O direito à decadência


Os cineastas Jean-Luc Godard, Woody Allen, Francis Ford Coppola e até Arnaldo Jabor já não surpreendem mais. Mas alguém pode – ou quer – inovar após os 70 anos?

Revista Época

Luís Antônio Giron


Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV

Existe um cômico abismo entre o que a crítica escreveu sobre os filmes dirigidos por Francis Ford Coppola (Tetro), Jean-Luc Godard (Film Socialisme), Woody Allen (Você vai conhecer o homem da sua vida) e Arnaldo Jabor (A suprema felicidade) e o que eles mostram de fato. A maioria dos críticos brasileiros os chamou de gênios para cima. Os filmes não passam de medianos para baixo. Ninguém mais dá bola para os críticos profissionais, sobretudo depois de todo mundo ter se tornado crítico com o advento dos blogs e do twitter. Os bajuladores são os piores inimigos da arte, porque, enquanto a apunhalam, abrem um lindo sorriso. Até para elogiar é preciso fazê-lo com precisão.

De qualquer forma, as insípidas louvações aos cineastas são reveladores de um desejo que a crítica cinematográfica cultiva de enxergar beleza e gênio em tudo o que seus velhos ídolos fazem. Eles sabem que o rei está nu, mas querem proteger o monarca porque ele já fez tanto por eles e pelo público. Trata-se de uma fantasia compreensível e até comovente, embora caolha (ou deficiente visual, para não ferir a correção). É como se a crítica se recusasse a ver que ídolos têm limites – e que o público pode ter opinião própria e não desprezível. Os críticos em atividade anseiam por esquecer que os diretores envelhecem e perdem a capacidade de se renovar. Eles não pretendem chegar à conclusão de que não se renovar não é exatamente um defeito. A repetição pode ser uma das virtudes capitais. Será que os artistas, depois de certa idade, não têm a prerrogativa de debruçar sobre si próprios incessantemente, repetir-se, de ser o que são sem se preocupar com a marcha apressada da História? Afinal, ninguém é obrigado a ser Oscar Niemeyer, que, aos 103 anos, acaba de estrear como compositor com o samba “Tranquilo com a vida”, em parceria com Edu Krieger.

Os diretores citados já passaram do 70 anos. Coppola, de 74, recebeu salamaleques especiais porque esteve no Brasil para divulgar o melodrama Tetro. O filme foi considerado maravilhoso pelos comentaristas paroquiais, apesar de ter sido um fracasso de crítica e bilheteria quando estreou em 2009 nos Estados Unidos. Só não caí no sono durante a cabine porque a fotografia do longa-metragem é maravilhosa – e traz de volta o Coppola experimental dos anos 80 de Do fundo do coração e O selvagem da motocicleta. Mas a trama ambientada na Argentina é pueril, com vaivéns de uma grande família ítalo-americana assombrada pela figura do pai, um maestro famoso, Carlo Tetrocini (Karl-Maria Brandauer). Foi um fracasso, até porque o gosto do público, mesmo o mais intelectualizado, mudou desde os anos 80. Hoje ninguém tem paciência para admirar uma bela paisagem cambiante de geleiras da Patagônia captada pela câmera de Coppola. E daí? Como diz uma velha marcha carnavalesca, bota o retrato do velho no mesmo lugar.

Os gigantes estão vivendo seu crepúsculo. O caso mais flagrante é Godard. Ele parece ter desistido do cinema como forma de expressão – e produziu Film Socialisme para fazer um afago aos velhos seguidores. O resultado é uma colagem de cenas de um cruzeiro marítimo que o diretor fez entre Marselha e o Egito. Entre uma panorâmica e outra, o narrador se lamenta da decadência da Europa e da incompreensão dos ocidentais para com as civilizações do Oriente. O gênio “franco-suíço” (como os críticos se acostumaram a denominá-lo por aqui) maldiz a globalização, a humanidade e até o cinema. Ele declara sua rendição no ano em que completa 80 anos. Quase chorei de emoção. Mas o filme é um flop. Achei curioso que o filme tenha recebido tanta serpentina. Não há socialismo nem filme para ver.

Talvez porque os críticos gostam de alguém – e pronto, não tem para mais ninguém. A plateia muitas vezes faz a mesma coisa. Os fãs de Woody Allen sabem do que estou falando. A gente vê seus filmes como se fizessem parte de um enorme reality show. O reality show da vida do diretor, com suas insânias, manias e lampejos de genialidade. Você vai conhecer o homem da sua vida transcorre em Londres – e mostra um quadrado amoroso mil vezes repetido nos 40 filmes de Woody Allen. Aos 75 anos, seu filme faz parte de uma série de filmes menores. A comédia pós-romântica Você vai conhecer o homem da sua vida gerou uma apoteose de resenhas positivas. É um tributo a tudo o que Allen já fez. E ao que fará, que felizmente não deverá nos surpreender.

O carioca Arnaldo Jabor, de 70 anos, é um caso especial. Talvez porque tenha virado jornalista nos últimos 18 anos, abandonando praticamente o cinema, ele ganhou várias críticas de exaltação a sua volta por parte dos coleguinhas. Mesmo assim, sua presença de polemista diário lhe causou algumas dores de cabeça. Foi criticado por aqueles que chamou de “patrulhas do pop”, os blogueiros que ousaram falar mal de A suprema felicidade. Eu me emocionei com o filme, pois me lembrou de uma vida que não vivi, a década de 50 e as situações que uma sociedade baseada na alienação e na hipocrisia gerava: a paixão pela prostituta, o pipoqueiro e outras figuras típicas. Mas não vamos exagerar e dizer que Jabor revoluciona o cinema brasileiro com o longa-metragem. Ele ainda faz o cinema de antes da retomada, em 1997. É como se o cineasta voltasse para reatar com a arte que abandonou longos anos atrás. As “patrulhas do pop”, como ele chama, não gostaram porque nem sabem quem é Arnaldo Jabor cineasta. Eles só conhecem o polemista diário, cuja virulência o torna mais jovem do que é aos ouvidos das novas gerações. Aos 70 anos, porém, Jabor foi um mestre do cinema brasileiro. Espero que sua volta produza novas e melhores repetições das fórmulas que o tornaram referência na filmografia nacional.

Não sei por que as pessoas temem a decadência. Ou a chamada decadência. Já fui chamado mil vezes de decadente e ri todas as vezes disso. Porque há um glamour na decadência. É ótimo repetir frases feitas. Divertido posar de ultrapassado. É grandioso debruçar-se sobre o ontem e produzir um lamento pungente. Não acredito que nenhum dos grandes artistas que citei esteja preocupado com isso. Como artistas que são, têm consciência dos limites – e da marcha invencível do tempo. Nada melhor do que ser datado. A lápide exaltatória é a realização maior do homem, prova de que ele contribuiu com o progresso de seus semelhantes. Enquanto houver decadência, a arte viverá. Aconselho quem teme a decadência a ouvir o que diz o samba de Niemeyer: “Hoje em dia minha vida vai ser diferente/ Calça de pijama, camisa listrada, sandália no pé/ Andar pela praia vou fazer toda manhã/ E até moça bonita vai ter se Deus quiser”.

(Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras)

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