terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ah, a Bienal do Livro!


Imagem: Google
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Lembro-me que há uns 6, 8 anos assisti a uma entrevista do Lobão no Jô Soares. Na época, o Lobão, que tinha alcançado o topo da glória nos anos 80 e de lá de cima despencado, estava vivendo uma já alongada fase de ostracismo e alijamento musical. Segundo ele, que sabe como ninguém ter irreverência suficiente para rir da própria desgraça, estava com dificuldade até mesmo de pagar a conta de luz. “Porra, Jô, me arruma um emprego aqui na Globo, cacete!”.

O papo rolou até que o Gordo perguntou como havia sido a temporada de shows que ele acabava de fazer nos Estados Unidos. De fato, ele tinha acabado de voltar de lá. Lobão deu uma baita risada e disse que, já que estava mesmo ferrado, era hora de fazer uma revelação que os artistas brasileiros não têm coragem de fazer.

“Jô, turnê de artista brasileiro nos Estates é negô tocando violão em boate cheia de putas peladas dançando naqueles postes, ou cantando em barzinho com quatro gatos pingados que nem olham pra cara dele... Já vi fazerem e já fiz isso tudo, Jô. Só não posso entregar os caras aqui, mas te digo que são os mesmos caras que sentam no seu sofá, empostam a voz, fazem cara de intelectual e mandam: ‘Sim, estive em turnê ao redor dos EUA e foi um sucesso etecetera e tal’. Jô, sinceramente? Só o Tom Jobim fez sucesso lá fora. Só o Tom. O resto da cambada arrota peru aqui pros brasuzas, mas comeu fiado lá pra não passar fome, para alguns só faltou tocar em porta de igreja”.

Na manhã deste sábado, enquanto eu mofava no estande da minha editora, na Bienal do Livro, lembrei-me dessa reveladora entrevista do Lobão.

Ali, na Bienal do Livro, desnudava-se para mim a verdade da coisa, essa grande comédia intelectual. A situação dos autores presentes, símile ao que esses pobres diabos vivem no dia-a-dia tentando vender e divulgar seus livrinhos, era digna de concorrer com o Chapolin em matéria de pastelão. Sentados em suas mesas dentro dos estandes, ficavam lá, sozinhos, ofuscados pela louca quantidade de títulos disponíveis nas três centenas de estandes de editoras presentes. Bilhões de livros, milhares de autores e pouquíssimos leitores misturados ao público de curiosos que nunca leram um livro sequer na vida e nem pretendem, mas jamais confessarão.

Fiquei pensando que aqueles autores todos sairiam de lá e diriam aos amigos, com a voz empostada: "Oh, foi um sucesso, havia muitos visitantes, muita visibilidade, o mercado editorial está crescendo e ganha com eventos como a Bienal. Isso é importante para nós autores e...". Ridículo.

Então lá estávamos nós, eu e o Gabriel, meu amigo escritor (que também tentava divulgar o seu livro), sozinhos no estande, como dois bananas-de-pijama sorridentes. De repente, não mais do que de repente, nos demos conta do quão cômico é se considerar escritor neste país. Contei ao Gabriel sobre a tal entrevista do Lobão.

Rimos, mas logo silenciamos. Estávamos rindo de quem? Olhamos um para o outro, depois para nós mesmos. Bananas-de-pijama fantasiados de escritores. Nossos olhares diziam tudo. "O Lobão é que estava certo! O negócio é tocar na zona e assumir!"

Pegamos nossos panfletos e fomos para a beirada do estande abordar os passantes, como fazem aquelas meninas gostosinhas. A diferença é que a nós faltavam seios, nádegas empinadas, cabelos (principalmente cabelos),...

- Bom dia, senhor! O senhor já leu o Homem Suprimido?

- Olá, moça, experimente Crônicas Tardias!

Usando dessas frases muito criativas, dignas de escritores-Chapolin, fomos estendendo nossos folhetos às pessoas. A maioria afastava nossas mãos com cara de quem está sendo assediado por um bêbado pedindo fogo. Muitos nem olhavam pra nossas caras.

Com sorte, um sorriso. Me senti como deve se sentir um mendigo esmolando, ou como aqueles velhinhos que, por quinze reais, ficam no centro da cidade um dia inteirinho, sob o sol, oferecendo o folhetinho da Mãe Guiomar.

Súbito, no meio daquela tragédia dos tempos modernos, lembrei-me que, todos nós, os humanos (não só os escritores e os músicos), vivemos desta farsa-social-circense. Pois é... Ninguém quer parecer menor, desimportante, inculto...

- Bom dia, senhor, tenho certeza que o senhor já leu algo a respeito de Gabriel Fernandes, certo?

- Oi? Oh, sim... claro, claro que já li!

- Ah, bom. Então, como uma pessoa culta, não deixe de adquirir um exemplar do último lançamento deste nosso esplêndido escritor!

Para umas mocinhas, estudantes, perguntei, incisivo:

- Oi, sei que vocês leem Jorge Amado, Graciliano Ramos, Cesar Cruz, estou certo?
- Oh, sim, claro, lemos esses autores para a faculdade!

- Maravilha! Vocês assistiram a entrevista do Cesar Cruz no último Roda-Viva da Cultura, suponho?

- Ahn? Ah... Ah, bem, eu não estava em casa, mas fiquei sabendo e...
- Ótimo, pois fiquem sabendo também que o Cesar Cruz, o famoso Cesar Cruz, estará aqui no estande dando entrevista ainda hoje, a tarde!

- Não! Jura?

- Sim, sim! E deixou alguns exemplares de seu mais novo livro, O Homem Suprimido, vocês já leram?

- Oh, ainda não, mas uma amiga minha leu e...
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Cesar Cruz

Ago 2010

1 comentários

CESAR CRUZ disse...

Emerson, vc sempre me surpreendendo. Obrigado pela força, amigo!

abço paulistas
Cesar Cruz

em tempo: esse Chapolin que vc achou é impagável! Vou usá-lo no meu! ahaha