Liberdade de expressão, o legado.

Emerson Araújo

A crítica literária preliminar e enciclopédica continua restrita. Centrada em grifos fragmentados, ela não consegue vislumbrar a amplitude do universo artístico focado na força da expressão criativa e nem no caráter polissêmico e intertextual da arte nas suas várias modalidades.

Negar a intertextualidade na arte escrita parece a aberração mais contundente da crítica preliminar numa tentativa clara de impedir o exercício da liberdade de expressão no campo do temático da criação.

Quando os modernistas da primeira metade do século 20 propuseram “o ver com os olhos livres “, legado maior do plano estético e temático da arte do século 20 e posterior acabaram se contrapondo de maneira intensa contra o enciclopédico da produção artística dos séculos anteriores que enclausurava o estético/temático e a empurrava para a superficialidade do exercício da criação.

Os primeiros modernistas, então, foram adversários ferrenhos dos enciclopédicos e preliminares cotidianamente quando propuseram a liberdade de expressão como ótica central de suas preocupações na concepção da criação artística. Esta, que a princípio, poderia está no âmago apenas do formal estético, ficou patente, também, que estaria no plano do temático artístico. Os temas subtraídos dos referenciais universal e regional, pessoal e coletivo, ou seja, a arte presente em tudo deu ao artista moderno extensões amplas para experimentar e dizer ao mundo sobre tudo. E a matéria da arte estava fundamentada, agora, no tudo, sem exceções.

Mas a crítica preliminar, enciclopédica e fragmentar continua até hoje audaciosa na tentativa de se contrapor ao criativo centrado na liberdade de expressão. Nascida a partir de um conhecimento acadêmico conservador, superficial e fragmentado, ela tenta impedir o artista moderno de exercer sua tarefa como produtor no plano da criação estética, querendo negar, no plano do temático, “o ver com os olhos livres”. Esta tentativa é vã, claro, pois o crítico preliminar é limitado nas suas postulações pseudamente moderna ou pós como ele gosta de ser nomeado, porque o artista contemporâneo tem ferramentas de expressão que vai além dos pressupostos enciclopédicos e preliminares postos.

As ferramentas criativas do artista que fez a opção pela liberdade de expressão são poderosas e extensivas ao eleger todos os temas sob a ótica de um olhar amplo, sem discriminações respingaram, ainda, nas formas possíveis para comunicar através do estético, não há dúvidas.

Portanto, qualquer tema é matéria da arte contemporânea e cabe ao artífice da criação, de hoje, saber aproveitá-lo como instrumental da feitura criativa para cumprir diversos papéis naquilo que se convencionou chamar, também, de interação social tendo como fulcro a liberdade de expressão como legado eterno.

(*) Emerson Araújo – é poeta e professor de língua portuguesa.

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