Anotações sobre uma cidade morta (I)

Mãe é Mãe
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Emerson Araújo
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A chuva tinha varrido o resto da estrada. O Jipe Willys quatro portas, ano 1958, passava sobre poças, buracos com uma voracidade sem tamanho. Dona Rosa tinha enjoado a viagem toda, agora parecia resignada, olhos arregalados denotavam certa apreensão, medo de não completar aquela peregrinação forçada.

A chuva torrencial cortou a tarde, as ruas da Vila do Mil Réis abriram os seus grotões, a lama tomou de conta. Perpétua Maria da Conceição no umbral da porta, impaciente esperava Rosinha com uma agonia no lado esquerdo do peito. Soubera da chegada da filha caçula, de Pedro, Paulo, os mais novos netos.

- Mamãe era assim mesmo! Empolgava-se facilmente, desempolgava mais rápido ainda. Paulo, o primogênito, chegara a esta conclusão. Mas ela estava ali enfrentando as intempéries para cumprir tarefa de mãe. Pedro tinha sido desenganado, febre desconhecida, de hora marcada, de sofrimento, também, invadia aquele corpinho moreno, esquálido a caminho de qualquer cemitério. Papai tinha ficado em Floriano, aprendiz de tipógrafo, abandonara os velhos caminhões de Tio Zé Bertoldo carregados de abóbora para o Recife.

A carta de Vovó Perpétua chegara há sete dias, só deu tempo de esperar a chegada do velho Jipe 58 do seu Zé Borges, Pedro não podia esperar mais. Padrinho Adão tornara a esperança, suas raízes arrancadas das terras dos Arapuás debelariam a febre, trariam a cura tão esperada por todos.

Adão de Sousa chegara a Vila dos Mil Réis ao final de tarde do mês de setembro de sessenta e três. Saco de estopa as costas, poucas roupas, chinelo de couro e sola mal cortada, era mais um caboclo anônimo a partilhar a pobreza, apenas um brilho estranho no olhar o fazia um ser dócil, com uma destinação indecifrável nos passos miúdos a bater nos umbrais.

De repente aquela longa curva da estrada lamacenta me fez lembrar papai, os riscos de vida, os velhos caminhões de abóbora de Floriano para o Recife, Tio Zé Bertoldo exigindo chegar no dia e horário certos.

O Jipe Willys pára bruscamente no meio da curva. Mamãe impaciente sente a chegada retardada. A fumaça sai branca pelo capuz. Pedro, pele azeitonada, sua, sua.

Duas lágrimas grossas correm soberbamente pela face triste de Rosinha anunciando mais uma convulsão, aquele corpinho torturado pela febre estranha.

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