Anjos poderosos





Emerson Araújo


Para Kenard Kruel e Airton Sampaio


O ano era 1984 ou 1985, sou péssimo em datações e outras coisas ainda, mas vendo algumas deferências sobre Ramsés Ramos no blog Kenard kaverna nos últimos dias, tomei a iniciativa de narrar em poucas palavras uma cena mágica deste meu querido amigo de sangue carcamano por estas bandas.


Há dois anos estava eu com uma patologia sem diagnóstico a perambular pelos hospitais de Teresina. A morte rondando a cada aurora, mas a crença, que não era dúbia, na vida me fazia continuar a insistir. E assim continuava eu fazendo, lutando contra a morte, igual a luta de Jacó contra o anjo como narra o velho testamento. Apesar da falta de diagnóstico ainda tinha esperança de continuar vivo, construir família, montar sonhos e alhures, voltar a amar de novo como ninguém, agora.


Mas Ramsés Ramos e William Melo Soares protagonizaram uma cena que até hoje mexe com os meus pêlos e põe lágrimas nos olhos deste quase cinquentão. Estava eu internado no Hospital Casa Mater(o nome era este na época) sobre os cuidados do Dr. Júlio César quando na véspera de natal (uma quarta-feira cinzenta), quando já não tinha eperança em nada, adentraram pelo corredor da enfermaria 13 os dois poetas. O horário não era de visitas, 9 horas da manhã e se aproximaram de mim, eu deitado num cama-maca, olhar absorto na morte. Os dois poetas pararam diante de mim e Ramsés Ramos falou algumas palavras de ânimo e de certezas no amanhã sob o olhar lacrimejante de William Melo Soares.


Depois da morte trágica de Ramsés Ramos em 1998 num quarto de hotel em Moscou e após a insistência deste médico competente em me fazer colocar de pé de novo a partir de 1986, fui espiritualizando minha vida e descobri que naquele natal de 1984 ou 1985, Alah também tinha seus anjos poderosos.


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