http://www.granma.cu/portugues/index.html



Estes 50 anos foram de resistência e firmeza do povo

• Entrevista realizada ao presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da República de Cuba, general-de-exército Raúl Castro Ruz, pela jornalista Talía González Pérez, do Sistema Informativo da Televisão Cubana, em 31 de dezembro de 2008, "Ano 50 da Revolução"

Jornalista: Nos primeiros dias do triunfo da Revolução Cubana, o comandante-em-chefe Fidel Castro Ruz expressava ao povo que, apesar de a Revolução ter triunfado, ninguém devia imaginar que, doravante, tudo seria mais fácil, mas talvez tudo fosse mais difícil. Quão difíceis foram estes 50 anos para construir uma Revolução socialista diante das agressões imperialistas e do complexo panorama internacional?

Tal qual afirmou, na noite de 31 de dezembro, foi depositar flores nos túmulos dos caídos da Segunda Frente, e também no de Vilma.

Em 1º de janeiro, bem cedo de manhã, em nome de Fidel, colocou flores no lugar onde jazem os restos mortais de Martí, os dos caídos do Moncada, na luta clandestina, de Frank País e dos internacionalistas.

Raúl Castro: Lembro-me claramente da frase do comandante-em-chefe, proferida em 8 de janeiro de 1959, ao chegar à capital, no antigo acampamento de Columbia, o principal quartel da ditadura, porque me causou grande impressão como ele via o futuro, e mais agora, após 50 anos, pela certeza com que previu isso.

Aquela idéia advertia: "A tirania foi derrocada. A alegria é imensa. E, contudo, ainda falta muito a fazer. Não nos enganemos acreditando que em diante tudo será mais fácil; talvez em diante tudo seja mais difícil".

E foi assim, desde o início. Com as primeiras medidas que se tomaram em defesa da Revolução, a captura e julgamento dos piores assassinos e torturadores da tirania, começou um confronto com os meios, nas mãos das forças dominantes do continente e do planeta, ou parte do planeta nesse momento.

Lembro-me da campanha gigantesca montada nos primeiros meses após o triunfo da Revolução. Não passou muito tempo, a Revolução já tinha deslanchado. Em 17 de maio desse ano, quatro meses e meio depois do triunfo da Revolução, foi aprovada pelo próprio Fidel, no posto de comando de La Plata, na Serra Maestra, onde foi o Conselho de Ministros, a primeira Reforma Agrária. Essa lei prejudicou muitos interesses norte-americanos, já que eram os donos das melhores terras, das quais se tinham apropriado fundamentalmente com as vantagens que lhes conferia a ocupação do país, no fim do século 19 e nos primórdios do 20, onde houve o caso de que pagaram simbolicamente hectares de magnífica terra a 10 centavos de dólar e, como é natural, foi o primeiro dano sério que sofreram seus interesses ao recuperar Cuba essa riqueza fundamental que é a terra.

Considero que essa medida significou algo parecido ao Rubicón da Revolução Cubana. O Rubicón era um rio que delimitava a fronteira entre a Itália e a província romana da Gália Cisalpina. Quando Julio César decidiu atravessá-lo, depois que o Senado romano lhe proibiu entrar na Itália com seu exército, tornou-se a frase famosa: "Atravessou o Rubicón"; ou seja, que tomou uma decisão irreversível. E foi o Rubicón, ao serem afetados esses interesses norte-americanos e desatar-se, com toda virulência, a luta de classes e a agressividade do imperialismo contra Cuba.

Pode se dizer que foi o primeiro passo importante; depois vieram outros.

As constantes agressões, o golpe que davam em nós ao negar-se a refinar o petróleo que compramos mais barato na União soviética, a advertência de que tinham que refiná-lo, que era uma obrigação deles, sua insistência em negar-se, a decisão de nacionalizar suas refinarias, e assim, sucessivamente, iniciaram um processo de golpes e contragolpes. Um passo muito importante foi dado naquele verão de 1960, conseqüência dessa luta na qual não podíamos nos deter ou era derrotada a Revolução, a nacionalização de todas aquelas grandes empresas norte-americanas.

Aproveitamos um congresso de jovens latino-americanos que se realizava em Havana, e no antigo estádio do Cerro, onde atualmente está o Latinoamericano, e se improvisou uma atividade. Lembro-me que colocamos uma pequena tribuna, na qual apenas cabiam algumas dezenas de companheiros, no jardim central, e entre jovens latino-americanos e cubanos e uma grande população de trabalhadores e povo em geral, Fidel proclamou a nacionalização de todas essas empresas.

Não se pode dizer que o trânsito de um sistema social para outro tivesse lugar num só dia, é impossível; é um processo de muitos passos, que conclui com o predomínio dos bens de produção nas mãos majoritárias da população.

