A crônica da semana

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TERESINA: CIDADE ESCOTEIRA

07/10/2010

{post escrito pelo Nando Reis}

Teresina é uma dessas cidades que parece que não existem. Não porque não seja relevante, pelo contrário. Simplesmente porque possue uma característica muito atípica para uma capital do Norte/Nordeste: não fica no litoral. É uma cidade charmosa, plana e quente, muito quente! Mas o tempo inteiro tem-se a impressão de que daqui a dois quarteirões vamos dar no mar e…nada! Isso dá aos nossos olhos, em Teresina, uma visao de ininterrupta procura. Ficamos permanentemente preparados para a qualquer instante debruçarmos o olhar sobre o Atlântico que não vem, que nunca chega. Em Teresina estamos o tempo inteiro de prontidão, alertas. É uma cidade escoteira.

Cheguei de lá no ultimo domingo, após um show surpreendentemente cheio e animado. Uma plateia assim: em busca, de prontidão, otimista. Com os olhos ávidos para ver o mar e neles descansarem. Enquanto ele não chega, divertem-se com as ondas que qualquer barato oferece. Qualquer barato não! O barato que foi escolhido, eleito e preferido. Foi assim com o show. Éramos o mar sobre o palco diante da plateia vasta como a areia. E assim fizemos, todos nós, juntos, praia em Teresina.

Conto isso para dizer que trouxe uma forte impressão dessa viagem. Um olhar diferente, imaginoso. E quando pousei na manhã de domingo em São Paulo, embora exausto, atravessei o dia inteiro guardando um silêncio que continha uma miragem, uma visão inclusa. E foi assim até a hora que finalmente pude repousar em casa. Era tarde gorda de futebol. O Campeonato Brasileiro começa a pegar fogo. O Segundo turno é sempre mais interessante pois, atualmente, podemos dizer que já sabemos qual será o elenco que vai chegar ao pódio. Digo elenco porque o time é o mesmo, mas o elenco muda significativamente depois que se encerra a temporada de contratações europeias. É agora que sabemos com quem iremos contar.


Santos e Flamengo, Corínthians e Atlético-PR, São Paulo e Coritiba e outros mais. A rodada das quatro, já falei aqui algumas vezes, é a que conta para mim, aquela que deveria ser a oficial. Mas o jogo que pude assistir foi o do maldito horário das dezoito e dez. Ê praga! Eu sempre acho que jogar nesse horário traz mau agouro.

Liguei a TV com o jogo já em andamento. Chegamos em casa, as crianças estavam brincando (na verdade tinham brigado um pouco, desentendimento normal entre irmão e irmã) e surge aquela questão delicada de saber como inserir a cápsula do isolamento que pode ser assistir uma partida de futebol com o convívio social de uma final de tarde de domingo. Entre eu e a minha poltrona mole e a TV está o tapete, que define o quadrilátero da ação na sala. Do lado da TV, o computador; em frente a eles, o sofa. No palco, os cinco protagonistas: dois adultos e tres crianças. Assisti ao primeiro tempo, vendo o jogo sem som. Na verdade o som não fez tanta falta. O jogo das dezoito e dez é um jogo que tende a ser amargo, triste. Quase trágico.


Decifrei pelas imagens que o juiz havia marcado um penalty! A mudez da cena combinava com a minha aflição cega. Odeio penalties, odeio a expectativa da cobrança, sofro barbaridades! Assim que o Rogério converteu soltei um grito seco, curto e aliviado. GOOL! Meu filho foi até o terraço e gritou para o alto, como um lobo uivante. No gol de empate devo ter soltado um grunhido surdo que se misturou ao som do Moby. Estavam todos ao redor do computador importando faixas de um CD.

No intervalo resolvemos assistir à um DVD de um show. Michael Jackson! Minha filha se prepara para sua festa de seis anos e seu tema escolhido foi terror! A noiva do Chucky, coisas assim… Como estamos todos redescobrindo Michael Jackson fomos assistir Thriler. Eles amaram. Eu também! O fato é que as memorias que aquele espetáculo de música foi reativando acabou por desviar completamente a minha atenção do jogo. Não havia como interromper aquela fascinante descoberta das crianças do magnífico artista controverso e voltar à chuva triste que caia em Couto Pereira. Moonwalk, Billie Jean, Beat it. Às favas com o futebol!

Quando voltei à transmissão novamente já passava dos trinta minutos do Segundo tempo. Continuava 1×1. Quiseram ver de novo a música do lobisomem e eu já havia me conformado com a penúria do resultado. Encerrado o show volto ao jogo na TV a cabo e, para minha surpresa, o placar estava completamente dilatado: 4×1 para o São Paulo! Enquanto Michael Jackson distraia as crianças, Cicinho distribuia passes preciosos aos companheiros. Continuei vendo os últimos minutos no mais completo silêncio. Alguma coisa ali me remeteu a Teresina. Lá, sentia o mar que não havia. Aqui, não vi o futebol que acontecia. Futebol também pode ser assim. Não se dá diante dos olhos mas vive no coração!

Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Olha aí! Um talento do Nando Reis que eu desconhecia: a crônica. Cotidiana e reveladora. Deu vontade de conhecer Teresina.

Abço
Cesar