Pitanga dissimulada

Foto: Eugênia Flora

Faço uma nova leitura sobre a vida das últimas horas mesmo diante desta insônia carnívora que me persegue agora. É verdade que recebi mais um aprendizado que é, a princípio, doloroso pela ausência do lado direito da cama que deixou de existir na mesma agilidade que chegou um dia, mas que conforta, também, pela rapidez da partida. Eu digo, mas antes cedo do que tarde, não tenho dúvidas. E ainda bem que não há mais lágrimas apesar da imagem confusa do colibri que bateu todas as asas. Já tinha sentido isso e já vinha me preparando paulatinamente.

Agora é preciso caminhar por novos trilhos sem ferimentos, nódoas e anedotas sob a seda envolta em cada madrugada. Tudo por força da idade latente, da covardia latente.

Deve-se reconhecer que não há vícios, rastros de uma sombra com uma face de máscara e frieza inflamável, apesar do sorriso amarelo que não é de gueixa, que não de nada mais.

Estou vencendo a noite aos pedaços porque a urgência deve ser preenchida antes da próxima aurora e do burburinho deste condomínio ao sul da cidade, antes do café da manhã regiamente arrumado sobre a mesa de vidro.

E para não dizer que há revanche em fevereiro, fico nesta sedição pessoal a favor do sono, limpando a memória, o equívoco da pele macia e do odor de pitanga dissimulada que ainda ronda timidamente neste quarto de tantos segredos.

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