Um construtor de sonhos


Salgado Maranhão

Os Cavalos De Dom Ruffato, o premiado livro do poeta Rubervam Du Nascimento, que acaba de sair numa edição caprichada da Prefeitura de Recife e da Secretaria de Cultura da Cidade do Recife, é uma obra de fôlego. E já traz o seu leitmotiv no próprio título.

O longo poema que, embora aluda ao animal, não é, absolutamente, uma digressão sobre cavalos, mas uma metáfora desse mito que remonta às tradições mais antigas e, neste caso, ao próprio poeta em seu galopar destemido na via da existência. E é ele mesmo quem afirma: “quando pronuncio cavalos falo falo/ vida sempre por um fino biscoito / ou uma corda grossa no pescoço”.
Rubervam pertence à geração que, na década de 80, migrou da tagarelice espontânea da Poesia Marginal para o discurso motivado da linguagem. Poucos perceberam esse rito de passagem que trouxe vigor e amadurecimento ao verso praticado atualmente. Seu livro é, portanto, o exemplo de um artista que conhece bem a diferença entre os desabafos sentimentais e a arte poética na sua duríssima carpintaria.

Em principio, dois aspectos realçam desta obra: o primeiro, é a rigorosa obediência do autor à escolha temática – que, alargada de conteúdos transversais e, sobretudo, do dramático cotidiano da vida moderna – leva as palavras a um quase impasse semântico; o outro aspecto, diz da natureza construtivista do poema, da sua arquitetura intencional, que se impõe como linguagem sem esfriar o texto, sem deixar de fora o coração.
Alem disso, o livro nos revela uma outra característica do autor, que poucos poetas possuem: o dom da narrativa. É essa virtude que lhe permite realizar, com sucesso, o poema de longo curso.


Na maioria dos autores, nesse caso, o ethos narrador contamina o ethos poético, transformando o texto num produto híbrido, a meio caminho entre a prosa e a poesia.
Aqui, felizmente, isso não ocorre. Pois sendo o poeta egresso do território das experimentações com a palavra, sua consciência do poético, disciplina os arroubos verborrágicos Desse modo, os Cavalos De Dom Ruffato, apesar de ser um extenso poema segmentado, cada tópico apresenta, um núcleo autônomo.

Por fim, a sensação que nos toma, ao mergulharmos nos labirintos deste livro, no universo onírico de Rubervam Du Nascimento, é a de contemplar a argúcia e o esmero de um hábil construtor de sonhos.


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