quarta-feira, 4 de junho de 2008

Garcia Lorca em poemas


Tenho visitado algumas "praias" durante a vida. Elas são reafirmações profissionais, culturais, emocionais, afetivas, espirituais e intelectuais. A poesia é uma delas. Conheci os escritos do poeta Garcia Lorca ainda na puberbade. E me fiz apaixonado por este cantor da Granada espanhola assassinado brutalmente pelo facínora/fascista Francisco Franco. Descobri em Lorca a força da lírica através da oralidade que tentaram subtrair da poesia. Ao longo do apego pelas "praias" tenho bebido no cálice deste poeta universal que me tem feito acreditar nas emoções em forma de linguagem. Lorca vive.

Emerson Araújo

PAISAGEM COM DUAS TUMBAS E UM CÃO ASSÍRIO
Tradução de Antonio Miranda
Amigo,
levanta para que ouças latir
o cão assírio.
As três ninfas do câncer estiveram dançando, filho meu.
Trouxeram umas montanhas de lacre rubro
e uns lençóis duros onde estava o câncer dormido.
O cavalo tinha um olho no pescoço
E a lua estava no céu tão frio
que teve de desgarrar-se seu monte de Vênus
e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.

Amigo,
desperta, que os montes ainda não espiram
e as ervas de meu coração estão em outro lugar.
Não importa que estejas repleto de água do mar.
Eu amei muito tempo um menino
que tinha cem anos dentro de um punhal.

Desperta. Cala. Escuta. Incorpora-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua arroxeada de deixa
formigas de espanto e licor de lírios.
Já vem até a rocha. Não alongues tuas raízes!
Aproxima-te. Geme. Não soluces em sonhos, amigo.

Amigo!
Levanta para que ouças uivar
o cão assírio.


DE OUTRA MANEIRA
Tradução de Antonio Miranda

A fogueira expõe no campo da tarde
umas lanças de cervo enfurecido.
Todo o vale se estende. Por seus lombos,
caracoleia o vento suave.

O ar cristaliza sob a névoa.
- olho de gato triste e amarelo-.
Eu, em meus olhos, passo pelos ramos.
Os amos passeiam pelo rio.

Chegam minhas coisas essenciais.
São estribilhos de estribilhos.
Entre os juncos e a baixa tarde,
que estranho que me chame Federico!

ALMA AUSENTE
Tradução de Antonio Miranda

Não te conhece o touro nem a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino nem a tarde
porque já morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
Nem o raso negro onde te destroças.
Não te conhece a lembrança muda
Porque já morreste para sempre.

O outono virá com suas conchas,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém virá olhar teus olhos
porque já morreste para sempre.

Porque já morreste para sempre,
como todos os mortos da Terra,
como todos os mortos esquecidos
em um monte de cães apagados.

Ninguém te reconhece. Não. Mas eu te louvo.
Eu canto desde já teu perfil e tua graça.
A madurez insigne de teu conhecimento.
Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão pleno de ventura.
Eu canto sua elegância com palavras que gemem
e relembro uma brisa triste pelas oliveiras.

ROMANCE SONÂMBULO
Tradução de Salomão Sousa

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra na cintura,
ela sonha na varanda
verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Debaixo da lua cigana,
as coisas a estão olhando
e ela não pode olhá-las.

***

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
vêm com o peixe de sombra
que abre o caminho da alba.
A figueira arranha o vento
com a lixa de seus ramos
e o monte, gato matreiro,
eriça suas fibras acres.
Mas quem virá? e por onde?¼
Ela continua na varanda,
verde carne, cabelo verde,
sonhando no mar amargo.

***

Compadre, quero trocar
meu cavalo por sua casa,
meu arreio pelo espelho,
minha faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde os portos de Cabra.
Se eu pudesse, seu moço,
este trato se fechava.
Mas eu já não sou eu
nem já é minha a minha casa.
Compadre, quero morrer
decentemente em minha cama.
De arma branca, pode ser,
com os lençóis de holanda.
Não vês a ferida que tenho
do peito até a garganta?
Trezentas rosas morenas
leva teu peitilho branco.
Teu sangue respinga e cheira
ao redor de tua faixa.
Mas eu já não sou eu.
Nem já é minha a minha casa.
Deixai-me subir ao menos
até as altas varandas:
deixai-me subir!, deixai-me
até as verdes varandas!
Avarandados da lua
por onde estronda a água¼

***

Já sobem os dois compadres
até as altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremulavam nos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

***

Verde que de quero verde.
Vento verde. Verdes ramos.
Os dois compadres subiram.
O longo vento deixava
na boca um gosto raro
de fel, de menta e alfavaca.
Compadre! Onde está, dize-me?
Onde está tua menina amarga?
Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
de cara alegre, cabelo alegre,
nesta verde varanda!

***

Sobre a boca da cisterna
a cigana tremia.
Verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
O gelo da lua, em pedaços,
ampara-a sobre a água.
A noite se tornou íntima
como uma pequena praça.
Guardas-civis bêbados
na porta golpeavam.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.


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