Teresina à distância



Tenho dito, volta e meia,  que o tema Teresina é travado na ponta dos meus dedos. E isso é verdade, pois nunca consegui escrever nada de substancial sobre esta cidade que um dia me acolheu em 1974 e que depois me expeliu de forma bruta e incontestável.

Reconheço que ao tentar escrever sobre a cidade sempre fui incompetente, piegas demais para o gosto público do meu amigo, Airton Sampaio,  ou o para a gozação pujante de Manuel de Moura Filho, outro dileto amigo.

Talvez um parágrafo sobre Teresina atingisse a delicadeza de  João Luiz do Nascimento,  amigão, também, mas duvido muito. Teresina sempre foi  uma ferida travada na garganta em pleno sol a pino apesar das suas bodegas e dos seus calçadões solitários e depressivos neste momento.

Afirmo,  em primeira pessoa,  que me julgava incapaz de ter saudade assim de Teresina, mas ao me ausentar dela,  nestes últimos dias,  pude sentir que às vezes nascemos numa cidade, mas a adoção de uma outra é mais profunda, é mais sentimental neste tempo de racionais e racionalismos. E tem sido assim, lampejos e fotos em preto e branco das suas avenidas, do burburinho dos seus bairros operários de fim de semana tem sido forte demais para quem um dia qualquer abominou e desdenhou da cidade de Afonso Mafrense.

Agora sento neste dia dos mortos aqui em Tuntum-Maranhão onde garimpo alguns reais para a sobrevivência, a imagem de Teresina corta o coração como gilete no pulso e a saudade bate dolorida com uma pontinha de raiva e tristeza. Teresina à distância, enfim, é o meu tema.

Emerson Araújo.

Um comentário:

AirtonSampaio disse...

Poeta, não se apoquente. Escrever sobre a nossa cidade, mãe, filho, amor e temas similares sem sermos piegas é um GRANDE DESAFIO. É por isso que, vc sabe, CDA pediu, "não cantes tua cidade / deixe-a em paz", não para impedir que se a cante, como pensam os que não entendem nada de literatura, mas para aumentar o nosso nível de rigor com esses temas "fáceis".