Artigo



MEMÓRIAS NA ESCRITA DE AUTORIA FEMININA AFROBRASILEIRA[1]

Assunção de Maria Sousa e Silva[2]

“Está dada a ordem de se lembrar, mas cabe a mim me lembrar e sou eu que me lembro.” (Pierre Nora)

Introdução

Memória e história são duas categorias indissociáveis no tocante à produção literária brasileira. Há na história da literatura brasileira um seguimento de produção em que a memória é o tema recorrente e rico em significações para a compreensão não só do contexto literário da época, mas também para o processo criativo. A percepção do presente ou as atitudes (ações e reações do corpo sobre o ambiente) que se realizam no contexto de época muitas vezes efetivam-se por meio do movimento contínuo entre o presente e o passado. Encontros, cheiros, sons, conversas são elementos propulsores dessa viagem ao passado no intento de revivenciá-lo voluntária ou involuntariamente. As memórias surgem, seja para um saudoso reviver passivo e confortante, ou para um instigante, sofrível, desconcertante e resistente acerto de contas com o passado.

Esse último sentido é o que vamos identificar nos dois textos que ora nos detemos a uma breve leitura: o conto “Xeque-mate” de Miriam Alves (2007), escritora paulista, que tem nos brindado com instigantes prosas e versos nos Cadernos Negros, produção de autores afrobrasileiros, que em 2010 completou 33 anos de ininterrupta publicação; e o capítulo IX, intitulado “A preta Susana” do romance “Úrsula” de Maria Firmina dos Reis, publicado pela primeira vez em 1859.

Antes, porém, fazem-se necessárias algumas reflexões sobre a memória para, em seguida, esboçar um possível leitura desses textos literários, levando em conta a concepção de memória do ponto de vista social e individual, à medida que esta é revitalizada nas relações pessoais (do eu com o outro) e com o próprio passado das personagens.

Desencadeamento da memória

Pensa-se a escrita literária como um produto ficcional engendrado a partir das condições de produção do autor e, por essa via, pela forma como este opta por conduzir sua visão na revelação do mundo que cria. Aqui, compreendemos, portanto, que o autor/a não é o ser indiferente à significação do texto, e a leitora que agora se coloca entende a interpretação como uma intenção humana pelo ato criador de, sem presunção, desvelar o que há de ressonância entre a memória e o processo criador das autoras evidenciadas.

Problematizando os lugares da memória na história, Nora nos esclarece certas questões importantes sobre a realidade da memória em relação aos aspectos constituintes da história e seus desdobramentos.

A memória se cristaliza e se refugia onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais (Nora, 1993: 7).

Este sentimento de continuidade que se realiza conforme as circunstâncias e pelo configuração dos lugares que desencadeia o processo de memória, parece reside na consideração de que a memória, como salienta o autor, é

a vida, sempre carregada por grupos vivos, e neste sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações (NORA, 1993:09).

Essa dimensão atual e vulnerável da memória repercute não somente no indivíduo em si, no presente, mas também no grupo a que ele está ligado, pelas vias das lembranças, que se desencadeiam em um momento dado. Daí relembrar Halbwachs que revela, segundo Nora (1993), que a natureza da memória é “múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada” (p. 09).

Segundo Nora, a psicologização da memória na contemporaneidade deu ao indivíduo “um sentimento de sua salvação ao quitar uma dívida”. Provavelmente isso não ocorra conscientemente, no entanto vir à tona a memória esfacelada ou rasurada, a que durante muito tempo foi propositadamente esquecida, desencadeia um processo de ajuste de contas com o passado e, por conseguinte, consigo mesmo, para que depois este passado não mais venha perturbar.

A Pollak também recorremos, quando este teórico tratar da memória e esquecimento e nos aponta outro foco de reflexão naquilo que queremos situar: a memória de sujeitos impossibilitados, sujeitos que estão à margem do processo social ou que estão alijados da história oficial: personagens negros/as que estão nas narrativas marcadamente em situação de conflito que guardam subterraneamente suas memórias.

ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem à ‘Memória oficial’, [...] (POLLAK, 1989:4).

Pollak acrescenta de forma bastante apropriada que são as memórias “subterrâneas que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerbados”. Tais constatações são importantes e fáceis de serem percebidas. A memória dos indivíduos em situação de conflito entra em disputa (expressão usada por Pollak) visto que nos casos por ele pesquisados revelava-se batalha da memória proibida, senão clandestina que vem abruptamente romper o silêncio. As “memórias subterrâneas” conseguem invadir o espaço público por que permanecem vivas.

