As causas necessárias


(*) Emerson Araújo


Sexta-feira, 28 de Janeiro. Nos últimos dias há uma lacuna na minha escritura, um intervalo de propósito, uma luta de vida e morte com as palavras. Não tenho muita certeza, mas sinto que uma nova crise na linguagem se avizinha e é preciso debelá-la com unhas, só com unhas e nada mais.

De qualquer maneira tenho me resguardado nas últimas semanas, ficado na defensiva diante do caminhar do cotidiano singular, do princípio das dores anunciado profeticamente na Bíblia. Há dores demais, ultimamente, perdas humanas por causa da intervenção do próprio humano diante das encostas, das ruas cheias de lixo, da falta de solidariedade, da mesquinhez e, também, da corrupção deslavada que tem campeado homens, mulheres e instituições. Não há como não acreditar que a desesperança voltou com uma intensidade sem margens consignadas apesar da flor branca que brotou do muro da vizinha da frente.

O tempo, agora, está reduzido na música da matriz de São Raimundo que anuncia mais uma morte que não é lucro e sim lágrimas compulsivas retiradas da premência de uma perda querida sempre. A melodia da matriz de portas fechadas é a única ferramenta que ainda mexe com a cidadezinha lenta demais sem capacidade de reagir diante de todas as inadimplências. A cidadezinha acabou se tornando o meu sétimo limite apesar dos ciúmes e silêncios do colibri azul.

A morte, também aqui, é uma premissa inadiável e se compara com a crise da linguagem da escritura. Por isso que debelá-la o quanto antes se tornou uma causa necessária a favor da vidinha lenta que ainda pulsa entre os grotões da cidadezinha que não anda mais. Assim esmerilhar as unhas todos os dias como tecelão é a mais nova tradução para vencer a morte e a crise da linguagem que quer se aportar.

(*) Emerson Araújo – é professor.

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