40 anos sem Carlos Marighella: “a chama que não se apaga”[1]


“Senhor presidente,

Senhores e senhoras deputadas,

Subo à tribuna hoje para lembrar os quarenta anos da morte de Carlos Marighella e homenagear o revolucionário, o tribuno do povo, o militante, o combatente do socialismo, o homem.

Durante o dia várias homenagens serão devotadas a Marighella. Na Câmara de São Paulo, ele recebe o título de cidadão paulistano in memoriam. No local onde foi assassinado pelo obscuro delegado torturador Sérgio Fleury, ocorrerá um ato com a presença de familiares, antigos companheiros, militantes e amigos. Peças de teatro e exposições serão dedicadas à lembrança de sua vida.
Um homem não desaparece com sua morte. Ao contrário, pode crescer depois dela, revelando sua verdadeira estatura quanto mais passa o tempo. Marighella é um desses exemplos.

Quando assassinado, seus carrascos trataram de difamá-lo, colando-lhe a pecha de assassino, terrorista sanguinário e procurando, como disse Florestan Fernandes, “condenar-lhe à morte cívica e à eliminação da memória coletiva”. Não conseguiram e hoje são seus algozes que morreram para a história.

Carlos Marighella entregou a vida à luta pelo Socialismo. Marighella foi revolucionário que passou por várias conjunturas, testado em diferentes situações, persistente e com coragem suficiente para não se dobrar a nenhum daqueles que oprimiam nosso povo.

Filho do povo, nasceu em Salvador, na Baixa do Sapateiro, do casamento de um operário imigrante italiano com uma empregada doméstica, negra, descendente de escravos sudaneses, de uma etnia guerreira. Em 1932 ingressou na juventude do Partido Comunista, mas desde jovem mostrava compromisso, alegria e criatividade. Eram famosos no Colégio Central e na Escola Politécnica da Bahia suas provas em versos.

Enfrentou a ditadura varguista, esteve envolvido na Campanha do Petróleo é Nosso, na greve geral dos “cem mil” em 1953 e na luta pela reforma agrária.

Marighella também foi combativo deputado constituinte e assumiu as mais diversas lutas, procurando reverberar as demandas populares e da nação na Tribuna da Câmara. Nesta atividade Marighella fez mais de 200 pronunciamentos.

O regime autoritário do governo Dutra cassou os deputados do PCB na Câmara e colocou o partido na ilegalidade. Marighella teve o mandato cassado, mas continuou sua luta pela libertação do povo brasileiro e pela igualdade social.

Os poderosos tentaram dobrá-lo várias vezes. Foi preso, desterrado, torturado. Enfrentou a tirania do golpe militar em defesa dos trabalhadores, do povo pobre e da soberania nacional. A ditadura militar alculhou-lhe a denominação de “inimigo público número 1” do país.

Por sua luta, Marighella foi assassinado nesse mesmo dia, há quarenta anos, na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Hoje, em frente ao local em que foi cravejado de balas por mais de 29 agentes do DOPS, Marighella vive novamente. Lá existe um monumento que pudemos reinaugurar há cinco anos, junto com outros companheiros.

Homenagear Marighella, porém, não deveria retirá-lo da história e colocá-lo na imagem do mito. Carlos Marighella, além de inconformado com a desigualdade social e com as opressões de todo tipo, também era o construtor de instrumentos políticos para organizar o povo e dar-lhe mais força na sua luta pela emancipação. No período em que o partido parecia se conformar, resignando-se com a dificuldade da situação política, Marighella rompeu com o partido, afirmando a célebre frase: “não é preciso pedir licença para praticar atos revolucionários”.

O governo Lula deveria não apenas colocá-lo no panteão dos heróis nacionais, mas resgatar-lhe na prática o exemplo.

Marighella vive. E para celebrar sua luta lemos seu poema que enaltece a luta dos “de baixo”. Trata-se de “Rondó da Liberdade”, poesia que mostra a coragem do revolucionário, sua luta pela liberdade e o amor profundo ao povo:

“É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer. Há os que têm vocação para escravo, mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão. Não ficar de joelhos, que não é racional renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas. É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer. O homem deve ser livre... O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo, e pode mesmo existir quando não se é livre. E no entanto ele é em si mesmo a expressão mais elevada do que houver de mais livre em todas as gamas do humano sentimento. É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer.”

Marighella vive, porque a chama do Socialismo não se apaga.

Obrigado,”

Deputado Federal Ivan Valente (PSOL/SP)

04 de Novembro de 2009

[1] Este título foi dado por Florestan Fernandes num retrato de Carlos Marighella feito em 1984, em artigo publicado na Folha de São Paulo.

Um comentário:

f.wilson disse...

"Vive!", e viva um grande episódio da história.