O Evangelho Integral


“Apesar de tudo estamos em paz. Continuamos confiando em Deus”



Pastor Sérgio Paim, de Nova Friburgo (RJ)*


“Estava de férias no Nordeste, quando recebemos as primeiras notícias das enxurradas na Região Serrana do Rio. Como estava na Bahia, retornando de Natal de carro, levei quatro dias para chegar em Friburgo. Portanto, eu e minha família estamos bem. A primeira sensação que tive, quando cheguei, foi muito ruim. Não é fácil deixar sua cidade bem e retornar em um clima que lembra uma guerra. Carros de bombeiros, polícia, defesa civil e forças armadas por toda parte.

Nossa igreja, assim como várias outras igrejas e entidades, está articulada e dando assistência às vítimas. Montamos equipes para receber, organizar e escoar o que tem chegado até nós. Algumas entidades como Rotary, Polícia Militar, Viva Rio, e outras, têm direcionado todas as doações para nosso templo, que, neste momento, tem toneladas de donativos.

Na última terça-feira (18/01), encaminhamos quatro carretas para outras igrejas a fim de facilitarmos a distribuição de donativos, que não param de chegar. Estamos com jipes, motos, ambulâncias e carros de passeio escoando o que chega para os locais de difícil acesso, onde ainda há pessoas passando fome e sede. Há vários abrigos pela cidade. Também estamos com alguns desabrigados em nosso templo.

Eu, particularmente, tenho chegado a lugares onde fico impressionado. A mídia tem mostrado o centro da cidade, onde as praças e o teleférico foram atingidos e dois prédios caíram. Entretanto, o pior está em determinados bairros. Estive no Alto do Floresta, onde um loteamento inteiro desceu, deixando aproximadamente 40 casas soterradas. Córrego Dantas está praticamente todo debaixo da terra e só é possível ver parte do telhado de algumas casas. Campo do Coelho, Prainha, Jardim Califórnia e vários outros bairros foram quase totalmente destruídos.

Fiquei impressionado quando passei pela estrada que nos liga a Teresópolis, entre o bairro de Duas Pedras e o Hospital São Lucas, que está interditado. A quantidade de pedras do tamanho de automóveis impressiona.

Estou com a lista oficial de óbitos atualizada nas mãos. Embora ainda não esteja sendo divulgado, o número de corpos reconhecidos chega a 532 (só em Nova Friburgo). Acredita-se que esse número chegue a 1500, considerando os locais ainda não alcançados, que podem ser vistos pelos helicópteros. Já temos alguns óbitos confirmados em nossa igreja. Por enquanto são quatro pessoas, mas, infelizmente, estamos sem notícias de vários irmãos que estão em bairros bem atingidos.

A tragédia da região serrana do Rio de Janeiro já é o maior desastre natural da história do Brasil e está sendo colocado entre os 10 maiores do mundo.

Tenho recebido telefonemas e e-mails de vários irmãos querendo saber como ajudar. Pela cidade, creio que devem intensificar as orações, pois a ajuda humanitária - que tem salvado muitas vidas - tem chegado de forma abundante. Mas, se alguém que mora em cidades vizinhas desejar vir nos ajudar, não falta trabalho. Temos muito lugar para dormir no templo.

Por nossa igreja talvez haja algo que as pessoas possam fazer. Temos hoje uma folha de pagamento com missionários que estão no campo. Não estamos preocupados com os pastores e funcionários que trabalham integralmente aqui em Friburgo, considerando que estamos em ‘terra alcançada’ e com nossos familiares por perto.

Mas não sabemos como enviaremos os recursos para nossos missionários. Também não cremos que Deus permitirá que eles tenham que voltar. Todas as nossas igrejas que se mantêm foram atingidas: Itaipava, Sumidouro e Banquete. Considerando que não temos tido reuniões e que a cidade está praticamente parada, obviamente, não teremos receita nos próximos meses. Portanto, toda ajuda será bem-vinda.

Orem pela cidade e, principalmente, pela Igreja. Estamos em choque. É difícil abrir a janela de casa ao acordar e não ver o loteamento que deveria estar a sua frente. É difícil sentir cheiro ruim pela cidade e saber que são corpos em decomposição e que você nem sabe onde estão. É traumático ver filhos, parentes, cônjuge e amigos soterrados ou levados pelas correntezas sem poder fazer nada.

Esta foi a experiência de muita gente por aqui. Ontem sai de perto das pessoas e tive uma crise de choro. Meu carro já estava carregado para sair com donativos e nem seria a primeira viagem que eu faria. Mas um simples adesivo colado em meu para-brisa dizendo: "Transito Livre – Defesa Civil" me fez desabar. Apesar de tudo estamos em paz. Continuamos confiando em Deus.

Pois quem nos separará de seu amor?”

*Depoimento enviado pelo Pr. Sérgio Paim, da Igreja Ceifa, de Nova Friburgo – RJ

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