segunda-feira, 9 de junho de 2008

O ofício de ser Tirofijo


Pilar Lozano

"Por que às vezes usa uma toalha vermelha e outras vezes branca ou amarela?", perguntou, curiosa, uma jornalista a Manuel Marulanda, o Tirofijo. Isso foi há seis anos, na região do Caguán, sul da Colômbia, quando avançavam os diálogos de paz com a guerrilha esquerdista Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), comandada por esse homem, naquele momento com 72 anos. E Marulanda, que, como agricultor, aprendeu desde jovem a levar nos ombros uma toalha para secar o suor e espantar os mosquitos do rosto, lhe respondeu depois de um longo silêncio: "Sempre que ele vem, chega com a camisa azul; então eu ponho a toalha vermelha, como liberal". Azul e vermelho distinguem os partidos tradicionais que durante décadas disputaram o poder na Colômbia.O guerrilheiro veterano, que segundo as Farc morreu de enfarte no último 26 de março às 18h30, tinha convidado naquele sábado, seis anos atrás, um grupo de jornalistas para almoçar na Casa Vermelha, como chamavam o lugar dedicado a eventos sociais em meio à imensa zona desmilitarizada que serviu de palco para a falida tentativa de paz.Foi por ser liberal que Pedro Antonio Marín (seu nome original) colocou pela primeira vez um fuzil no ombro. "Levantar-se em armas era a única maneira de sobreviver", ele contou a Arturo Alape, seu biógrafo, para explicar seu salto de agricultor para homem de guerra. Aconteceu em 1948, no meio de um país incendiado pela violência bipartidária exacerbada pelo assassinato do líder liberal, Jorge Eliécer Gaitán. Até esse momento, em seu povoado era a mesma coisa ser liberal ou conservador, mas de repente a diferença entre ser vermelho ou azul caiu "como uma avalanche" sobre sua família. Todos eram liberais. "Era o sinal da cruz que sempre se leva na testa; nossa família era gaitanista", contou a Alape. Por isso se transformaram em alvo dos "chulavitas" e dos "pájaros", como eram chamados os capangas conservadores. Para se salvar, escondeu-se na casa de um tio. Logo soube que iam matá-lo de qualquer maneira. Começou então a se perguntar: onde estão as armas? Como se conseguem? Em pouco tempo tinha organizado uma guerrilha de 14 homens, todos seus primos. "Nem sequer tínhamos escopeta, só machetes e paus", confessou aos jornalistas no almoço. O grupo foi crescendo até se transformar em uma autodefesa liberal que dividia o terreno com outra de origem comunista. Quando se estabeleceu o confronto entre as duas correntes, Marulanda parou em uma assembléia e disse: "Do meu fuzil jamais sairá um tiro contra os comunistas". Ele afirmou que via melhores qualidades neles do que em seus co-partidários. "Desde então se me encravou no cérebro a linguagem liberal", declarou a Alape.Com seus novos aliados criou uma zona de resistência camponesa, Marquetalia, no departamento de Tolima, a sudoeste de Bogotá. Ao amanhecer de 14 de junho de 1964 viram que helicópteros começavam a despejar centenas de soldados. Tinham ordem para tomar, fosse como fosse, essa "república independente", como se chamava na capital o refúgio de Tirofijo -então um homem magro, com cara de assustado e um bigode que parecia pintado a lápis- e a "seus sequazes". Ali vivia meia centena de famílias organizadas em comuna, como já ocorria em outros locais do país.Tirofijo e seus 48 homens conseguiram fugir. Com as armas protegeram depois as chamadas colunas de marcha: agricultores que em uma tentativa de deslocamento ordenado, em meio ao assédio militar para acabar com os focos comunistas, atravessaram a cordilheira e criaram mais além novos povoados. Em 1966, na primeira conferência guerrilheira, nasceram as Farc. E nasceu uma lenda: Tirofijo começou a ser visto simultaneamente em vários lugares. Muitas vezes se disse que havia pactos com o diabo porque ele escapou de cercos militares montados por 15 governos diferentes... muitas vezes foi dada a notícia certeira de sua morte... "Com a Operação Marquetalia, a classe dirigente deste país criou o movimento armado colombiano, criou as Farc", afirmou sempre Arturo Alape, morto recentemente. Essa guerrilha chegou a ter em seus melhores momentos, segundo fontes oficiais, mais de 17 mil homens e 70 frentes espalhadas pela difícil geografia de um país com 44 milhões de habitantes e duas vezes maior que a Espanha.Pedro Pablo Marín, pai do guerrilheiro, afirmava que o mais velho de seus cinco filhos nasceu em 12 de maio de 1928 em Génova, um povoado cafeeiro pendurado nas montanhas da cordilheira Central. Tirofijo o contradizia: "Sou de 1930, ou seja, da época do mandato de Olaya Herrera". E Olaya Herrera foi para os liberais autênticos do início do século 20 uma espécie de herói: rompeu 30 anos de hegemonia conservadora.Dos primeiros anos de Marulanda sabe-se que só fez a escola primária, que saiu de casa aos 13 anos porque queria "formar seu próprio patrimônio", que aos 16 dirigia um negócio de corte de madeira, que aprendeu esgrima -empunhando o machete- ao lado de seu tio José de Jesús. Amava praticar esse esporte, como amava fechar-se em seu quarto, depois de trancar a loja, para tocar violino: "Me apaixonava, me fazia vibrar o corpo inteiro".Sobre a esgrima, confessou a Alape: "Deve-se agir com os olhos, porque na esgrima se vê que a outra pessoa moveu um olho e em conseqüência pode-se dizer: para esse lado vai o machete, e pode assim