segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

In Confraria Tarântula


Em busca de um certo tom escarlate


“Morrer deve ser tão frio
Quanto na hora do parto”
Gilberto Gil: Aqui e Agora, in Refavela

Por M. de Moura Filho

Ainda hoje é possível vê-lo, em noites de lua cheia, com seu corpo jovem, macérrimo e naturalmente ágil, escalando a ponte metálica em perseguição, supõe-se, ao B. B. King — é perfeitamente audível Lucille executando The Other Night Blues. No princípio, socorriam-lhe bombeiros, policiais, pastores, padres... Mas simplesmente esvaía-se na escuridão. Com o tempo, deixaram-no em paz com B. B. King e Lucille.

Os amigos atribuem a sua desventura, como tem sido vulgar, a uma mulher: Carmen, colombiana e artesã, com quem seguiu rumo ao sul, queimando cannabis sativa e fazendo arte
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Eu, aliás, encontrei-o em Brasília, no Moinho, e dele comprei uma xilogravura, que, ainda hoje, moldura minha sala. Aquele menino, outrora alegre, dinâmico, era triste, apático. Já não se lembrava de ninguém. Muito menos da cidade natal.
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Tempos depois, soube do seu regresso. Disseram-me que estava abatido, irreconhecível. Devorava telas, que um mercador lhe dava, em busca de um certo tom escarlate.
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Buscou-a ao limite, incisando o pulso, encerrando a vida como uma quarta-feira de cinzas finda o carnaval por estas bandas.

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