A poética da resistência cultural



Paulo Machado


Torquato Pereira de Araújo Neto (Torquato Neto) nasceu em Teresina, no dia 9 de novembro de 1944, e faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1972.
Poeta, jornalista, cineasta, roteirista, ator e produtor cultural. Um dos melhores letristas do Movimento Tropicália. O principal articulador teórico das propostas dialéticas deste Movimento Cultural.


Fez jornalismo alternativo e participativo. Fez crítica de cinema, questionando o comprometimento político do Cinema Novo e incentivando o insurgente Cinema Experimental.

Foi ator de cinema em filmes produzidos e dirigidos por integrantes da novíssima geração de cineastas brasileiros, nos primeiros anos da década de setenta.

Foi ator e diretor de filmes brasileiros rodados na bitola de super 8mm.

Escreveu roteiros de shows musicais, participou de performances e produziu espetáculos multimídia. Um cidadão brasileiro consciente da grandeza cultural do Brasil e uma referência significativa na história da cultura brasileira no período compreendido entre 1968 e 1972.

A crítica literária exercida nas sessões solenes das academias de letras e pelos escrivinhadores de resenhas nos manuais de literatura brasileira impostos aos professores e alunos desconhece a obra literária do poeta Torquato Neto.
Mas a sua obra literária, porque valorosa, firma-se como uma matriz inovadora para a literatura brasileira.

Os poemas de Torquato Neto não estão incluídos nas "antologias" organizadas e editadas pelas editoras caça-níqueis que proliferam no mercado editorial brasileiro, porque foram escritos para fazerem parte da Antologia Brasileira dos Poetas Insurgentes, que um dia será editada.

Por razões que necessitam de esclarecimentos, o crítico literário Assis Brasil estabeleceu relações de identidade estilística entre Torquato Neto, Kerouac e Ginsberg, principalmente com o último escritor americano. Mas fazendo uma análise da vida e da obra de Torquato Neto é possível concluir que os pontos de identidade estilística são outros e são múltiplos, alguns nacionais e outros tantos estrangeiros.

No processo de formação cultural da nação brasileira, o reconhecimento da obra literária de Torquato Neto ocorrerá no tempo certo. A nação brasileira está em formação, fato compreendido pelo poeta e ignorado pelos críticos literários do Brasil, salvo raríssimas exceções.

É imperioso ressaltar que a leitura do livro Os Últimos Dias de Paupéria, que foi editado após a morte, e que reúne a sua obra literária, não basta para análise e compreensão do seu legado cultural. O livro precisa ser revisto e ampliado, para que alguns poemas inéditos, que têm excepcional valor literário, sejam incluídos.

Vale a pena lembrar que, após o Golpe Militar de 1964, as elites nacionais, sob a orientação do Estado Maior das Forças Armadas, criaram o mito do país em desenvolvimento e puseram à margem o projeto de Nação que as duas gerações de modernistas tinham elaborado. No final da década de 60, no País do Futebol, era proibido pensar. O poeta Torquato Neto assumiu, a partir dos dois últimos anos da década, a incomoda tarefa de pensar e criar de forma conseqüente.

Resgatou a proposição de "desafinar o coro dos contentes" e imprimiu integridade à Geléia Geral. Pôs em curso a poética da resistência cultural, que tem início com Gregório de Matos e continuidade com Tomás Gonzaga, Sousândrade, Augusto dos Anjos, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Na linguagem poética de Torquato Neto, estes referenciais culturais estão presentes e conscientemente digeridos. Quem estiver disposto a conferir leia, com urgência, os poetas indicados e fará descobertas surpreendentes. Depois, vai pintar uma vontade irresistível de repensar o Brasil.

(Meio Norte, Alternativo, Teresina, 9 de novembro de 1996, 1ª página).

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