cortar as intenções desse próximo". Talvez essa prática tenha gerado sua destreza para disparar e tornado seu olhar mais penetrante, mais astuto.Tirofijo foi o apelido que ganhou muito cedo por sua boa pontaria. Quando adotou as idéias comunistas, tomou o nome de um sindicalista assassinado a golpes: Manuel Marulanda Vélez. Seu sonho -contou a seu biógrafo- era apagar esse fato; nunca o conseguiu. Quando alguém lhe fazia uma pergunta, ele olhava com seus olhos pequenos, enrugados, de águia. Observava, refletia e depois respondia. Muitas vezes devolvia a pergunta: "Por que está perguntando isso?"Os gestos e atitudes de Marulanda sempre refletiram sua origem camponesa: extremamente malicioso, tranqüilo, com seu espanhol salpicado de anacronismos. Não se alterava; foi um homem que manipulava outro conceito do tempo, outra linguagem. Sempre se levantou de madrugada, às 4h30, e se deitava às 8 da noite.Os que conheciam sua raiz camponesa sentiram como um discurso profundamente político o que escreveu para o ato de criação dos diálogos de paz, em 7 de janeiro de 1999. Ele nunca chegou. Deixou a cadeira vazia ao lado do presidente Andrés Pastrana, no ato que deu início aos diálogos de paz. Joaquín Gómez, um de seus homens mais próximos, foi o encarregado de lê-lo. Para os outros foi uma simples lista de reclamações pelas galinhas, vacas e os porcos que o Estado havia lhes arrebatado em Marquetalia e depois em Casa Verde -durante muitos anos a sede do secretariado das Farc-, bombardeada intempestivamente no governo de César Gaviria, no mesmo dia das eleições para a Assembléia Constituinte de 1991.No Caguán, durante os três anos que durou essa última tentativa de paz, Marulanda aparecia de surpresa no palco das discussões. Deixou-se ver à paisana: camisa xadrez, calça branca, botas pantaneiras, pistola no cinto. E permitiu que o fotografassem com seu pastor alemão; os cães e o tango foram suas paixões.Em sua vida privada foi muito reservado. Sabe-se pelo menos que teve vários filhos e duas mulheres; a última, mais de 40 anos mais jovem que ele. Uma carícia captada por uma câmera de televisão revelou que a jovem que sempre o acompanhava, que dirigia a moderna caminhonete na qual se deslocava pelo Caguán, era sua companheira: Sandra. Marulanda só comia o que ela lhe preparava. Como agricultor, como raposa velha, era extremamente desconfiado.Alberto Rojas Puyo, ex-senador e militante marxista por mais de 40 anos, narrou para "El País" a primeira impressão que teve ao conhecer Tirofijo há quase três décadas: "É um homem inteligente, um guerreiro impressionante, de grande modéstia em sua atitude pessoal, nunca fala de suas façanhas, extremamente cauteloso e reservado". E essa modesta foi um de seus traços marcantes; sempre foi esquivo com a imprensa, não gostava de aparecer. "Um homem mantém em reserva seus dotes e conhecimentos; não é para andar faroleando", confessou a Alape.Mas também o afastava da imprensa a desconfiança. Sempre a considerou uma potencial inimiga: "Tudo tergiversam, nunca dizem a verdade. Por exemplo, nos tratam como terroristas, então para que querem falar com terroristas? Nos tratam de seqüestradores, então para que querem falar com seqüestradores? Eles têm dívidas conosco".Alguns também reconhecem suas habilidades de negociador. Dizem que tinha uma grande capacidade para penetrar "nos adentros de seu interlocutor". Escutava e observava muito, refletia, tirava conclusões. Rojas Puyo o conheceu em meio aos diálogos de 1984, quando assinou, com o presidente Belisario Betancur o primeiro cessar-fogo bilateral; daí nasceu um partido político: a União Patriótica (UP). Foi a implementação da combinação de todas as formas de luta. Mais de 3 mil militantes da UP morreram assassinados em um capítulo obscuro da história recente da Colômbia. O fracasso daquela tentativa de paz marcou o fim da época romântica -se cabe o termo- dessa guerrilha. A partir de então o narcotráfico se transformou em fonte de financiamento. Nesses tempos os narcos começaram a montar seus laboratórios em áreas do Estado sem controle, as mesmas onde acampavam as Farc.Era um guerreiro, um estrategista. Devorava livros sobre tática militar. "Não há no país um leitor mais atento para a literatura do exército colombiano do que ele", disse no Caguán alguém que o conheceu de perto. Esteve até o final pendente das escolas de quadros guerrilheiros. Cuidava delas como a menina de seus olhos. Nunca permitiu que estivessem à frente dessa tarefa pessoas que não fossem de sua extrema confiança. Ditava cursos, tirava lições dos combates travados por seus homens. Defendeu sem ruborizar, como armas de guerra válidas, os bujões de gás cheios de metralha. Com eles as Farc destruíram povoados, assassinaram agricultores indefesos, gente comum.Para os seus é diferente. Foi a figura paterna que mantinha unida "a família das Farc"; viam seu chefe com veneração. Por isso a grande dúvida: terá seu sucessor, Alfonso Cano, tamanha capacidade de liderança? Marulanda se antecipou às perguntas que sua morte provoca: "Se eu vier a morrer, aqui -nas Farc- não há linhas duras nem brandas; se eu vier a morrer, aqui há mil que me substituem", disse no Caguán. Depois, como um desafio, como que se despedindo, soltou: "Para que fiquem sabendo..." Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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