As cores da efusão lírica


Foto: Kenard Kruel


Emerson Araújo

As boas e más línguas dizem que sou sem memória. Há um quarto de verdade, nesta quase certeza que afirmam sobre mim. Apenas aprendi, ao longo de cinco décadas, que a vida, às vezes, não ultrapassa a porta de algumas salas, as reais e as que criei por força da utopia da minha intensa geração.

Sendo assim, reconheço, sem nenhuma ponta de inveja, não me preocupei em pincelar apenas um bar, uma dose, uma menina ou um verso lapidado com competência ou não. As fragmentações advindas dai se tornaram uma tônica de todas as minhas militâncias, amores e escrituras, fiz-me espanto em tempo integral e não há refluxos por isso.

As fatias da laranja ao meio, como diria o poeta, amargaram em mim como escuridão em tempo de grilhões e toalha na boca. A única partilha, aqui, se transformou em eternidade para o dia de hoje ou, no mínimo, para o amanhã que será outro dia, outra existência sem rodeios e sem pretéritos de toda ordem.

Sempre fui do presente, dos dentes presentes porque todos os tempos urgem e há pressa e decisões previsíveis a serem tomadas. O pão diário jamais poderia servir de reflexões extensas, o vestuário, também. A vida presente é o meu mais pretenso arco-íris no fim de uma tarde de novembro, quem sabe.

O começo desta semana é a efusão lírica montada em carrossel que planejei. O resto do dia, uma bofetada na memória do lugar-comum, do lugar-nada, na morte dos bares pincelados, nos salões de livros da burguesia letrada de plantão, na institucionalização do poeta-avesso, na poesia sem espanto e nas meninas que já não enfeitam o meu sol de inverno.


(*) Emerson Araújo é professor e poeta.

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