O longo silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais. Ao mesmo tempo, ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades, esperando a hora da verdade e da redistribuição das cartas políticas e ideológicas (POLLAK, 1988:5).

Da memória individual ou de grupo, Pollak nos ajuda a compreender também as disputas da memória na comunidade ou de uma nação. Podemos, por essa via, reconhecer que as memórias dos sujeitos negros se revelam não só na reconstituição de suas histórias de origem ou de vida, mas também como ato necessário para a “redistribuição das cartas políticas e ideológicas”. Por isso, é que não há memória sem a história; por vezes são distanciadas, contudo uma não existe sem a outra, como meio imprescindível para que o sujeito constitua ou construa a sua identidade ou seu pertencimento.

Desta forma, a memória também é reconhecida como espaço de resistência dos indivíduos que constituem um determinado grupo. Ao rememorar a história ou fatos de um episódio por seus membros, ou a história de vida de pessoas ou personagens, tem-se então a memória repleta de resquícios identitários.

Essas características de todas as histórias de vida sugerem que estas últimas devem ser consideradas como instrumentos de reconstrução da identidade, e não apenas como relatos factuais. Por definição reconstrução a posteriori, a história de vida ordena acontecimentos que balizaram uma existência. Além disso, ao contarmos nossa vida, em geral tentamos estabelecer certa coerência por meio de laços lógicos entre acontecimento chaves [...] e de uma continuidade, resultante da ordenação cronológica. Através desse trabalho de reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros. (POLLAK, 1989:13)

A história de vida, os acontecimentos chaves vêm muitas vezes em uma exposição de conflitos e tensões que marcaram as relações entre o eu e o outro e que aquele que lembra se permite adentrar nos vãos cercados pelo esquecimento e pela linguagem e é com esta que o autor também lida para explorar e construir o mundo ficcional. As histórias escritas por autoras negras revelam recorrentemente a aliança que há entre memória e a ficção. “Escrever para existir” já dissera a poeta Elisa Lucinda. Escrever para lembrar, para reconstruir, para pertencer é o que podemos constatar na escrita de autoria negra.

No crivo da criação, as autoras criam personagens, também femininas, que reivindicam o espaço da memória, que se inquietam diante da possibilidade de deter o olhar sobre o passado, trazem-no para o presente e assim reelaboram suas identificações.

Memória e história em escritos femininos

A memória na ficção é antes um artefato do próprio fazer literário. Se ela não é o produto final do processo, sem dúvida, é a fonte de engendramento do ato criativo. Talvez seja por isso que o/a autor/a não se rescinda da matéria para criar seu mundo ficcional. A memória está na escrita como o ar para o ser humano. Contudo, para que não seja apenas o/a autor/a um mero descritor/a de lembranças no seu papel de elucidador/a do mundo inventado, urgem os mecanismos – requisitos indispensáveis- para deixar de ser memória história para ser memória ficção.

1 – Irene, Cláudia e Verônica, do conto “Xeque-mate”, de Miriam Alves – memórias envergonhadas

O conto “Xeque-mate” de Miriam Alves narra a história de três personagens femininas no inesperado reencontro no aeroporto. As três amigas têm filhas que irão a uma excursão de escola de ensino médio e inusitadamente se reencontram. Todas não se vêem há anos, fruto de uma separação resultante de uma episódio trágico. Ali no aeroporto, o reencontro é nervoso, atônito e carregado de lembranças ameaçadoras. O reencontro rompe com o esquecimento imposto e instalado para cada uma em suas vidas isoladas. O reencontro provoca reações físicas, emocionais e afetivas, de forma dolorosa e, ao mesmo tempo, de forma a restabelecer, pelo menos momentaneamente, aquele sentimento de amizade que antes perdurava.

Por que tão sofrida lembrança desencadeada abruptamente no que deveria ser simples reencontro de amigas? Por que o pacto do silêncio e a separação? Por que aquele reencontro no aeroporto?

