O futebol de quartel


Emerson Araújo

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A tese de que a seleção brasileira de futebol na África do Sul era mais coesa, mais unida, sem polêmicas, aquartelada não foi coisa nenhuma diante da falta de criatividade que se abateu nos campos da nação que deveria se chamar Mandela.

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Sem vibração e apostando em resultados mínimos e possíveis os “jogueiros” brasileiros acreditaram ser possível chegar a final sem alegria, sem jogadas plásticas e com a triste concepção de resultados entre o empate e o placar de 1x0. Tudo isso para celebrar a filosofia da retranca tão adversária do real futebol brasileiro do toque ágil, da inteligência postas nas pernas, nos pés.

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Reconhecemos que a derrota para a Holanda foi dolorosa, mas tem, também, um ensinamento didático para os dirigentes eternos da CBF, para os treinadores que filosofam sobre o resultado mínimo, o ensinamento de que o melhor futebol é praticado por aquele que não perde a sua essência artística, sua plasticidade que desestabiliza e endoidece o adversário. A função de endoidecer o adversário, de colocá-lo na roda sempre foi do nosso futebol, basta rememorizar os eternos Garrincha, Pelé, Rivelino, Ronaldinho Gaúcho, agora, Neimar e constantes peladeiros espalhados na dimensão continental dos campinhos de várzea do interior ou dos campeonatos de subúrbios das grandes cidades brasileiras.

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Aplicar a filosofia da retranca ao futebol brasileiro é ir somente até as quartas de finais quando houver a benevolência dos adversários nas copas do mundo. Os técnicos retranqueiros precisam saber disso urgentemente. A retranca como estratégia no futebol é sinônimo de derrota antecipada, avançar entre as defesas do adversário é o desafio que nos remete para a hora do gol como diz o poeta. E a hora do gol, muitos, por sinal, é a destinação poética dos nossos jogadores. Sempre foi e será a nossa melhor ferramenta para diferenciarmos das cinturas duras, da falta de jeito, das jogadas burocráticas, da chatice de um xadrez que limita a arte no futebol, a arte do futebol.

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A copa da África do Sul para o futebol brasileiro deixa uma certeza lapidar sem contestação, a era Dunga montada na retranca e no resultado mínimo do empate e do 1x0, deve ser apagada da história da seleção canarinho e que o novo técnico escolhido devolva a alegria, o molejo, a plasticidade poética ao melhor futebol do mundo e que, logo, logo, os campos e outros povos aplaudam os protagonistas desta arte secular genuinamente brasileira

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(*) Emerson Araújo é poeta e, volta e meia, prosador.

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