AMOR DE TARDE

(Mario Benedetti)

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

(poeta uruguaio)


Um comentário:

CESAR CRUZ disse...

Emerson,

Este ano me chegou as mãos o "Quem de nós", livro deste excepcional escritor. A-do-rei e recomendo. Vou atrás de outros. Maravilhoso este poema, obrigado!

abço
Cesar