A memória subverte o silêncio e aflora exacerbadamente no momento de crise (Pollak, 1989) no interior de cada personagem. Há, no entanto, o que comanda a ordem do pensar e que conta ao leitor a intensidade e a densidade das reações de cada uma das personagens. Desta forma, é que percebemos a estrutura narrativa. Como num jogo de xadrez, a forma de narrar se reveza em um ir e vir, passado e presente, confluindo-se na fala do narrador e, através do discurso indireto, nas “vozes” das personagens.

Um conto memorialístico em que declaradamente o narrador pincela momento a momento como leitmotiv “a memória reavivada, guiada na sensibilidade do instante a conduzia por caminhos para além do bloqueio que erguera isolando os eventos ocorridos naquele dia na praia” (Xeque-mate, 2007:171). Por ele, compreendemos a memória como busca mediadora do contado. Logo no início, o narrador nos diz: “os sentimentos das três mulheres eram bússolas desgovernadas para a rosa dos tempos passado, presente e ... Corações em disparos”. O futuro era o aqui e o agora em “sobressalto seguido de um silêncio pesado e desconfortável” (Op.cit., p.167)

A partir daí, as cenas entrepostas são primeiro em focos individuais para depois ir compondo o espaço narrativo. Como num jogo de xadrez, ali estão “frente a frente pessoas, fatos, segredos, promessas que no passado transformou destino e alterou rumos da vida de Cláudia e de suas duas amigas” (Op. Cit., p.167-8).

A forma como as personagens femininas vão sendo delineadas revelam como a memória interfere no espaço psicológico da narrativa. Verônica, petrificada, está “muda, paralisada, sob seus pés o chão se transformando em concreto fresco que endurecia rapidamente aprisionando a ação” (Op.cit., p.168), Irene aparece como “escamoteando a tormenta de pesadelos todos que perseguiu noite após noite durante todos esses anos” (Op.cit, p.168), contemplando as amigas que para si parecia “fantasmas saídos repentinamente da bruma da escuridão de sonhos angustiantes” (Op.cit, p.168).

Quadros de memória interpõem-se para constituir o aspecto fugidio e assombrador da memória das personagens. Cada uma vai se escorar em pontos diversos e vitais para a sobrevivência de si como ser humano. Assim, Irene “esforçou-se para esquecer, assustada, com medo da própria sombra, mudou de cidade em cidade, numa existência ermitã, e aos poucos refez a vida” (Op.cit, p. 168). O efeito paralisador se concretiza na tripla repetição da frase, cada vez mais enfática, que conota a petrificação das três personagens diante do reencontro:

rostos quase colados na vidraça da sala de espera do aeroporto (Op.cit., p. 170). - (referindo-se as três)

com a fase colada ao vidro (Idem, p. 171). - (referindo-se a Irene)

Com as mãos espalmadas na vidraça (Idem, p.172). - (referindo-se Verônica)

A recorrência desta expressão física realinhava o estado de paralisação em que as três se encontravam. A voz do narrador reitera a culpa permanente em cada uma das personagens durante os anos. Irene se culpa pelo jeito de ser e agir que tinha, por isso

esforçava todos esses anos para apagar as marcas da sensualidade, do prazer em si mesma, mas via sua filha seu espelho e se desassossegava. Acusava-se pelo ocorrido naquele domingo, tudo culpa sua mesmo, por se fazer de gostosa, colocou todas a perigo. (Idem, p.172)

O trecho acima é bastante revelador da culpabilidade que atordoa Irene. Ela era uma mulher sensual, exuberante, que ao chegar à praia com as amigas, levadas por Carlos, este tenta violentá-la. As três entram em desespero e revidam, sangrando-o. Após isso, o que mais as sufoca é a maneira com o episódio se desenrola. Carlos é empresário, não quer escândalo, tenta persuadi-las e consegue o silêncio dando a cada uma grande quantia em dólares. Isto causa desconforto, brigas, separações entre elas, mas aceitam e cada uma vai viver sua vida. E só depois, anos depois se reencontram no aeroporto quando coincidentemente as três foram deixar as filhas para irem a uma excursão.

Em Verônica as sequelas foram também demolidoras:

assombrada, via a cara daquele imundo, ‘um sorriso malicioso e voluptuoso. No meio da noite, acordava a ouvir o urro do bicho-fera sangrando ferido. Gritos, misturados aos gritos de horror de Irene e à gargalhada estridente de Cláudia. (Idem, p.172)

As três personagens femininas têm três filhas e se apavoram com o que a vida pode preparar para essas meninas. Vendo que cada uma traz algumas de suas qualidades ou defeitos, inquietam-se com o que estas podem herdar, no misto de desejo de liberdade – que suas filhas não percam a possibilidade de ser mulher plenamente e sentimento de culpa, medo pela realidade que as a cercam, revelando uma esperança de que as filhas tenham a capacidade de se protegeram mais que as mães.

