Mário de Andrade: da paulicéia ao desvario de todos os brasis


Na dimensão de uma cidade multifacetada, até certo ponto bastante cruel para com seus habitantes, Mário de Andrade percebeu o poético inadivinhado de um mundo em construção. Sabia que São Paulo era um empreendimento constante e que, nas suas pegadas, adviria um país inteiro a reboque.


Enio Squeff

Talvez não seja apenas significativo que o mais importante intelectual brasileiro da primeira metade do século XX, tenha nascido em São Paulo - que fosse um mulato e que tivesse pensado o Brasil em praticamente todas as instâncias da sua cultura - das artes plásticas, ao folclore, passando pela música, a literatura e sabe-se mais o quê. Mário do Andrade, de fato, poderia ter se cingido à paulicéia em seus desvarios como o maior centro a se industrializar no País - com seus rios a se ndo intoxicados pelos dejetos das fábricas em seus primórdios; e o seu crescimento desmesurado, com a chegada da mão-de-obra barata vinda principalmente do nordeste. Caberia, quem sabe então, inquirir se foi Mário de Andrade quem inventou São Paulo; ou se foi São Paulo que pariu Mário de Andrade. A última hipótese parece a mais plausível: se o homem é a sua circunstância, não haveria como imaginar outra resposta. É a velha história: sem a Revolução de 1789, a França não teria sido invadida. E, então, Napoleão seria apenas um bom aluno da escola militar Real, de Paris, etc. etc.. Mas Napoleão fez a história da França. Logo...

Seja como for, Mário de Andrade parece ter intuído bem o contexto da predominância de São Paulo sobre o resto do País. Ou nasciam daqui as reflexões totalizadoras sobre um Brasil ignorado pelos brasileiros, ou seria difícil a síntese que ele intentou ao mobilizar intelectuais de norte a sul, para pensar, criticamente, o Brasil, para dissecá-lo, em suma. É muito provável, contudo, que a idéia que daí nasceu, acabaria de uma certa maneira diluída. O personagem "Macunaíma" - "ai que preguiça!" - persiste, sem dúvida, na idéia do "bom malandro"- o tipo simpático que, até certo ponto, ainda se define no brasileiro "cordial". Mas os migrantes que assumiram seus lugares nas linhas de montagem das indústrias, constituíram-se num modelo de trabalhador disciplinado, sofredor e até conformado. No fundo, bastante diferente do personagem arquetípico do brasileiro inventado pelo escritor.

Ao que parece, os "macunaímas" que baixaram em São Paulo, conformaram-se de que até Deus só descansou no sétimo dia, precisamente porque o mundo novo, contemporâneo do capitalismo em mutação, é feito sempre de segundas-feiras; ou melhor, de um ativismo acróitico impreterível, não muito diferente daquele do comendador, o empresário típico, do mesmo "Macunaíma". Esse, como conta o livro, devorava homens por não ter, igualmente, qualquer consciência da autofagia também inscrita na sua atividade. Tempos atrás, um dos maiores industriais brasileiros - paulistano naturalmente - ao admitir só ter saído do Brasil a trabalho e, ao conceder que iria viajar com a esposa para, finalmente, tirar férias depois de dezenas de anos - não concluía, por via de conseqüência que, como dizia Manuel Bandeira ( grande amigo de Mário de Andrade), trabalhara para ter toda uma vida "que podia ter sido, mas que não foi".

Mário de Andrade, a seu turno, ele próprio, no fim das contas parece ter sido muito pouco "macunaímico". Os que o conheceram, dizem ter sido um trabalhador incansável. Foi o que afirmou com a sua autoridade de grande mestre, o professor Antônio Cândido num programa da TV Cultura dedicado ao escritor, levado ao ar uma semana atrás. Como disse o professor, Mário nunca deixou de responder cartas, fossem de seus amigos, fosse do mais obscuro candidato a poeta do interior de Minas ou do Rio Grande do Sul. No fundo -e a constatação é anda de Antônio Cândido - Mário de Andrade, mercê da sua grande generosidade, foi sobretudo um grande epistológrafo - talvez o maior do Brasil - mas sem qualquer dúvida, o mais consciente. .

Fica a pergunta: teria assumido que, como paulistano, haveria que responder ao Brasil nos limites não só da sua importância, mas da proeminência de São Paulo em face do resto do País?

É possível. Talvez projetasse que a inevitabilidade do progresso, visto como uma condenação (que era o que dizia do progresso, Euclides da Cunha ), induziria a que o Brasil se espelhasse em São Paulo. E que muitas de suas mazelas contagiassem todo o resto, como, afinal, aconteceu. No que lhe cabia como parte da sua "paulistanidade" assumida, Mário de Andrade prevenia-se de que seu missionarismo cultural, era a única resposta a um modelo que logo se tornaria hegemônico. E que, de um modo geral, só faria por alienar o Brasil de si mesmo.

Talvez seu anti-positivismo tenha sido o mais notável, da sua contribuição, não apenas para a Paulicéia. Ao insistir numa obra eclética, na qual cabia tudo - da crítica musical, à literatura assumida tanto na poesia, quanto na ficção, ao ensaísmo, mas principalmente na insistência sobre o "nenhum caráter" de seu personagem símbolo, Macunaíma- ele prescrevia a fórmula contra a alienação do sistema que então se iniciava: na sociedade capitalista, administradora de mentes e vontades: o olhar só se espraia quando se nutre da naturalidade de ser homem. Macunaíma, seu personagem-símbolo, morre feliz nos braços alagados da mãe-d'água. Para Mário, a crítica a ser sorvida seria o que ele afirmava no que, em seu poema "Ode ao Burguês", sobressai como negatividade e que ele condenava, como "a digestão bem feita de São Paulo/o homem curva/ o homem-nádegas/ o homem que sendo francês, brasileiro, italiano/ é sempre um cauteloso pouco-a-pouco".