No caso de Cuba, há um dia que se pode proclamar como tal e é precisamente esse, pelo peso que teve na economia o conjunto de todas essas propriedades que passaram, de propriedade particular norte-americana, para propriedade de todo o povo, através do Estado cubano recém-surgido.

Durante esse tempo, em 1960, começaram a desatar-se os bandos contra-revolucionários que se fortaleceram nas montanhas do Escambray; apesar de que o tentassem em diferentes províncias, sobretudo, nessas que há maciços montanhosos.

É preciso levar em conta que o governo do presidente estadunidense, Dwight Eisenhower (1953-1961), já em sua etapa final, tinha realizado a invasão da Guatemala em 1954 — sete anos antes —; a Guatemala progressista de Jacobo Arbenz, coronel, pessoa honesta, que subiu à presidência através de eleições e, diante da miséria da grande massa de índios e de camponeses guatemaltecos, fez uma pequena reforma — digo pequena, se a compararmos com o alcance e profundidade que teve a nossa —, isso foi suficiente para condenar seu processo revolucionário à morte. Eisenhower, John Foster Dulles, seu secretário de Estado, e o irmão deste último, Allan Dulles, que foi chefe da CIA, tomaram tal decisão.

Foi uma invasão menor que a da Baía dos Porcos, foi por terra, não houve resistência, o presidente Arbenz hesitou, não armou o povo que estava decidido a lutar, segundo as manifestações que se observavam. Nós pudemos acompanhar essa situação pelos jornais que recebíamos no presídio da Ilha de Pinos, onde fazia um ano estávamos presos pelo ataque ao quartel Moncada.

Nos primeiros anos da Revolução Cubana, esse era o trio que ainda decidia a política nos Estados Unidos, (Eisenhower, os irmãos Foster e Allan Dulles), apesar de já contar ou pelo menos compartilhar a informação com a futura administração que já tinha sido eleita, chefiada por John F. Kennedy (1961-1963).

É por isso que durante 1960 planejaram tal operação, aceleraram-na, porque já sabiam que estávamos preparando pilotos para aviões Migs nos países socialistas e queriam acelerá-la, e perceberam que estávamos adquirindo armamentos para fortalecer a defesa da Revolução.

Contudo, concluiu o mandato de Eisenhower, do Partido Republicano e, a partir de 20 de janeiro de 1961, o democrata John F. Kennedy assumiu a presidência dos Estados Unidos.

É bom salientar, antes de continuar esta fase, que Foster Dulles — o secretário de Estado de Eisenhower — era advogado da United Fruit Company, que foi a que estimulou e apoiou fundamentalmente a intervenção na Guatemala; era o dono das grandes plantações de bananeiras e de outras propriedades nesse país, ao igual que em outras repúblicas centro-americanas. A United Fruit Company era a mesma que em Cuba tinha outro nome: United Sugar Company, lá banana, aqui, açúcar. A aventura de 1954 contra a Guatemala deu certo, e tentaram fazer a mesma coisa, com um pouco mais de forças, mais aviões, navios, porque somos uma ilha e as forças invasoras tinham que ser transportadas em navios; mas foram os mesmos e pelos mesmos interesses que organizaram a agressão à Baía dos Porcos, muito antes de que aqui se falasse de socialismo.

Em 2 de janeiro de 1961, tomando como pretexto o discurso de Fidel em 1º de janeiro na Praça da Revolução, decidiram romper as relações diplomáticas com Cuba. Era um pretexto, a invasão à Baía dos Porcos já tinha sido planejada. A agressão ao nosso país foi decidida antes de se proclamar o caráter socialista da Revolução Cubana que, como você sabe, foi em 16 de abril de 1961, o que demonstra que vinham criando as condições para já não terem relações diplomáticas conosco e nos agredirem.

Kennedy, após dois meses e meio de assumir a presidência, lançou a invasão à Baía dos Porcos, começando os bombardeios em 15 de abril.

Esse é um exemplo de por que eu digo — um dos tantos — que nos Estados Unidos há um só partido. Nessa ocasião a invasão foi planejada pelos republicanos e executada pelos democratas. Isso é como se em Cuba existissem dois partidos: um dirigido por Fidel e outro por Raúl, com pequenas nuanças diferentes, mas é a mesma coisa.

Devo destacar que nesta operação da Baía dos Porcos houve um jovem e promissor oficial da CIA, encarregado do recrutamento da maioria dos mercenários, alistados na Flórida fundamentalmente e transferidos depois para treinarem na América Central e daí irem para Cuba. Esse jovem oficial que depois foi chefe da CIA e, mais tarde, presidente dos Estados Unidos, chama-se George H. Bush (1989-1993), o pai do atual presidente George W. Bush (2001-2009) — para que repare que é o mesmo poder, uma mesma elite que se reveza no poder, segundo as circunstâncias.

