sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Carta Aberta a kenard Kruel


Meu caríssimo kenard Kruel,

Há muito tempo não me dirijo de forma pessoal a você. Mas sou obrigado a fazê-lo agora sem querer polêmicas e nem extensões cansativas na grande rede.

Você como ninguém sabe muito bem que sempre fui muito tímido, arredio e marginal em se tratando de manifestação lítero-cultural aqui nesta tristeteresina. Portanto, não venha com esta tua tática de guerrilheiro urbano ao dizer na tua página eletrônica que eu desejaria ser membro da APL ou de outra academia. Ora como é que um arredio, marginal pode pleitear isso? Sempre fui avesso a instituição conservadora. E todas as academias literárias ou não para mim são organizações proselitistas que servem de fuxico para as colunas sociais da imprensa marrom. Sem falar que elas são contra as vanguardas que eu admiro e defendo como criação artística sempre.

Outrossim, fica também a crença definitiva que as academias e os acadêmicos são personagens mortas e quem está querendo se habilitar a elas, também, já estão a meio caminho andado da sepultura da criação literária, todas as criações. Portanto, Kenard Kruel, me retire da lista dos candidatos ao mausoléu. Ainda deixo aqui a minha repulsa as academias e aos acadêmicos sem vigor e sem ânimo através da maior crítica a eles feita pelo bardo Manuel Bandeira:

Os Sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...


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