Uma crítica a crítica preliminar


(*) Emerson Araújo

Há uma crítica literária preliminar, hoje, que não acrescenta nada ao projeto de formulação estética do fazer literário. Quando reafirmamos isso é fundamentado nos arroubos pretensiosos do crítico oriundo das lides universitárias, principalmente, dos cursos de letras mal estruturados curricularmente e que imaginam ensinar como fazer análise literária recheada de grifos e mais grifos descontextualizados.

Concordamos com Weslley Barbosa que chega ao cerne desta questão crítico/crítica quando diz: “Um crítico literário consciente deve primeiro buscar conhecer o que é o seu objeto de estudo, ou seja, a literatura. Uma tarefa que pode parecer fácil, mas não é, uma vez que esta é uma expressão artística que trabalha com a linguagem verbal (uma das coisas mais heterogêneas quando se fala em cultura ou sociedade)”. A crítica preliminar de plantão não tem consciência do que escreve/analisa, pois não é conhecedora do seu objeto de estudo, a literatura. Esta carência vem do banco escolar/universitário que superficializa institucionalmente os cursos de letras e que ausentam a literatura da formação destes futuros ensaístas pretensiosos e que modestamente Silas Corrêa Leite chama de pseudos-jecas pops.

A crítica literária preliminar não tem conhecimento pleno sobre o que pretende escrever/analisar porque não foi fornecida a ela durante a sua formação escolar/universitária, a matéria para esta análise, ou seja, a literatura. Para Weslley Barbosa ainda: ”Esse conhecimento só se efetua no contato com textos literários, de todos os tipos, de todas as épocas, de todos os gêneros e estilos. Depois, é necessário que se busque uma teoria... Ler muito sobre a literatura. Saber o que estudiosos renomados falaram sobre esta arte, qual o posicionamento deles sobre os textos, como se dá sua abordagem. Ler o que cada corrente teórica apregoa (o Formalismo Russo, a Semiótica, a Estilística, a Crítica Biográfica, a Historiografia, etc.), para depois escolher qual destas correntes norteará seus estudos, ou, utilizar elementos de todas (o que parece ser o mais sensato). Em seguida, já amadurecido teoricamente, o crítico volta ao texto, tentando aos olhos dessas teorias, buscar a essência do texto. O último passo, é verificar cada elemento encontrado dentro do todo da obra, de modo a encontrar o porquê de sua utilização, qual sua importância para o todo do texto, etc.”. É a falta desse conhecimento, de que nos fala o teórico, que deveria ser sugerido na formação de uma crítica competente que não conseguimos vislumbrar, ultimamente, seja em jornais, revistas especializadas ou que quer ser especializada, colóquios chatos, que volta e meia, invadem o mundo acadêmico universitário, nas semanas de letras de alunos que não conseguem apreender sobre as vanguardas artísticas do final do século XIX e início do século XX, salões de livros e outros espaços institucionais a serviço de uma mídia perigosa que patrocina o grifo fragmentado, o bacharelismo ínfimo das análises. A crítica preliminar, que é brasileirinha de nascimento, tem tomado estes palcos de que citamos ainda a pouco, para berrar para uma platéia/leitor sem profundidade no objeto da crítica suas teses da “crista da onda” em cima dos grifos do último filósofo existencialista subtraído da grande rede.

E concordando mais uma vez com Silas Corrêa Leite que diz: “A Nova Crítica Literária Brasileira, coitada, tem patetas de ocasião, cariocas postiços, gaúchos saradinhos, paulistas alocados e mais algumas mineirices de intelectualidades masturbatórias e, pajelanças Leminskianas. E ainda existem outros. Caetanear, por que não?. A crítica literária brasileira apanha de relho alhures e fica paradoxal: gosta de dar vexame, chuleia citações, agasalha pandarecos e, no final, alardeia uma saideira para todos, até porque ninguém é de ferro, e, depois da tempestade vem a leptospirose.” vamos desconstruindo esta superficialidade anêmica, a análise literária preliminar de plantão.
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E sem querer ser professoral, fica um desejo como autor, por fim, de que a crítica e o crítico preliminares deixem as pretensões e as vaidades dos grifos e retornem a casa materna dos cursos de letras para aprenderem, pelo menos, o básico da decodificação literária, ou seja, a leitura das obras na sua essência estética.

(*) Emerson Araújo – é professor e poeta.

Citações subtraídas de:
"O QUE É CRITICA LITERÁRIA" - Weslley Barbosa - in http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/949072
"A Crítica Literária Brasileira" - Silas Corrêa Leite - in http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=163&rv=Literatura


2 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Que aula! Obrigado por esta luz na minha escuridão, Emerson!

Sim, sinto exatamente este superficialismo analítico em muitos pseudo-críticos literários que vejo por aí; mais que isso, vejo crueldade extramada em muitas dessas críticas. Será fruto da inveja de não ser ele um escritor, apenas um crítico do que os demais escrevem? Para ser crítico, não deveria o sujeito ser escritor? Acho que deveria, senão, como saber qual a dificuldade que encontra aquele que se atreve a materializar seus sonhos, pensamentos e elucubrações em histórias, poemas e ensaios?

Abraço,
Cesar

EMERSON ARAÚJO disse...

Estamos de acordo, Cesar Cruz, você sacou muito bem a debilidade desta crítica almofadinha a arrotar teses falidas sobre o ato de criar. Eu, você e tantos não precisamos destes "meninos" que precisam se aprofundar no essencial: a obra, fruto da nossa gênesis doida, que eles, lúcidos jamais sacarão!