Carta Aberta ao Professor Washington Ramos

Caro, Washington Ramos, bem, em nome da liberdade de expressão e do “ver com os olhos livres” está publicado abaixo a tua análise sobre o que você chama de livreco, ou seja, "Estas flores de lascivo arabesco", antologia poética publicada em 2008 pela Fundação Quixote de Teresina no meu blog.

Continuo achando as tuas impressões reducionistas sobre a publicação da antologia e, vou mais além, nela há uma pitada de raiva contra aquele que você chama de burocrata do PT, despejada contra alguns versos e seus respectivos autores, o que interfere numa análise mais apurada da tua parte, mas tudo bem.

Vejamos alguns pontos desta análise que me parecem contraditórios:

1. Sobre o título da antologia que você insinua como apropriação indébita por parte dos organizadores, subtraída do poeta Carlos Drummond de Andrade, ora meu caro, Washington, com esta afirmação guerilheira você nega o advento da intertextualidade na criação literária. É necessário lembrar, também, que as postulações de uma nova teoria de criação artística possibilita o uso de outras criações como matéria para releitura, seja na forma ou no conteúdo o que me parece está presente no projeto da antologia.

2. Sobre as introduções assinadas por Wellington Soares e Fifi Bezerra, o primeiro você chama de burocrata do PT e vai mais longe grifando algumas expressões que o mesmo coloca no texto introdutório. Meu caro, Washington Ramos, cabe aos editores as primeiras impressões em qualquer obra publicada. Serem ingênuas ou não as afirmações fica por conta de uma crítica não preliminar, além disso, não quero adentrar na liberdade de leitura e interpretação de quem está na outra ponta do processo de comunicação literária. Um detalhe, Fifi Bezerra é doutor em semiótica e pessoa qualificada para as leituras, caminhos analíticos e opiniões críticas dos textos elencados na antologia.

3. Por fim, meu caro, Washington Ramos, volto a insistir, você não é leigo neste assunto de criação literária, portanto, mais uma vez vejo tuas opiniões comprometidas com alguma mágoa/raiva contra Wellington Soares, descarregando contra os poetas da antologia, inclusive a minha pessoa, lembre-se, ali, no opúsculo, não existem professores e sim poetas bons ou não, exercitando a liberdade de criação/expressão, mote defendido com "unhas e dentes" pelos modernistas de 22. Não queira com esta tua ira, macular o direito de criação, a liberdade total de expressão dos poetas.
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4. Quanto a editoração da obra literária, meu caro professor, ela pode ser feita tanto pela iniciativa pública quanto privada. O que me consta da referida obra é um contrato de parceria entre a Fundação Quixote e alguns órgãos públicos e privados. Para os autores estas parcerias são irrelevantes e de exclusiva responsabilidade dos editores/organizadores. Fomos convidados para fazer parte do projeto, só isso. E quanto a luxúria de que você diz na publicação de "Estas flores de lascivo arabesco" insinuando que os autores deveriam pagar do próprio bolso a edição, vejo nisso uma posição conservadora estranha e perigosa, pois a literatura do Piauí não pode mais ficar a reboque de publicações artesanais e dirigida a uma clientela minoritária dita exigente a qual você parte como privilegiado. Devo te lembrar, ainda, que nós, os autores, não devemos nos preocupar com as exigências de leitores com uma ótica preconceituosa e passadista.
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Meu querido, professor, a poesia nem fede e nem cheira, portanto, os autores, ali, fizeram uma opção temática de apresentar "Eros" como fonte de prazer e é um direito deles, meu, também. Não precisto te lembrar que " a poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos." (Manifesto Pau-Brasil - 1924 - Oswald de Andrade)

Outra coisa, me parece contraditório a afirmação que você faz ao dizer que não gosta de ler sobre sexo e sim fazê-lo. Meu bom, mestre, se é assim quais as razões desta inquietação contra um livro que é apenas a expressão sincera dos seus autores? Professor Washington Ramos o meu abraço sem mais delongas.