Mário de Andrade, felizmente para ele próprio, não viveu a eclosão da ditadura de 64: essa teria sido o último capítulo do positivismo virtual que engendrou a cidade para o pior que ele previra. De repente, o pouco caso com os seus rios, a própria defesa da poluição como fator de progresso, impôs-se ao país como que um mau modelo a ser seguido. E se São Paulo ainda sofre os efeitos da lição que ela, como cidade, receitou para si própria, talvez caiba um retorno a Mário de Andrade. A começar pelos momentos finais da sua vida (morreu relativamente moço, com não mais de 51 anos).

É de se cismar, por exemplo, em torno da forma com que foi demitido do Departamento de Cultura (que ele criou), e que, quem o pôs no olho da rua, tenha sido justa e significativamente um de seus possíveis antípodas - o engenheiro e prefeito Prestes Maia. Deveria ter alegado algumas razões para fazê-lo, mas o professor Antônio Cândido, em seu depoimento, não hesitou em considerar a intensa campanha de difamação contra o escritor, o motivo maior para a sua demissão.

Supondo-se, enfim, as razões sempre alegadas para as demissões de quem quer que seja- a começar pelo princípio absurdo "de que ninguém é insubstituível"- consoante a consideração capitalista de que todos os homens são apenas mão-de-obra (como se um Beethoven pudesse ser trocado por qualquer Zé Mané de seu tempo), o que resta, para algumas reflexões sobre São Paulo, não é tanto o legado do escritor, mas o do prefeito.

Prestes Maia foi o homem que fez de São Paulo o reduto preferencial dos automóveis: as razões que o induziram a prever o crescimento da indústria automobilística talvez encontre defensores entre urbanistas ou muitos economistas. Na esteira do progresso e da industrialização, o automóvel aduz um salto qualitativo importante, tanto para, a longo prazo, dificultar o trânsito das pessoas, quanto para poluir as cidades. Pode-se agregar, portanto, como ganhos para alguns setores, o estresse despendido nos carros e, sobretudo, a poluição, que implica o crescimento da rede hospitalar. Afinal. o crescimento do PIB faz-se também na ocorrência de hecatombes. Difícil imaginar, a propósito, que Mário de Andrade trocasse de bom grado ir para a sua casa, não de metrô, mas de automóvel. Seria, em suma, a negação da visão de Prestes Maia que ele introduzisse o metrô em São Paulo, e não o automóvel como, aliás, aconteceu. Inclusive, naturalmente, com a abertura das grandes avenidas da cidade, a concluir - durante a Ditadura- pelas que se alagam nas Marginais.

Uma das questões a ser pensada, talvez seja essa. E que resulta ser o paulistano Mário de Andrade o maior repto ao prefeito que hoje é nome de avenida. Dá-se que o homem que, no fundo da sua condição de paulistano, foi o melhor pensador da cultura brasileira, deve ter tido bem claro o que o esperava, como parte da dinâmica da cidade que o fez. Na verdade, a auto-destruição como resultado do crescimento de São Paulo estava já inscrita na sua poesia, nos seus ensaios e muito na sua música: Mário pespegou como ninguém no folclore, na música popular de seu tempo (nada a ver com a música industrializada de hoje em dia), a riqueza de toda uma cultura. Na dimensão de uma cidade multifacetada, até certo ponto bastante cruel para com seus habitantes, ele percebeu o poético inadivinhado de um mundo em construção. Sabia que São Paulo era um empreendimento constante e que, nas suas pegadas, adviria um país inteiro a reboque. Primeiro como um modelo a ser seguido - que foi como os militares conceberam a sua "república" positivista, que eles inauguraram depois de 64; mais tarde, enfim, com a quase sem saída do modelo, a rigor, bem sucedido para o sistema. No tempo de Mário de Andrade, que corresponde ao momento em que surgem Villa-Lobos, Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Camargo Guarnieri, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e por aí afora, a paulicéia não era ainda o desvario paradigmático para o resto da civilização brasileira.

É uma questão a ser pensada, mas é o que fica do seu poema "Meditação sobre o Tietê", talvez a melhor pergunta de um paulistano a sua cidade mais que quadricentenária:

"Por que os homens não me escutam? Por que os/ governantes/ Não me escutam? Por que não me escutam/ os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?/ Todos os donos da vida?/ Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo/ Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito/Metálico dos números, e tudo/ O que está além da insinuação cruenta da posse,/ E si acaso eles protestassem que não/ Que não desejam/ A borboleta translúcida da humana vida, porque/ preferem/ o retrato a óleo nas inaugurações espontâneas,/ Com béstias de operário e de oficial imediatamente/ inferior/ É palminhas e mais os sorrisos das máscaras e a profunda comoção,/ Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade/ deslumbrante/ De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei,/Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as fezes/ Da mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,/Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:/ Nós iríamos de camisas aberta ao peito/ Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,/ entrando na terra dos homens ao coro das quatro/ estações".

Há muito mais neste paulistano que arrostou o futuro da sua cidade. Mas houve também a bonomia brincalhona - esta, sem dúvida, macunaímica - que é o que talvez nos salve. Foi quando Mário de Andrade definiu-se a si mesmo: "Eu sou um escritor difícil/ Que a muita gente enquizila/ Porém essa culpa é fácil/ De se acabar duma vez/ É só tirar a cortina/ Que entra luz nesta escurez".

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

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