sexta-feira, 22 de maio de 2009

O homem suprimido

Imagem: Salvador Dali
.
Cesar Cruz - São Paulo

Acordou às 6 horas como de costume. Abriu os olhos e fitou o teto. Achou que algo estava estranho com sua visão, como se estivesse enxergando apenas por uma vista. Talvez fosse mais um efeito da desilusão.

Piscou algumas vezes, mas nada mudou. Levou a mão ao rosto e foi então que percebeu. No lugar onde deveria estar seu olho esquerdo havia apenas uma cavidade. Correu para o banheiro, coração aos saltos. Acendeu a luz e olhou-se no espelho. Não acreditou no que viu. Faltava-lhe um olho! No lugar do olho havia um buraco escuro. Teve arrepios. Estremeceu de horror. Moveu a pálpebra que desceu sobre o vão oco como uma cortina amarrotada, frouxa. Só então gritou, apavorado. Mas o berro não o acordou como ele pensou que fosse acontecer. Não era um pesadelo, era um fato; seu olho desaparecera. Apoiou as mãos na bancada, curvou a cabeça e chorou. As lágrimas saiam pela vista que lhe restara e pingavam no mármore da pia. Pensou em correr a um pronto socorro, mas o que diria?

Enfim acalmou-se. Depois se banhou e tomou café sem apetite. Vestiu-se. Saiu para o trabalho usando óculos escuros, apesar do dia nublado. Explicaria a todos que era uma conjuntivite. Isso caso reparassem, o que era improvável. Depois marcaria com um especialista em olhos.

No fim da manhã, enquanto redigia um relatório de inspeção, sentiu uma violenta ardência num dos pés. Foi ao banheiro mancando, sentou na privada, descalçou o sapato, puxou a meia pela ponta e foi então que viu. No lugar dos dedos do pé havia apenas tocos curtos e ossudos. Seu coração pulou. Sumiram-lhe os dedos! Largou tudo como estava, pegou a carteira e saiu sem avisar ninguém. Entrou num táxi e foi pra casa.

No meio do trajeto sentiu um estampido seco num dos ouvidos que lhe obstruiu a audição. Os óculos cairam. Pôs a mão na orelha e não a achou. Olhou-se no espelho retrovisor do táxi e só então compreendeu. Sua orelha havia desaparecido! Tomado de terror, levantou as golas do paletó e solicitou ao chofer que estacionasse imediatamente. Vagou pela rua descorçoado, um olho arregalado e úmido e o outro vazio.

O céu ficou negro como a noite. O tempo fechado trouxe chuva forte, trovoadas. Era hora do almoço. Ele caminhava à deriva pela calçada sob a tempestade, por entre os transeuntes apressados e desinteressados. Subitamente sentiu pesar um ombro e aliviar o outro. Foi quando percebeu que a manga esquerda do paletó estava caída ao lado do corpo, vazia, murcha. Seu braço extinguira-se. Perdera um braço inteiro!

Com muito custo conseguiu chegar em casa, atabalhoado, ensopado, abatido. Entrou. Fechou a porta atrás de si com o braço que lhe restava. Cheio de autocomiseração, coxeou até o sofá e mergulhou de barriga afundando a face já sem nariz numa almofada. Despedaçado, chorou e soluçou. No trajeto até em casa havia perdido um pé, o nariz e os dentes. Em meio ao choro convulsivo, nem percebeu quando sua perna direita desapareceu totalmente, em um sonoro plopt!. Prostrado assim, adormeceu.

Sonhou que acordava em pânico pela manhã. Havia sido acometido por um terrível pesadelo, no qual era gradualmente desapropriado de seu corpo, como se suas partes estivessem sendo abduzidas uma a uma...

Então alegrou-se. Fora um sonho! Abriu a janela e havia sol forte esquentando o dia. Foi ao espelho do banheiro e fitou seu rosto corado, completo. Em seguida apalpou o corpo todo, de cima abaixo. Riu alto e satisfeito, jogando a cabeça para trás.

Acordou, de repente. Escuridão absoluta.

Estava de volta ao pesadelo, ou a vida real; não sabia mais. Procurou mover o braço para apalpar o olho que achava que ainda lhe restava, mas não havia mais braço para fazê-lo. Tentou gritar por socorro, mas não saiu som, pois já não havia mais boca.

Rolou do sofá na escuridão e caiu de costas no chão em um baque seco. Lutou, balançou-se e conseguiu virar de bruços. Arrastou-se sem rumo pela sala como uma rã perneta, auxiliado pelo membro que lhe restara. Um novo plopt! fez sumir sua perna esquerda, a última alavanca de que dispunha. Agora ele era apenas dorso e cabeça. Tentou tracionar o chão com o queixo para avançar. Mais um plopt! e seu tronco desapareceu.

Então ficou ali, no chão da sala. A bochecha colada ao carpete. As duas cavidades occipitais assustadas e vazias fitando o pé da mesa à sua frente.

A tempestade lá fora acalmara consideravelmente. Garoava de leve agora. Fazia frio e ventava.

Ele ainda pode ouvir, através da orelha que lhe sobrara, as gotas da chuva chocando-se contra a janela.

Cesar Cruz
Agosto/ 08

0 comentários: