A morte é a carona



Emerson Araújo


Nunca me detive para refletir sobre a morte. Sei que ela é um fato da vida sem contestações e que ela virá impávida, provocando lágrimas derramadas em todos os rios e clamor, muito clamor pela perda invariavelmente de amigos, parentes, colegas e até dos desafetos reais e que imaginamos existir. A morte como diriam os filósofos das calçadas e praças é morte e, como tal, merece a nossa mais pura abominação.

É, mas devo baixar todas as guardas mediante a morte, pois ela é atrevida por excelência e não escolhe hora, dia, família, saudade, ente querido ou não, situações, classe social. Que os digam o soluço contido de Tio João Afonso e o choro de Tia Jesus desde sábado quando do falecimento da professora Rose (Rosinha para a família) em Teresina. Como diria o versículo bíblico: “...o tempo é de dor e ranger de dentes...”. Em Tuntum, os dias, à medida que avançam, são mais tristes e a partida súbita de Lúcia configura um vazio ruim em todos nós.

E não me venham com palavras de esperança subtraídas de clichês previsíveis, sabemos nós, de formação cristã, que existe uma vida após a morte, mas para as famílias Feitosa e Moura, neste momento, isso não basta porque a doença auxiliou a tal morte para ceifar na tenra idade a nossa Lúcia Rose, como seu jeitinho frágil, alegre nos dias de domingo em frente ao “Armazém presente que Deus me deu”. A Rosinha, talvez, fosse a única pessoa do mundo a colocar um sorriso largo na face carrancuda de Tio João Afonso. Daí a minha revolta emocional sem metáforas latentes, também, contra a doença que mata e não pede licença, dando alimentação para a morte nos impedir de conviver com quem queremos, quem amamos, neste amor dito incondicional.

Devo imaginar, por fim, das tristezas estampadas na face dos dois filhos de Rose, do marido Chico do Lelé, dos irmãos Assis e Margarida, dos pais (não consigo ser impessoal quando estou em frente ao sofrimento de Tio João Afonso e de Tia Jesus), dos tios próximos e distantes, dos primos, dos colegas de trabalho, alunos, afilhados e amigos. Todos consternados sem “cair a ficha” como tem dito Jonas Filipe (meu filho, sobrinho da Tia Rosinha como ele a chamava).

Porém existe uma dor de cronista que agora se desfaz em lágrimas, a minha, pois a morte, este estupro a vida, subtraiu a presença da Rose (minha prima-irmã) de todos, justamente no dia do meu aniversário. Acredito que a famigerada morte quis me penalizar ainda mais, talvez porque manuseio mais ou menos as palavras do sentimento e do espanto. Em razão disso duas coisas moteio aqui, o onze de dezembro se tornou trágico e a morte conseguiu ser minha desafeta eterna.

(*) Emerson Araújo – é professor, poeta e cronista.

Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Pois é, Emerson... Não há guarda-chuva contra a morte (o João Cabral deveria ter escrito isso lá naquele seu poema para Drummond!). E não há o que possa ser feito. E não há consolo também! Ah, já perdi tanta gente... Pai, mãe... Tenho medo que esta grande vilã, sorrateira e vil, venha atrás das pessoas que amo. A cada dia é um dedo, um receio, uma temeridade...

A morte é o maior tema filosófico da minha vida, e transparece em quase tudo o que escrevo. O absurdo da morte, é essa a grande abominação!

Lamento por essa sua dor recente...

abraços
Cesar