Quando da invasão à Baía dos Porcos, o país estava mergulhado na campanha de alfabetização. Já os bandos contra-revolucionários tinham sido fortemente batidos com a mobilização de dezenas de milhares de operários, fundamentalmente, da capital, que foi chamada de Limpeza do Escambray, e eles pensaram em desembarcar por Trinidad e, se fracassavam, estavam-se bem perto do maciço mal chamado de Escambray, pois seu verdadeiro nome é Guamuhaya.

Em conseqüência desses golpes em 1960, analisaram então a possibilidade da invasão à Baía dos Porcos, que não era ruim, é o maior pantanal do Caribe — do Caribe insular, me refiro —, com acessos difíceis, uma estrada que atravessa o pântano, a principal via de comunicação, onde num lugar chamado Pálpite, em meio dele, onde há um pouco mais de terra firme, lançaram seus pára-quedistas e tivemos que fazer a ofensiva em fileira indiana com os tanques, a artilharia, os soldados, as tropas não se podiam deslocar e essa é uma das causas pelas quais tivemos mais baixas que os agressores.

É conhecida a advertência de Fidel e a ordem de liquidar a invasão em 72 horas. Tínhamos que liquidá-la em 72 horas, porque Fidel previu, com muita lucidez, que se não o fazíamos assim, já consolidada sua cabeça-de-praia, teriam transladado até ali o governo fantoche, que já o haviam formado, chefiado por Miró Cardona, numa base militar norte-americana na Flórida.

Consolidada a cabeça-de-praia, o governo fantoche já em terra firme, reconhecido pelos Estados Unidos, reconhecido pela OEA, a quem pediriam ajuda imediatamente, e os navios norte-americanos à vista, era fácil, era lógico o desembarque dessas tropas para apoiar os mercenários. Por isso, esta invasão se realiza em 1961.

E dando um salto operativo, como dizemos os militares, em janeiro de 1962, sob os ditames do governo dos Estados Unidos, fomos expulsos da OEA, e todos os países latino-americanos, com a honrosa exceção do México, romperam relações diplomáticas com Cuba. O país que foi agredido uns meses antes na Baía dos Porcos, foi expulso da OEA, sob as indicações dos Estados Unido, perante seu ministério de colônias, como o chamou o chanceler Roa.

Por que era isso? Porque uma vez derrotados na Baía dos Porcos, os Kennedy, a administração norte-americana e o sistema não resistiam a essa afronta, a essa humilhação, a essa derrota, por um país pequenino frente a seu poder, e com essa expulsão da OEA, estavam criando as condições. Como antes fizeram os ianques, que romperam relações em janeiro para ter as mãos livres e nos atacar nos em abril pela Baía dos Porcos, a OEA nos expulsou em janeiro por ser incompatível nosso sistema com seu "sistema democrático". O objetivo era a invasão direta, provavelmente, no mesmo ano de 1962, que apenas pôde ser impedida pela presença dos mísseis nucleares russos soviéticos em Cuba; caso contrário, haveríamos sido invadidos. Estava quem tinha dúvida em se isso seria certo ou não, as dúvidas sumiram anos depois; segundo documentos secretos revelados, era evidente que já estavam preparando a agressão.

Assinalou apenas os aspectos mais visíveis, mais conhecidos, mais importantes daqueles anos. Foram cinco ou seis anos muito duros. O bloqueio já tinha sido imposto; mas existia a União Soviética sob a direção do Partido Comunista soviético e de Khruschov, que tiveram uma atitude muito positiva e desempenharam um papel muito importante para o fato de que a Revolução pudesse subsistir e resistir. Fomos munidos de muitos armamentos de todo tipo, até conseguir a fortaleza com que atualmente contamos, do ponto de vista militar.

Ou seja, veio a invasão, o acordo entre dois presidentes, um deles assassinado e o outro demitido, um acordo verbal da retirada dos mísseis com o compromisso de não agredir Cuba; mas então surgiu a Operação Mangosta, dirigida pelo irmão do presidente, ou controlada, supervisionada, por Robert Kennedy, procurador do governo norte-americano, que também teve participação nos contatos que fez com a máfia norte-americana para os conhecidos e já investigados planos de atentados contra Fidel, dos tantos organizados.

Foram cinco anos de constante luta interna; aos milhares os mortos e feridos, vítimas do terrorismo de Estado, orientado, organizado e dirigido pelos Estados Unidos.

