Beatles & Rolling Stones








Emerson Araújo

Para Adalberto Pereira e Renato Simões

Ultimamente, tenho andado meu ausente da crônica, mas era preciso. Aliás, sempre por uma boa causa devemos nos afastar do lugar comum, da inscrição cotidiana da mesmice, mas estou de volta com a plena convicção do dever de casa cumprido e é o que interessa neste instante de tempo quente, de convicções desviadas e de visões unilaterais.

Volto à alcova para continuar com as velhas e as novas dúvidas sobre a existência humana sem a mínima vocação de sugerir mudanças de comportamentos a ninguém. Não cabe a crônica se preocupar com as crises de identidade de quem fez uma opção clara pelo emperramento da esperança ou ficou na crença que o mundo, o seu mundo não passaria da ponta do nariz.

É o cronista quem afirma, agora, é tempo de egocentrismos cada vez mais intensos, de individualismos que beiram a desumanidade sem complacência, apenas para atender a uma sede sagaz de querer mais, de materializar mais as moedas de prata alojadas nos buracos do nariz. Nasce, aqui, uma ode ao burguês sem a evocação de Mário de Andrade e suas crônicas paulistanas. O burguês-burguês que perambula nas calçadas floridas do Brasil a desdenhar do próximo maltrapilho.

Continuo na alcova com o olhar dos últimos vinte dias no meu país e percebo sem a utilidade dos óculos para diabéticos que ele tem vencido o burguês-monstro, o burguês-anta das calúnias e das difamações em editoriais encomendados a preço de prata que trai sistematicamente, mas, como no prenúncio bíblico, deve haver tempo para tudo: tristezas, alegrias, calúnias, verdades, liberdades, controles porque toda a premissa é possível e não pode ficar só de um lado. Os lados podem convergir quando na noite houver uma réstia de luz através da lâmpada que ruma para a madrugada de feixes e frontes alevantadas.

Dou um intervalo da alcova que já não me serve e, com espírito de bom irmão, marco com as pontas dos dedos em dígitos a nova música que vai embalar a vitória do povo maltrapilho e sua irremediável utopia na manhã de uma segunda-feira nas praças, nas favelas, nas veredas a celebrar a missão profética de ser feliz não por um dia, uma década apenas, mas para a vida toda porque os frutos de uma nova marcha declinarão em gotas generosas a chegada da primavera vermelha.

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