Torquato Neto desafinou o coro dos contentes


Para entender um pouco o legado do poeta, compositor, jornalista, cineasta, ator, diretor, produtor cultural e escritor piauiense Torquato Pereira da Araújo Neto (1944-1972) só mesmo por meio de análise aprofundada da linguagem poética por ele deixada, entre os anos 60 e 70. O professor doutor Feliciano Bezerra Filho explorou os códigos lingüísticos da obra, estabelecendo correlação com a conjuntura e os espaços de atuação do poeta nesse contexto. A pesquisa, resultado da sua dissertação de mestrado na PUC de São Paulo, em 1998, foi publicada posteriormente no livro A escritura de Torquato Neto (2004). O autor faz uma análise de grande parte do legado artístico do piauiense e se detém na linguagem. Assinalando a importância do piauiense em uma nova redefinição da cultura brasileira que resultou no movimento tropicalista. Feliciano Bezerra Filho, aprofundou esses estudos em sua tese de doutorado intitulada “Ressonâncias da Tropicália. Mídia e Cultura na Canção Brasileira”, defendida em 2005, também pela PUC.

Torquato Neto pode ser confundido com o próprio movimento. Ele queria o distanciamento das concepções impostas “por forças político-culturais atuantes do momento”. “Os tropicalistas preferiam uma atuação mais artística, menos ideologizada, articulando os temas da participação, do consumo e do nacionalismo com uma desfiguração dos grandes discursos de engajamento político e estético, comumente empregados”, analisa o professor, que também ressalta o dinamismo de Torquato, apropriando-se dos vários espaços de atuação, seja no jornalismo cultural, na poesia, na música, no cinema ou na editoração. Quanto à concepção poética, o pesquisador revela que a linguagem de Torquato era narrativa, versos coloquiais, líricas subjetivas com profundas demandas do íntimo. Poemas visuais, curtos, em que se utilizava de recursos gráficos e tipográficos, como remontagem de palavras, entre outros. O único livro publicado do poeta, que próprio não chegou a ver, Os Últimos Dias de Paupéria, foi organizado pela viúva Ana Maria Duarte e o poeta Waly Salomão, em duas edições, a primeira de 1973 e a segunda, ampliada, de 1982.

O forte traço que marca o poeta é a exposição de suas próprias vivências e conflitos, o Torquato Neto, Caetano Veloso e José Capinam : parceiros do movimento tropicalistaque o professor chama de atitude estético-vivencial. Torquato se desnuda e mostra angústia em seus versos. A poesia se confunde com sua vida. Ele é crítico, grotesco, tem humor, alegoria, pessimismo. Badalada era a sua coluna Geléia Geral, no Jornal Última Hora, no Rio de Janeiro. O título foi dado à letra da canção musicada por Gilberto Gil, outro símbolo da Tropicália, ao lado de Caetano Veloso e muitos outros.

O cinema foi uma das paixões de Torquato. Atuou em alguns filmes como Helô e Dirce (1972), protagonista em Adão e Eva no paraíso de consumo (dirigido em Teresina e sem paradeiro) e protagonista de Nosferato no Brasil, dirigido por Ivan Cardoso, em 1971. Pode-se afirmar que este último o tornou mais conhecido nacionalmente. Dirigiu apenas um filme: O Terror da Vermelha, rodado em Teresina, sua terra natal. Também no cinema, o poeta apresenta-se contra as convenções, dando propostas inovadoras. Segundo Feliciano Bezerra, a tecnologia em câmara de super-8 foi defendida por Torquato, que disse: “Cinema é um projetor funcionando, projetando imagens em movimento sobre uma superfície qualquer. É muito chato. O quente é filmar”.

A música foi uma marca expressiva e inesquecível do poeta. Segundo Feliciano Bezerra, ele exerceu influências e despertou interesse das gerações posteriores, seja de músicos, seja do público consciente ou não. Até hoje, compositores buscam na obra musical de Torquato inspirações para suas produções. O pesquisador explica que mesmo com o golpe militar de 64 e a perseguição a todas as formas de expressão da arte e cultura no país, Torquato Neto mostrou-se um grande poeta e não apenas enquanto validador do movimento tropicalista. “O nível de elaboração das letras das canções, a inventividade com que toma posse e se aproveita do mural da poesia brasileira e as apropriações criativas devidamente colocadas confirmam sua competência no manejo poético”.

O pesquisador Feliciano Bezerra ressalta que Torquato não tocava e nem cantava afinado, mas o seu talento nesse campo era tão incrível que elaborava poemas totalmente imbuídos de musicalidade, com melodia e harmonia, com tratamento equilibrado de sons. Entre elas, Nenhuma Dor, Minha Senhora, Zabelê, Deus vos salve a casa santa, parcerias com Caetano Veloso; Louvação, A Rua, em parceria com Gilberto Gil; Todo Dia é Dia D, com Carlos Pinto, compositor carioca; Let´s play that, musicada por Jards Macalé; Pra dizer adeus e Veleiro, com Edu lobo. O pesquisador relata em seu livro, inclusive, a famosa Go Back, musicada na década de 80 pela banda Titãs, sucesso até hoje. Em 1973, Três da madrugada, parceria com Carlos Pinto, foi gravada por Gal Costa. Em 1997, Luiz Melodia lança a canção Começar pelo recomeço, música com poema de Torquato. “Torquato continua sendo requisitado por cantores e compositores. Seus vibrantes poemas musicados celebram um tipo de criação que se firma, de forma irrevogável, na cultura musical brasileira, com forte padrão de invenção e qualidade”, considera o pesquisador.

*Prof. Dr. Feliciano Bezerra Filho
Depto. de Letras / Português - UESPI
(86) 3213-7441 (ramal 341)

felicianofilho@uol.com.br

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