Então, criaram em Miami um centro da CIA, o maior que existia depois de seus escritórios centrais que estão em Langley. Centenas de oficiais da CIA dirigindo as atividades contra Cuba, primeiro da Baía dos Porcos e depois da Operação Mangosta; apenas foi superado esse centro por outro que, anos depois, estabeleceram em Saigão, a cidade atualmente chamada de Ho Chi Minh, no sul do Vietnã, quando da agressão a esse país, um centro enorme da CIA; apenas esse superou o criado em Miami para lutar contra nós.

Chegou a haver, como é sabido, 179 bandos contra-revolucionários armados em todo o país de diferentes tamanhos, às vezes, uniam-se, davam um golpe, separavam-se de novo; em duas ocasiões estiveram nas seis províncias do país, antes da atual divisão político-administrativa, inclusive, no sul de Havana, que era uma só província.

Foram seis anos, acredito que até o ano de 1965 ou janeiro de 1966, que aniquilamos o último bando daquela etapa; depois surgiram alguns, em diferentes períodos, que foram eliminados rapidamente. Foi fortalecendo-se a Revolução, existiam as milícias camponesas, companhias serranas.

Como lhe dizia, foi no Escambray onde único ganharam força. Oriente era um lugar muito perigoso, era a maior província do país, atualmente conta com cinco províncias, a zona com mais relevo montanhoso, onde existia uma base norte-americana; nos anos 60, Fidel me disse, quando a situação começou a complicar-se: "Olha, vai para Oriente e eu me encarrego do Ministério das Forças Armadas com o chefe do Estado-Maior" — que era Sergio del Valle, já falecido —, "vá para lá, vá organizando o Exército Oriental, que se conseguimos salvar Oriente, salvamos a Revolução", era a confiança que ele tinha na força de Oriente, a importância de Oriente, e em seus habitantes, essa confiança que sempre tivemos neles, em sua tradição de luta. E foi assim. Eu estive ali um ano e meio, fundei o Exército Oriental, vinha periodicamente a Havana, participava das reuniões mais importantes, e depois Fidel, assim como mandava o Che para Pinar del Río, Almeida para o centro, eu era mandado para Oriente cada vez que havia uma crise desta magnitude: Crise dos Mísseis, Baía dos Porcos; mas, desta vez que eu lhe falei, estive ali mais ou menos um ano e meio.

Tudo isso, além do bloqueio, das sabotagens permanentes. Eu narrei que, às vezes, chegava ao Ministério das Forças Armadas e vinham quatro ou cinco ajudantes, que eram intermediários nos diferentes territórios, exércitos e regiões do país, e para ir mais rápido não me faziam relatórios, vinham com uma lista do que tinha acontecido nas últimas 24 horas, ou pelo menos nas últimas 12 horas do dia anterior: dezenas de galpões de fumo incendiados em Pinar del Río, dezenas de canaviais ardendo em todo o país, conforme a época do ano; combates travados, bombas em cidades e noutros lugares, sabotagens às redes elétricas. Às vezes, eu lhes dizia: "Digam-me o mais importante", e isso ocorreu, com maior ou menor intensidade, durante cinco ou seis anos.

É apenas uma mostra de uma época de muita atividade, de muita agressividade do inimigo, mas com maior ou menor intensidade, essa é a luta nestes 50 anos. Ocasionaram grandes prejuízos, mas também houve grandes vantagens.

Jornalista: A partir desse percurso histórico, como definiria a participação do povo para enfrentar todas estas agressões neste meio século?

Raúl Castro: Eu lhe diria que estes 50 anos foram de resistência, os anos da sobrevivência, os anos da firmeza do povo, os que nos mantivemos firmes, que é a imensa maioria do país.

Depois veio o grande golpe do colapso do bloco socialista, particularmente da União Soviética, com quem tínhamos 85% do intercâmbio comercial, onde o PIB, que é o valor de toda a produção de um país, despencou em 33%; o transporte colapsou, começou a colapsar tudo — ainda bem que tínhamos bastantes peças de reposição nos armazéns — e começamos um novo período, ao qual Fidel, 10 anos depois de ter começado este período especial — é um termo que usávamos os militares no planejamento para caso de guerra; a economia passava por um período especial, por isso foi usado esse termo —, qualificou como a época mais gloriosa destes 50 anos de Revolução. Por quê? Pela resistência do país. Não nos podemos esquecer de atos terroristas e crimes como o do avião cubano em Barbados; não nos podemos esquecer dos assassinatos de nossos adolescentes alfabetizadores nas montanhas cometidos por aqueles bandos contra-revolucionários nos primeiros anos da Revolução. Assim sucessivamente, não nos podemos esquecer das cifras de vítimas mortais, que nestes 50 anos totalizam 3.478 e os condenados a incapacidades para sempre 2.099. Não nos podemos esquecer das 101 crianças mortas por causa da dengue hemorrágica. Segundo organizações internacionais da saúde era impossível que, por causas naturais, acontecesse isso em Cuba, onde em poucas horas foram internadas 344.203 pessoas infectadas, e se registrou o número recorde de 11.400 novos contagiados num só dia, em 6 de julho de 1981.