E ali, naquele momento, a memória mais do que reviver o fato, redimenciona o olhar que cada uma tem de si mesma durante aqueles anos todos sem se encontrarem e sem tocarem suas lembranças. O silêncio da memória, o silêncio da fala, o distanciamento com o passado não foram capazes de eliminar o trauma, pelo contrário agiu como se fora um fogo brando no entulho, conforme a voz do narrador:

Ao escamotear as verdades das lembranças, ergueu um escudo invisível num estéril esforço de preservação. Resguardava-se; no entanto, no tabuleiro do jogo de xadrez da vida, as pedras da verdade movimentavam-se e prenunciavam um xeque-mate, sem possibilidade de fuga. (Op. Cit.,p.172)

Então tais estados de memória correspondem àquilo que Pollak nos assegura ao tratar da disputa da memória dos libertados judeus ao retornarem à Alemanha ou à Áustria. Diz o pesquisador:

Este exemplo mostra também a sobrevivência durante dezenas de anos, de lembranças traumatizantes, lembranças que esperam o momento propício para serem expressas. [...]

[O] silêncio sobre o passado está ligado em primeiro lugar à necessidade de encontrar um modus vivendi com aqueles que, de perto ou de longe, ao menos sob a forma de consentimento tácito, assistiram à sua deportação. Não provocar o sentimento de culpa da maioria torna-se então um reflexo de proteção da minoria judia. Contudo, essa atitude é ainda reforçada pelo sentimento de culpa que as próprias vítimas podem ter, oculto no fundo de si mesmas (POLLAK, 1989:3).

Irene, Verônica e Cláudia aceitando a proposta de Carlos “comprometeram sua dignidade”, dividiram os dólares como também se submeteram eternamente aos desígnios condenatórios e autocomiseração, prevalecendo, conforme Freddy Raphael apud Pollak “a memória envergonhada”, imobilizadora, em que os efeitos psicologizante deixam-nas passivas e com um claro sentimento de abandono.

Temos, portanto, uma narrativa de autoria feminina que consegue esboçar os percalços do interior das personagens femininas, evidenciando as preocupações e enfrentamentos que as mulheres contemporâneas ainda hoje vêm sofrendo, que é a violência de gênero e as impossibilidades de se desvencilhar ainda que tardiamente das imposições do sistema patriarcal e racista.

2 – Susana em Úrsula de Firmina dos Reis – memória de resistência

Úrsula é o romance da maranhense Maria Firmina dos Reis, com primeira publicação em 1859. No IX capítulo, centrado em Susana, a autora também recorre ao mecanismo da memória em um momento importante da narrativa quando Túlio comunica à escrava Susana que vai acompanhar em viagem o senhor Tancredo e deixar os seus amigos. Neste momento, Susana repreendendo Túlio de sua atitude cega de servir ao senhor branco, adverte-o questionando: “de que adianta trocar um cativeiro por outro?” (Úrsula, 2004:113), todavia não consegue convencê-lo a ficar. Túlio acha que acompanhando o branco bondoso poderia um dia ser livre, alcançar a sonhada liberdade. Então, a velha Susana ao inquiri-lo sobre sua liberdade, despertar-se para “uma recordação dolorosa”: a saída de África e o seu cativeiro.

A memória apresenta-se com dois sentidos: a primeira de refrescamento, em meio às agruras do presente, as lembranças da mocidade e da vida livre; a segunda como tormento de sua captura e coisificação. Vamos ao texto:

Liberdade! Liberdade! ... ah! Eu a gozei na minha mocidade! [...] Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais do que eu. Tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo aí respira amor, eu corria às descarnadas e arenosas praias. Ah! Meu filho! mais tarde deram-me em matrimônio a um homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em que me revia, em quem tinha depositado todo o amor da minha alma: − uma filha, que era a minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, veio selar a nossa santa união. E esse país de minhas afeições e esse esposo querido, essa filha tão extremamente amada, ah, Túlio! tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh! Tudo, tudo até a própria liberdade! (Úrsula, 2004:117)

Por este depoimento, Susana rememora sua vida pregressa em que viviam as pessoas mais importantes de sua vida. Aqui a memória é revigorada. Momentaneamente as lembranças felizes dominam o seu presente, francamente reforçada pela dicção romântica que marca o texto literário da época.

