sábado, 17 de abril de 2010

O castigo

Emerson Araújo


Teodoro Moura deitado na esteira de palha nova não mais suportava aquela dor. Passara mais uma noite em claro, as lágrimas secas, a morfina, no fim. Só podia ser castigo aquela dor, não tinha dúvidas, estava pagando caro. Teodoro Moura, 69 anos, barbicha rala, quatro esposas e tantos filhos. Fora agricultor, vaqueiro, homem de confiança e de todos os contratos. Ali, naquele chão duro, abandonado, febril, mijando sangue e aquela dor.

Ah aquela dor...

O adjunto corria há horas naquela latada, Vila do Machado, cigarro e cachaça da terra. Teodoro Moura desceu do burro sem sela, encostou-se ao balcão improvisado. O facão quinze polegadas o fez mexer no cós da calça azul, pediu fósforo. Abriu a carteira de couro cru, uma folha de abade e fumo picado. Acendeu o cigarro grosso, levantou a fumaça, os olhos fitaram Francisca.

Ah aquela dor, o jato de vômito cobriu a esteira...

Francisca saía do salão de barro batido, sorridente, abraçada a um sarará magricela. Os dois na vereda escura. Teodoro Moura atirou a bagana do cigarro forte ao chão, mão no cós da calça de tergal.

Ah aquela dor, mexeu-se na esteira, afastou-se daquela golfada de água e sangue...

Sem ser notado embrenhou-se na vereda, a Vila do Machado, o adjunto, o balcão. O sarará magricela sobre Francisca no vai e vem, Teodoro Moura em pé, testemunhava. O magricela deu um salto, Francisca sozinha, tentando evitar o primeiro corte.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze... a lua aparecendo...

Aquela dor...

Francisca ensangüentada sem ternura sobre o mato mascado. Teodoro Moura não mexia mais, a caminho do inferno.

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