Tudo isso passa rapidamente como um filme por minha cabeça, sobretudo, nesta data de hoje, há 50 anos, em que Fidel conseguiu render o exército de Batista, as guarnições que estavam em Santiago de Cuba, os momentos que estávamos vivendo há 50 anos; o dia 1º de janeiro, onde pudemos presenciar como se desmoronou esse exército, fundado pelos norte-americanos quando dissolveram o exército dos combatentes cubanos no fim do século 19 e nos primórdios do 20, essa Guarda Rural, que nos deixaram como herança, esse exército instruído por eles, que foram vencidos pelo Exército Rebelde.

Que era o Exército Rebelde? Nem mais nem menos, o exército mambí; retomou as armas do exército mambí, que foi desarmado pelo imperialismo, pelo nascente imperialismo, que começava a ganhar força e que Lênin qualificou essa guerra hispano-cubano-americana como a primeira guerra imperialista. Já o mundo tinha sido partilhado pelas grandes potências. Numa reunião em Berlim, no último quarto do século 19 e para obter novas terras, havia que tirá-las de outras potências colonialistas. Esse foi o pretexto para os EUA ficarem com Cuba, Porto Rico e Filipinas, e permitiram a Cuba, por ser a que mais lutou, durante cerca de 30 anos, com seus altibaixos, um hino, uma bandeira, um escudo e uma Constituição com a Emenda Platt, pelo nome do senador que a propôs.

Tal emenda lhes dava o direito de intervir em Cuba quando o acharem conveniente e fizeram-no em mais de uma vez.

A Emenda Platt regeu até depois da queda da ditadura de Machado, na década de 30, mas continuou na mesma. Realmente, por essas coisas da história, o primeiro soldado americano entrou em Havana em 1º de janeiro de 1899. Esta guerra foi travada em Oriente e, por isso, eles entraram em Havana quando as tropas espanholas se renderam, em 1º de janeiro de 1899; e por essas ironias da história, as primeiras colunas guerrilheiras da Revolução enviadas por Fidel, a do Che e a do Camilo, entraram em Havana também em 1º de janeiro, mas em 1º de janeiro de 1959.

Quer dizer que o domínio absoluto norte-americano neste país durou exatamente 60 anos. É verdade que algum capital norte-americano entrou antes a Cuba; mas o domínio absoluto do imperialismo norte-americano em Cuba durou 60 anos, de 1º de janeiro para outro 1º de janeiro.

E esses 60 anos tiveram seus altibaixos, deixaram uma situação muito complexa no país, uma grande confusão, uma grande dor, até que começaram a renascer os movimentos populares das cinzas daqueles acontecimentos; surgiu o primeiro partido comunista em 1925, fundado por Mella e por Baliño, um jovem brilhante e um veterano amigo de José Martí, lutador pela independência. O imperialismo, que manejava o país, instaurou a ditadura machadista (Gerardo Machado), fez fracassar a revolução que a derrubou; surgiu Batista, um sargento do Estado-Maior que sabia dos segredos de tal instituição, com um grupo de sargentos, deu um golpe; uns dias depois, foi coronel: foi o novo instrumento do imperialismo como poder atrás do trono desde 1933 até as eleições de 1940, e foi presidente até 1944, foi ao exterior, surgiram os chamados governos autênticos e corruptos de Grau San Martín e Prío Socarrás até 1952, e foi, em 10 de março desse ano, que ressurgiu novamente Batista, perfilhado, como sempre, pelo governo norte-americano. Desta vez, a ditadura durou sete anos.

Na época, eivavam a América Latina ditadorzinhos ao estilo de Batista, que era o método utilizado pelos Estados Unidos, fundamentalmente para terem o domínio absoluto do continente, também no Caribe, no Caribe anglófono ainda eram colônias inglesas; mas na República Dominicana e no Haiti, a chamada Hispaniola, a segunda em tamanho das Antilhas maiores, estavam ditaduras nem mais nem menos que a de Trujillo e a de Duvalier. Essa era a situação do continente.

Aí começou a luta do Moncada, conhecida perfeitamente por nosso povo; uma ditadura que durou uns sete anos, desde 10 de março de 1952 até 1º de janeiro de 1959: cinco anos, cinco meses e cinco dias decorridos desde o ataque ao quartel Moncada até o triunfo, uma coincidência os três cinco.

Jornalista: Constitui um fato inédito na história da humanidade que os principais líderes de um processo revolucionário possam ver, depois de 50 anos, o triunfo dos frutos das idéias pelas quais lutaram e continuam trabalhando para sua consolidação. No plano pessoal, que sentimentos o senhor experimenta hoje?

Raúl Castro: Quantas coisas, sentimentos, sensações, vivências passaram nestes 55 anos desde o Moncada. Tivemos que viver esta época, a mais gloriosa da história desta nação, a da grande tensão, e hoje somos respeitados.

O povo de Cuba sente-se orgulhoso de si próprio, está orgulhoso de sua Revolução, tem um sentido de pertença de sua Revolução.

Jornalista: O senhor falou muitas vezes do tema do bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba, que quase completa meio século e que custou ao governo cubano e a seu povo anos de luta e de resistência; também do complexo panorama internacional de guerra, de desunião, de desastres naturais. Cuba, hoje, depois de 50 anos de Revolução, quais as suas estratégias para continuar defendendo a Revolução socialista que construímos?

Raúl Castro: Antes de mais nada, basear-nos em nossos próprios esforços — Fidel falou nisso há muito —, e sobretudo, depois que ficamos sozinhos, depois da desintegração do bloco socialista; a necessidade de basear-nos em nosso próprio trabalho. Fidel já o disse na magnífica definição do conceito Revolução naquele primeiro de maio de 2000, na Praça da Revolução, em Havana.

Questão vital é desenvolver as produções internas, incrementar as exportações, produzir todos os alimentos que consigamos produzir neste país, poupar. Ninguém, nem uma pessoa nem um Estado, pode gastar mais do que produz, seria deixar aos nossos filhos e netos uma gigantesca dívida; não é ético, não temos esse direito.

Resolvemos muitos problemas, mas o próprio desenvolvimento traz consigo outros novos.

A taxa de natalidade é baixa. No fim do ano, incrementou-se um pouco, a cifra ultrapassa em 10 mil nascimentos os do ano passado, mas ainda é pouco.

A esperança de vida elevou-se. Contamos com milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares de pessoas na terceira idade. Da mesma maneira é necessário construir creches para as crianças — que, como é sabido, não bastam, muitas estão fechadas, outras com deterioradas —, também temos que fazer lares para os avós, para que passem o dia neles e, à noite, voltem a sua casa com a família; mas alguns deles não poderão fazê-lo por serem muito idosos e deverão ficar com a família e é difícil para a família quando chegam a certa idade, é necessário fazer mais asilos.

A esperança de vida é uma grande vantagem. Quando atacamos o Moncada, esperança de vida era de 59 anos e hoje é de 77, 97. A mortalidade infantil diminui.

Temos muitas coisas positivas que acarretam novos problemas que devemos enfrentar.

Não temos paz, não temos tranqüilidade. O inimigo disse que o socialismo é um fracasso. Por que não nos deixam tranqüilos para lutar em pé de igualdade? Mas, de jeito nenhum, é um fracasso, nem sequer nestas condições. É uma batalha incessante.

Tivemos que dedicar gigantescas verbas à defesa, porque, como já dissemos em outras ocasiões: para nós, evitar a guerra equivale a ganhá-la; mas como acrescentamos: para ganhá-la, evitando-a, temos que derramar rios de suor e não poucos recursos, milhares de quilômetros de túneis; menos os navios de guerra, todas as unidades estão sob terra. Isso custa; isso dá segurança.

Por muito que um dia bombardeiem, por muito que bloqueiem nosso país, o assunto é que para resolver o problema de Cuba têm que desembarcar, e aí é quando estaremos em pé de igualdade, soldado frente a soldado, e tudo será bem diferente.

Não gostaria de ver nem sequer num laboratório o que seria uma agressão dos Estados Unidos contra Cuba, porque o preço que teria que pagar nosso povo seria muito caro, muito elevado. No entanto, Martí disse: "A liberdade custa muito caro e é preciso resignar-se a viver sem ela ou a pagar o preço que for necessário, e pagamos.

Mas devemos poupar, eliminar gratuidades. Se quisermos equilibrar os salários com o justo papel que devem desenvolver, temos que ir, paulatinamente ou simultaneamente, eliminando gratuidades indevidas, que foram surgindo aqui e lá, e subsídios excessivos. O Estado sempre precisa de subsidiar para ir equilibrando, ajudando os de mais baixa renda, por um motivo ou por outro, sempre tem que haver subsídios numa coisa ou outra, mas não abusar disso. Ninguém se lembra do que recebe de subsídio e de gratuidades, a gente só faz as contas do que se recebe de salário mensal, e essa conta foi mal calculada. Temos que aprender que dois e dois são quatro, não cinco; às vezes, talvez no socialismo, dois e dois são três. Essas são questões fundamentais.

Temos que saber que vivemos e temos que continuar vivendo uma situação tensa e difícil; se aproxima de nós, já estamos em meio dela, um mundo turbulento, com uma crise econômica e financeira que se sabe como começou, mas não quando nem como termina, muito pior e mais grave que a de uns 80 anos atrás, na década 20 do século passado; atingirá todos e, como é natural, os países mais pobres, e dentro dos países ricos, os cidadãos mais pobres. Talvez, nalguns aspectos, seremos menos atingidos. Nosso povo está preparado, mais de 70% da população nasceu sob as condições do bloqueio; se existir um país treinado para resistir a situações como estas, somos nós e ficou demonstrado que sobrevivemos.

Temos que dar o verdadeiro valor ao trabalho. Podemos ficar roucos falando e apregoando esse conceito, mas se não tomamos providências para que as pessoas sintam a necessidade vital de trabalhar para satisfazer suas necessidades, não acabaremos de sair deste buraco, e vamos sair.

Talvez não consigamos solucionar muitos problemas com a prontidão necessária. Temos que trabalhar, temos que assumir esse conceito que é trabalhar, criar e poupar. Essa é a situação, acredito que as pessoas entenderão. São verdades, por duras que forem, nós não podemos adoçá-las, temos que dizê-las.

Temos para o ano 2009 grandes tarefas: continuar a partilha em usufruto das terras; avançamos, já ultrapassamos os primeiros obstáculos com que nos deparamos por hábitos atávicos de burocracia. Vamos saindo, pelo menos, em parte, dos prejuízos na produção agrícola, ocasionados pelos três terríveis furações que nos açoitaram.

Os estragos desses furações deixaram perdas avaliadas em mais de US$9, 7 bilhões — e nunca se faz a conta exata, porque é muito difícil, dos danos que nos ocasionaram —, o que equivale ao redor do 20% do PIB do país. Utilizamos as reservas que tínhamos para alimentar a população, não tivemos queixas nesse aspecto. Não conseguiremos em muito pouco tempo resolver a dívida em moradias que temos dos furações de 2002,de 2005, além das novas casas devastadas; até que não tenhamos em todo o país casinhas que possam resistir aos furacões cada vez mais freqüente e violentos, teremos esta situação.

Decidimos que, em muitos pontos do litoral, sobretudo, na costa sul, onde são constantes os furacões ou as penetrações do mar que destroem moradias, sejam construídas mais afastadas da costa. A população quer fazê-las no mesmo lugar em que se encontravam, mas issos é impossível, pois ocorre outro fenômeno deste tipo e voltamos a mesma situação. Em Cuba, qualquer material presta para casa pelo clima, mas não para resistir aos furacões. Já vamos experimentando que são mais freqüentes e maus potentes, pelas conhecidas razões da mudança climática, devida fundamentalmente à irracionalidade humana, problema ainda não resolvido.

Estamos cheios de otimismo, sempre fomos otimistas até nos piores momentos, aprendemos isso com Fidel, de quando — fato que completou 50 anos em 18 de dezembro passado —, com seus dois fuzis, além dos cinco que eu tinha, fez-me a famosa pergunta: "Quantos fuzis você trouxe?" "Cinco." "E dois que eu tenho, sete. Agora sim ganhamos a guerra!" Sempre foi o mesmo, tirava forças de onde parecia que não havia possibilidade alguma, nem de sobreviver nem de continuar avançando. Isso é uma história constante.

Estes 50 anos são heróicos. Os que tivemos o privilégio de vivê-los de maneira consciente e participar ativamente destes grandes acontecimentos, com nosso povo, sentimo-nos orgulhosos de todas as vivências, essa glória que não podemos deixar cair, que temos que continuar, porque o imperialismo está aí.

Jornalista: A partir do recente resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos, vários analistas na prensa internacional especulam que existem expectativas de mudança com a subida de Barack Obama à presidência. Qual é a sua opinião?

Raúl Castro: Agora têm um presidente que criou esperanças em muitas partes do mundo; penso que esperanças excessivas, porque embora seja um homem honesto, e acredito nele, um homem sincero, um homem não pode mudar os destinos de um país, e muito menos — um homem só, digo — dos Estados Unidos. Poderá fazer muito, poderá dar passos positivos, poderá fazer avançar idéias mais justas, poderá frear a tendência, quase ininterrupta desde o surgimento dos Estados Unidos, em que quase todos os presidentes travaram sua guerra, ou suas guerras. Disse que vai sair do Iraque. Essa é uma boa notícia. Disse que vai duplicar as forças no Afeganistão, má notícia. Os problemas não se podem solucionar à base de guerra.