Neste aspecto, vimos dois planos da narrativa, naquele que Susana em diálogo com Túlio – o plano do enunciado - pressente a dor, a aflição que virá, exercendo a função de conselheira, como voz de autoridade, e para isso retorna ao tempo passado. Esse passado apresenta-se, primeiramente como revigorante, quando dele é dito os bons momentos, todavia esses (bons momentos) se contrapõem a outro tempo que a faz “extenuada de aflição”, no dizer do narrador, em que “a dor era-lhe viva, e assoberbava-lhe o coração” (Op.cit., p.115).

No plano da enunciação, passa a vigorar a memória esfacelada, que opera os acontecimentos de maneira denunciadora, por que não trata apenas de um subterfúgio para falar de si, mas da expressão de uma memória coletiva. É a história de milhares e milhares de escravos que aportaram impositivamente no século XVI e XVII no Brasil. Susana passa a contar sua trajetória de cativeiro:

Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar acerca do perigo iminente, que aí me aguardava. E logo dois homens apareceram, e amarraram-me com cordas − era uma prisioneira. Era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituísse a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão. Julguei enlouquecer, julguei morrer, mas não me foi possível... a sorte me reservava ainda longos combates. Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava – pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! meu Deus! o que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudestes avaliar!...

Meteram-me a mim e a mais de trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lados muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los â sepultura asfixiados e famintos (Op. cit.. p. 117).

O re-memoriar de Susana vem de forma a ajustar o sujeito ao seu pertencimento, quando a memória individual se integra à memória coletiva. A história de Susana é também a história de todos aqueles que foram arrancados de sua África e jogados no navio negreiro. Desta forma, percebe-se uma coesão interna naquilo que ela e seus companheiros têm em comum, as sensações, os sentimentos que afloram, as emoções que vêm à tona, não são isoladamente de Susana, mas de sua etnia, do grupo a qual ela pertence, visto que o que se passou no fundo de sua alma, só Túlio poderia imaginar, porque Túlio é também negro e escravo.

O comentador P... foi o senhor que me escolheu. Coração de tigre é o seu! Gelei de horror ao aspecto de meus irmãos... os tratos, por que passaram, doeram-me até o fundo do coração! O comentador P... derramava sem se horrorizar o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência, por uma obrigação mais tibiamente cumprida, por falta de inteligência! E eu sofri com resignação todos os tratos que se dava a meus irmãos e tão rigorosos como os que eles sentiam. E eu também os sofri, como eles, e muitas vezes com a mais cruel injustiça (Idem, p. 118).

Podemos entender o aspecto sobre o qual a memória de Susana revive a dor e o sofrimento, a partir das referências com as quais ela reinterpreta o passado, como o enquadramento da memória (Pollak, 1989). A imagem do passado que repercute em si é o sentido da identidade e de alteridade que a personagem carrega. No jogo da memória entre o passado e o presente, os “rearranjos” da personagem estão postos por outra camada discursiva autoral: a estratégia promissora que a autora empreendeu para trazer, pela voz da personagem, a chaga social por que passa a nação em pleno cerco escravagista. A memória individual alimentada não diz apenas de sua vivência individual, ela sobrevive ancorada na história coletiva difícil de ser eliminada.

Diz Pollak que

Indivíduos e certos grupos podem teimar em venerar justamente aquilo que os enquadradores de uma memória coletiva em um nível mais global se esforçam por minimizar ou eliminar. Se a análise do trabalho de enquadramento de seus agentes e seus traços materiais é uma chave para estudar, de cima para baixo, como as memórias coletivas são construídas, desconstruídas e reconstruídas, o procedimento inverso, aquele que, como os instrumentos da história oral, parte das memórias individuais, faz aparecerem os limites desse trabalho de enquadramento e, ao mesmo tempo, revela um trabalho psicológico do individuo que tende a controlar as feridas, as tensões e contradições entre a imagem oficial do passado e suas lembranças pessoais (POLLAK, 1989:11).

