendo embaixadas numa fotografia. Está descalço e sem calças. Veste somente a cueca azul e o paletó do pijama, manchado, ruço, cheio de bolinhas. A perna magreliça tremelica no ar, sofrendo para manter a posição elevada. Munhoz sustenta a respiração e empurra a parede com as costas para poder avançar a ponta do pé, vagarosamente em direção à barata distraída, incauta, que nem imagina o destino que a aguarda.

Um lépido e certeiro toque com os dedos arremessa o bicho dentro d' água. Rá! – Munhoz grita, exulta de alegria. Apoia o pé no chão e sente uma fisgada forte na virilha, torce a face de dor, mas já abaixa a cueca e aproxima-se do vaso, mancolejando; o jato amarelo escuro da urina matinal procura a barata que luta debilmente para se manter na superfície, mas imerge afundada pela torrencial precipitação da cachoeira, Munhoz desequilibra-se e mija pelo chão, a barata volta à superfície se debatendo loucamente, lutando para sobreviver, e é atingida novamente pelo jato quente, certeiro. Com a mão cravada na válvula, Munhoz agora sorri vitorioso vendo o turbilhão de água arrasar inexoravelmente a esperança do inseto.

Três metros atrás dele, embaixo da cama, em meio ao pó e às pilhas de O limiar da realidade, uma outra barata, ainda maior que a primeira, parece observar a cena. Naquela madrugada, enquanto Munhoz estiver dormindo, ela andará por cima dele e parará sobre seu rosto, junto à sua boca entreaberta, atraída pelo seu hálito de café, cigarros e gordura.
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Cesar Cruz (Clique aqui)
out 2010
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