Considero que em relação ao Afeganistão não existe solução, salvo uma: deixar tranqüilos os afegãos. Por aí só entrou e saiu ileso Alexandre, O Grande. Talvez seja porque se casou com uma princesa afegã, mas, sobretudo, porque saiu rápido. Aí os ingleses sofreram um descalabro no século 19; no século 20, os soviéticos sofreram um descalabro, que vivenciamos todos nós, e no século 21, os norte-americanos e os que com eles fiquem no Afeganistão sofreram também seu descalabro. São realidades, e isso é negativo.

Os gigantescos recursos que se dedicam às questões militares, às guerras, desde a guerra do Vietnã... Para quê a guerra do Vietnã? Para quê 60 mil mortos norte-americanos? Ignoro o enorme número — deve ser duas ou três vezes maior — de aleijados, feridos, mutilados. Para quê 4 milhões de vietnamitas mortos, de ambas as partes? Quais os objetivos? O que conseguiram? Para quê o bloqueio a Cuba 50 anos? Que conseguiram? Fortaleceram-nos mais, sentimo-nos mais orgulhosos, temos maior resistência, somos mais fortes, temos mais confiança em nós.

Tomara que me engane em minha apreciação. Tomara que o senhor Obama tenha sucessos; quanto a nós, que tenha sucessos, mas com uma política justa, e que ajude a resolver, pelo poder que têm, os graves problemas do mundo.

Nossa política está definida: o dia que quiser discutir, discutimos, em pé de igualdade, como já disse, sem amais mínima sombra a nossa soberania e de igual para igual. E como costuma acontecer ou costumava acontecer que, a cada momento, vinha alguém a pedir que déssemos um passo, como também recebi uma carta de um ex-presidente que sugeria que se aproximavam mudanças pelas eleições presidenciais nos Estados Unidos e que era bom que Cuba desse algum passo, com a mesma amabilidade que me escreveu, respondi- lhe: A época dos passos unilaterais acabou; um passo em troca de outro passo. E estamos dispostos a fazê-lo quando eles o decidirem, sem intermediários, diretamente. Mas não temos pressa, não desesperamos, e com certeza, já o dissemos e Fidel também o disse há anos: não discutimos com o garrote e a cortesia, já isso passou, essa era outra etapa.

Essa é nossa posição, continuaremos pacientemente à espera. Coisa incrível que com o temperamento dos cubanos aprendamos a ter paciência; temos e, pelo menos, o demonstramos nisso.

Jornalista: Durante estes 50 anos, os Estados Unidos fizeram todo o possível para isolar Cuba do mundo. Recentemente, nosso país rompeu esse isolamento dos mecanismos regionais de integração com seu ingresso no Grupo do Rio. O que representa esse fato para Cuba?

Raúl Castro: Foi muito emocionante quando, no estado da Bahia, Brasil, onde se efetuaram três das cúpulas de que participei, na presença da quase todos os chefes de Estado da América Latina e do Caribe, que pela primeira vez na história, se reúnem sem a presença de forças extra-regionais — diga-se o Canadá, Estados Unidos ou a Europa —, eu disse com bastante emoção que o que lamentava era que Fidel não estivesse sentado ali naquele momento, e recebi uma ovação de todos. Esse foi um grande reconhecimento e uma imensa alegria para nós que captou o povo, porque foi um reconhecimento a nossa resistência, como eu disse: "Estamos aqui porque resistimos, resistimos meio século!" e, com certeza, temos que estar prontos para resistirmos meio século a mais.

A vida é uma batalha permanente, é uma luta eterna, alguns cansam e depois renegam o que fizeram, por sorte, são poucos. O povo se mantém, e assim manterá para sempre sua Revolução. Precisamente, um exemplo de resistência são nossos Cinco Heróis, que já cumpriram dez anos de injusta prisão em cárceres norte-americanos.

Jornalista: Sobram as razões para comemorar um dia como hoje o 50º aniversário do triunfo da Revolução Cubana. Como prestará o senhor homenagem a esta comemoração?

Raúl Castro: Penso na meia-noite estar no Mausoléu dos companheiros caídos na Segunda Frente ou que ali foram enterrados depois do triunfo da Revolução. Quero colocar flores nos túmulos deles, também no de Vilma; ouvir, com eles, os canhonaços pelo 50º aniversário da grande alvorad, e o Hino Nacional. E amanhã, bem cedo, em nome de Fidel, colocar umas flores no túmulo de José Martí, no dos caídos no Moncada, dos caídos na luta clandestina, no de Frank País e dos internacionalistas santiagueiros, em homenagem aos de todo o país. Farei isso contente, emocionado e cheio de otimismo no futuro.

Jornalista: Muito obrigada e felicidades pelo 50º aniversário do triunfo da Revolução.

Raúl Castro: Obrigado a nosso heróico povo.


Nenhum comentário: