sábado, 3 de abril de 2010


Elisa no paraíso

Emerson Araújo

Elisa chegou de mansinho, levantou o lençol de chitão colorido e deitou enroscando os cabelos sedosos nas costas de Adão. Ele dormia e não percebeu aquela providencial invasão que imaginara acontecer logo, logo.

Elisa estava ali, agora, olho no telhado desbotado a espera de Adão. Sabia que ele viria apesar do sono profundo e da cama sem conforto. A brisa da noite úmida entrava pelas frestas da porta de papelão e o odor de mofo provocava lembranças confusas, medos e, talvez, o aprendizado da morte que rondava os dois.

Elisa e seus 23 anos, casada com Abel, três filhos e uma vida sem cor, sem nada. Apenas servindo de cobaia para a embriaguez do marido, não se lembrava quantas vezes fora obrigada a sentir o bafo de bebida de quinta categoria e a vontade de vomitar sobre aquele corpanzil disforme. Apenas uma lágrima solitária a escorrer face abaixo e um ódio para a vingança, em vez do gozo. Abel, um touro, ela, uma pluma de cachos prateados, a vomitar intensamente e o sabão de coco a esfregar, a esfregar, esfregar naquele banheiro de paredes riscadas a carvão.

Elisa vira-se de lado. Adão dorme ainda. A aurora surge. Noite longa. O perigo.

Estava resoluta, não voltaria mais para a brutalidade de Abel. Não tinha mais identidade, nem filhos.

Adão, sabia, poderia ser um novo começo, ou um novo fracasso.

Adão rosnava, sem saber que o paraíso e o inferno estavam a poucos centímetros de distância.

0 comentários: