Tempo, tempo, tempo...


Antônio Amaral in Google


Emerson Araújo


Tenho aproveitado o exílio nas barrancas do rio flores, também, para fazer algumas coisas que não fazia há mais de 25 anos. Anos de anulação estes passados, mas tento agora levantar algumas bandeiras que ficaram caídas ou a meio pau. Tempo de refrigério, este.

É no tempo de refrigério que me dou ao luxo de voltar a ler copiosamente, ler tudo, até a bula do metiformina 500 mg que faz parte do meu cardápio por conta da glicemia alterada por tanto refrigerante e doce caseiro saboreados ao longo da vida. E por falar em leitura, tenho reabilitado autores universais que esta geração da crítica preliminar pincela, volta e meia, em grifos. Aliás me dou ao luxo, ainda, de voltar as costas para os criticozinhos de ensaios previsíveis oriundos da metodologia estruturalista que continua sendo ferramenta sacal de uma pretensa análise apurada e inteligente: - morte ao estruturalismo, idem aos seus seguidores!

Mas o que me prende nesta amanhã de sexta-feira 16 é a memória de lembrar de alguns amigos/artistas da minha geração, entre vários, Antônio Amaral é a minha imagem que se estende até a chuva serôdia que despenca pela janela aberta.

Conheci Amaral na militância artística/estudantil/política do final dos anos setenta e assim nos fizemos cúmplices por alguns anos até na partilha de um pedaço de seda que servia para enrolar as pipas doidas na busca do céu. A música selou esta amizade, o vinho tinto, também. Mais tarde descobrimos que não fomos militantes de nada porque a utopia que rasbicamos em mesas de bares não foi nada. Ficou a merda de cavalo de plantão e pronto! O blues, o jazz, o rock in roll, as pelejas medievais de mestre Elomar Figueira de Melo deram o tom vermelho e cinza da descrença que se abateu no/pro futuro.

Falar sobre e de Antônio Amaral me conforta e me leva a refletir sobre a nossa geração, que não foi perdida/partida, porque, ao menos, ela criou as condições concretas dos exílios que nos impuseram, ora pela força, ora veladamente depois. A presença da geração artística de 70, no Piauí, principalmente, se construiu no fazer real/imagético da arte que assumiu conotações universais e cotidianas. Arte revolucionária, arte em movimento indo ao paraíso ou descendo ao inferno mais tarde.

Ainda bem que Antônio Amaral e eu e outros (Kenard Kruel, Airton Sampaio, M. de Moura Filho, Rubervan du Nascimento, J. Luiz Rocha do Nascimento, Geraldim Borges, Menezes y Moraes, José Olímpio de Castro, Zé Afonso Lima) ficamos frente a frente com o novo monstro da lagoa e cuspimos na cara dele com prazer.

Amaral e eu somos náufragos desta utopia que não se fez, por isso que a qualquer hora e a qualquer dia, sairemos a perambular, ainda, nas vielas de Teresina com um blues no ouvido e uma imagem doida rasbicada na folha do caderno ou na prancheta do ateliê a metralhar os nossos novos adversários.

3 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Muito bom, bonito texto. Saudosista, és! Também sou... te entendo...
Entre as leituras, não se esqueça da imprescindível literatura cruzeana, a minha. rara!

abraços paulistanos
Cesar

amaral disse...

cmdt, sua sintaxe não lhe trai. aqui, na trincheira e às suas ordens, o subcmdt uno da guerrilha-digital.

f.wilson disse...

Alô, Emerson, quanto tempo não lia um texto que me fazia lembrar de perto uma geração que eu admirava, mas não paticipava.