A significação mínima de um sábado


Emerson Araújo

“Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado”
(Vinicius de Moraes)

Estou neste sábado sem atrativos e tantos barulhos de motocicletas que tentam vencer a rua e o prenúncio do sono.
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Neste dia, aqui, as festas silenciaram e os bares onde operários bebem cachaça da terra encerraram as suas portas mais cedo. Operários e esposas zangadas perderam a graça, a palavra em sedição virou a face e acabou indo embora, também.
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Os namorados e namoradas aproveitaram a falta de pulsação da cidade e tomaram o caminho das relvas escuras. Os vaga-lumes foram testemunhas de sangramentos, suspiros e gritos doidos. Os violamentos sob estrelas tornaram-se o novo verso do poeta, a nova sintaxe da crônica.

A cidade não ferve mais no sábado, nem se ele fosse subtraído do mês de maio. Os casarios já bateram as suas portas e a última janela aberta não interessa mais a mocinha trôpega que passa na calçada. A cidade, agora, é dezesseis movimentos acima da escuridão. Os sinos que dobram, cochilam na torre da paróquia e não comunicam a morte do rico, nem a da mulher diabética do bairro pobre.

Este sábado, aqui, não traduz nada, não fede e nem cheira. Não há nele a brisa das flores silvestres, somente as malditas motocicletas que pulam os quebra-molas sem engenharia.

A sirene do SAMU injeta no sábado o sangue infantil do asfalto e o espetáculo de gala de que impõe o poeta é transferido para o domingo.

3 comentários:

f.wilson disse...

Gostei do momento descritivo, Emerson.
Fiquei na dúvida se um bom conto tem o mesmo tamanho de uma boa crônica.
Abraço, poeta.

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro, poeta fwilson, até hoje nunca pude saber mesmo onde ficam as fronteiras da crônica, conto, poema, novela, romance, pintura, cinema, música. Acho que é burrice minha e olha que milito nisso há mais de 30 anos.
Abraço, poeta!

CESAR CRUZ disse...

Emerson,

Espetacular poema/crônica! É essa multiplicidade de sensações e 'aconteceres' que sentimos quando vivemos nessas loucas e frias cidades! Gostei muito, parabéns!

Quanto à enquete, Brasil, é claro!! Já votei!