Evidentemente que não podemos transpor tais conjecturas sem as devidas adequações para examinar um texto literário, no entanto há de se convir que, diante das forças de tensões que prevaleceram no contexto histórico da escravidão e os mecanismos de forças com os quais o poder dominante mantinha os escravos, sob o subjugamento, o enquadramento dos agentes dominantes forjaram durante séculos e séculos o silenciamento e o sentimento de culpa e de resignação que ainda hoje perdura no imaginário coletivo negro desprovido de uma visão crítica sobre sua realidade opressiva. Por este enfoque é que podemos inferir que as produções literárias de autoria de afrobrasileiros/as constituem-se, a nosso ver, uma arma de combate e de resistência, na perspectiva de destituir o “enquadramento dos agentes dominantes”, em vista a não apenas registrar o silenciamento e as marcas de violência contra pessoa negra no decorrer da história opressiva da nação, mas preferencialmente expor de maneira incisiva a memória indignada a fim de suplantar a imagem de secundarização que à pessoa negra vem sendo colocada nas mais variadas esferas sociais como também na ficção.

O conto de Miriam Alves e o fragmento do romance de Maria Firmina dos Reis exemplificam que na escrita de autoria feminina negra que se sobressaem como lugar de anunciação e reflexão das identidades e suas fronteiras, “a identidade negra é atravessada por outras identidades, inclusive de gênero [...]” e seguindo o ponto de vista lançado por Hall, “a política identitária essencialista aponta para algo pelo qual vale lutar, mas não resulta simplesmente em libertação da dominação” (Hall, 2003:12).

Isto posto, situar a memória na ficção requer menos deslocamentos de concepções entre áreas teóricas distintas e mais enfoque nos desdobramentos do jogo das diferenças, sobretudo ao entender o processo identitário como lugar de tecer posição e contexto no dado referencial histórico.

As memórias das personagens aqui focadas advêm do ato criativo, mas também da forma como as autoras foram sensibilizadas pelos contextos históricos e sociais de suas épocas e de suas intencionalidades. Se no conto de Miriam Alves podemos vislumbrar uma elaboração de memórias que refletem as tensões de gênero, onde perpassam a dominação masculina sobre a consciência das três personagens femininas, de forma a interferir nos caminhos trilhados pelas três posteriormente; no romance de Maria Firmina dos Reis sobressai a memória que, inicialmente individual, transpõe para a memória coletiva e histórica, visto que aquilo que é rememoração da personagem também o é de um povo em um contexto de escravidão.

Considerações finais

A escrita de autoria feminina negra no Brasil vem delineando seu lugar na história na literatura brasileira. Maria Firmina dos Reis a Miriam Alves, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro e outras de iguais fôlegos nos legam produções indubitavelmente reveladoras da realidade de homens e mulheres negros/as no nosso contexto brasileiro de antes e de hoje. Para além de registro de uma época, revelam uma concepção estética comprometida como afrobrasileiras e como sujeito histórico-social.

Esse ato de dizer comprometido com a história coletiva é o que representa com força maior a inserção modificadora no campo da historiografia literária, até então cenário de visibilização dos autores masculinos e brancos/as. Por isso concluímos que com a presença dessas escritoras no cenário literário brasileiro, podemos apontar o potencial da escrita feminina negra reveladora de sentidos contestatórios.

Referências bibliográficas

ALVES, Miriam. “Xeque-mate”. In. Cadernos negros contos afro-brasileiros. Vol. 30, (Org.) Esmeralda Ribeiro; Márcio Barbosa, São Paulo: Quilombhoje, 2007. p.167-174.

HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Vertice, 1990.

HALL, Stuart. Da diáspora Identidade e mediações culturais. (Org.) SOVIK, Liv. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

NORA, Pierre. Entre a memória e história A problemática dos lugares. In. Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo, SP – Brasil, nº 10, Dezembro, 1993, p. 7 – 28.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. In Estudos históricos. Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989, p.3-15.

________. Memória e identidade social. Estudos Históricos, v. 5, n.10, 1992.

REIS, Maria Firmina. Úrsula. Florianópolis: Ed. Mulheres; Belo Horizonte: PUC Minas, 2004.


[1] Artigo com adaptações, originalmente apresentado no VI COPENE – VI Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) - UERJ –RJ, julho/2010, sob o título “A memória na escrita feminina negra”.

[2] Professora Assistente da UESPI/UFPI/FSA.

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