Emerson Araújo
Tuntum (MA), 14 de Março de 2010.
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"Estas flores de lascivo arabesco”

Caro Emerson! Não vou fazer exatamente uma análise desse livreco. Apenas alguns comentários como leitor. Comecemos pelo título, que é uma apropriação indevida de uma frase de Carlos Drummond de Andrade. Você sabe, Emerson, que o nome disso é desonestidade intelectual. É também muita falta de criatividade organizar uma antologia e não ser capaz de colocar título próprio na mesma. Vamos às introduções escritas pelos organizadores. A primeira assinada pelo burocrata petista, critica os poetas do passado por eles não terem escrito sobre sexo ou o terem feito metaforicamente. É um contrassenso, um absurdo criticar um poeta pelo que ele não escreveu. Além disso, esse burocrata tem uma visão ingênua sobre sexo, como provam as expressões "apetitosas maçãs", "sabor afrodisíaco", "gozar desvairadamente" e outras tolices, como se o sexo tivesse apenas delícias e prazeres. E vocês, Emerson, os poetas, também embarcaram nesse sentido ingênuo. Mas eu quero lembrar-lhes que o sexo tem problemas também. Tem doenças, tem broxadas, tem dores, tem frustrações... Parece-me que vocês não leram Ovídio e outros poetas greco-latinos, que, há mais de 2 mil anos, literariamente, escreveram sobre os prazeres e os desgostos do sexo. A outra introdução, além de repetir a visão ingênua da primeira, faz uma série de referências a autores clássicos como Platão, quando deveria fazer um apanhado do erotismo na literatura piauiense, o qual existe e muito. Vamos aos poetas. A maioria deles é constituída por professores, mas, pelo uso gratuito que fazem do palavrão, eu fiquei em dúvida se são realmente professores ou editores de revistinhas de sacanagem. Ou seriam roteiristas de filmes pornôs? Você sabe, Emerson, que existe muita gente passando fome no mundo, algumas até morrendo; sabe ainda que há muita gente sofrendo de solidão e carência afetiva, inclusive pessoas legais e de bom senso´, algumas chegam até a se matar. Enquanto isso, o Laerte, num "poema", está em dúvida se faz o desjejum ou se transa com uma mulher. Parece que a mulher, pra ele, tem o mesmo valor de um desjejum. Ele, nesse texto, assemelha-se a um burguês entediado e com fastio. É um pouco demais pra mim, Emerson, tanta tolice travestida de poesia. E o Nilsão, num "poema", dizendo que a mulher se sente honrada ao ser penetrada por ele! Quanto convencimento! Castro Alves perde é feio, fica longe, na poeira. E o Açucarado Maranhão no "poema" Ferosa? Fiquei em dúvida se ele e essa tal de Ferosa são realmente seres humanos ou os deuses eróticos do universo. É outro convencido e que não se peja de usar o chavão "o mais feliz dos mortais". Olha, Emerson, vou parando por aqui. Chega de comentar tanto texto besta. Quero ainda te dizer que não sou reducionista nem preconceituoso em relação a sexo e gosto muito mais de praticá-lo do que de ler sobre ele e, quando leio, sou um leitor exigente. Outra coisa: não chamei o burocrata do PT de ignomínia, como você afirma em resposta ao meu primeiro comentário. Chamei de ignomínia ao fato de o Piauí, um estado com tantos problemas sociais gravíssimos, patrocinar a edição desse livreco só para contemplar a vaidade luxurienta de algumas pessoas. O dinheiro público deve se usado para a resolução de questões sociais. Não sou contra a publicação de obras literárias, contanto que o autor a financie com dinheiro do próprio bolso.
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W Ramos
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Domingo, 14 Março, 2010

Um comentário:

patricia basquiat disse...

olá, esta acontecendo essa semana uma exposição fotografica que faço parte, na galeria do clube dos diarios.