Sobre o conto “Amantes” de M. de Moura Filho


(*) Emerson Araújo

O grupo de contistas que gravita em torno da Confraria Tarântula (Airton S. Araújo, M. de Moura Filho, J.L. Rocha do Nascimento e José Pereira Bezerra) definitivamente mudaram a performance do conto dentro da literatura brasileira de expressão piauiense. Dando-lhe forma, conteúdo - linguagem de extensões que acabaram ultrapassando a velha modelagem do regional, tão comum em autores oficiais desta literatura.

O grupo, oriundo do movimento literário iniciado na década de setenta, continua ativo, proporcionando ao leitor ávido, várias pérolas no universo da contística brasileira contemporânea como é exemplo este “Amantes” de M. de Moura Filho publicado recentemente no blog da Confraria Tarântula (http://confrariatarantula.blogspot.com/).

“Amantes”, inicialmente, apresenta uma montagem minimalista pelo uso de uma linguagem de mínimos recursos expressivos, mas de um teor sugestivo fenomenal.

Desde a apresentação dos personagens até o desfecho, tudo em “Amantes” sugere uma atmosfera onde o leitor/decodificador se torna um elemento ativo, desvendando o labirinto geométrico posto em frases assépticas de um construtor de signos e siglas intensas. Aqui, mesmo ele não aceitando, M. de Moura Filho exercita a boa poesia no conto.

Em nível de conteúdo “Amantes” consegue se igualar com a linguagem proposta. Nele não há “panos de fundo”, o tema da infidelidade adentra nas ações mínimas dos personagens protagonistas: “G” e “E” e nas construções frasais de um narrador onisciente atento aos movimentos.

O tema da infidelidade na narrativa de M. de Moura Filho, ainda, ultrapassa todas as transgressões possíveis impostas pela sociedade moral/capitalista e ganha contornos de continuidade normal, na veiculação da personagem feminina. No conto, também, ser infiel é um ato do querer feminino sem crise de consciência (veja as ações da personagem G), ela no bojo do conto enfrenta o conservadorismo de “E” quando este a propõe que se separe do marido.

A personagem “G” é o elemento de ruptura moral no conto, é a Eva que rompe com Deus ao levar Adão para conhecer a “árvore do conhecimento” no Gênesis Bíblico.

Sem querer levantar nenhuma teoria sobre a infidelidade, percebe-se em “Amantes”, a princípio, a plena liberdade de ação do “feminino” ditando os procedimentos desta relação amorosa extra temporal a invadir dois, três, quatro... envolvidos.

Por se tratar de obra aberta “Amantes” de M de Moura Filho reafirma as qualidades do conto/contista sem encerrar as variáveis da forma e conteúdo sobre um tema universal de todos os tempos. E como opção pessoal ficamos ao lado da personagem feminina “G” e na frase final antológica de humor pessimista, que é, também, do narrador a responder “E” e a todos nós homens frágeis ou não: “Oh, pobre coitado.”.

M. de Moura Filho, em seu conto, foi craque.

(*) Professor de língua portuguesa e literaturas.

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