Manuel de Barros e as audições pantaneiras

Para Kenard Kruel

Emerson Araújo

Há domingos que, por aqui, o rio Flores não atende as demandas pessoais indecifráveis. Nem a presença da nuvem de saia tem confortado as horas mais labirínticas de plantão.
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O final da tarde de domingo continua lúgubre. Nela, nem os urubus, agora dispersos, dão o ar da graça e nem pousam na sorte como disse o poeta no passado.
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No domingo apenas aparece a voz calma do poeta nas imagens embotadas de um documentário de TV estatal, trazendo a couraça dos jacarés, as lagartixas em frases auditivas. É o poeta na poesia, é o poeta retendo a perda do filho, o homem em solidão.
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Manuel de Barros no pantanal absorve a sonoridade da viola de doze cordas em noite de lua, fogueira e conversas da ignorância do homem do sertão, do grande sertão sem veredas, sem jagunços em crise de consciência mítica – duelo entre o bem e o mal, Deus x diabo. A poesia brotando sem crises de linguagem, subtraída da fala jogada ao léu, entregue ao poeta em bandeja de cristal e suspiros.
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O domingo continua lúgubre porque o poeta é, hoje, uma salutar referência de memória numa obra poética forte e com cheiro de mato e jogos ancestrais. Mas é o poeta na eternidade da fala, na audição sem temporalidades e sem personagens alargados em crises mútuas. É o microcosmo da poesia, das excelências medievais que adentram no sertão, na geografia, na natureza e sem a anuência da maldita civilidade de oposição ao poema que se faz e ao poeta que se abstém.
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Manuel de Barros em suas audições pantaneiras nos comunica, neste domingo, que a poesia não precisa ser mãe da arte porque ela surge desde a frase lapidar das barrancas de rios imemoriais até a audição oral dos simples num exercício do homem em ebulição seja na paz silente do matogrosso ou nas veredas de pedras das cidades sem domingo.

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