Em nome do pai

Por Marília de Camargo Cesar, Valor Econômico

O escritor Philip Yancey falou sobre EUA e terrorismo ao jornal Valor Econômico

Os cristãos deveriam estar mais preocupados em voltar ao chamado original da igreja primitiva, de demonstrar amor ao próximo, do que em promover uma faxina moral na sociedade. Esse retorno aos princípios da mensagem do evangelho passa necessariamente por um distanciamento dos círculos do poder político, que costumam anular no cristão a sua capacidade de amar. Esta é a visão de um dos mais respeitados escritores evangélicos da atualidade, o jornalista e teólogo americano Philip Yancey, que já vendeu mais de 15 milhões de livros no mundo todo e é um best-seller inclusive no Brasil. Autor e títulos como "Decepcionado com Deus", "Maravilhosa Graça" e "Alma Sobrevivente", que tratam dos grandes conflitos da maioria dos fiéis na caminhada religiosa, Yancey é um crítico da postura triunfalista de algumas correntes evangélicas, embora seus livros sempre transmitam uma mensagem de esperança e alento.
O escritor esteve no Brasil a convite da Editora Mundo Cristão, que publica algumas de suas obras e está comemorando 40 anos. Antes de voltar à bucólica Evergreen, no Colorado, onde mora, falou ao Valor sobre os problemas causados ao cristianismo pela invasão americana do Iraque, a conversão de muçulmanos em Bagdá, sobre dízimo e a teologia da prosperidade.
Nos EUA, os evangélicos são criticados pelo apoio à política externa de Bush, em sua luta contra o terrorismo em nações islâmicas. No Brasil, eles formam uma grande bancada, que também apóia o presidente Lula; alguns estão envolvidos em acusações de corrupção, suborno e evasão fiscal. Neste mundo ferido pela corrupção e pela guerra, não seria uma boa hora para repensar a relação entre política e religião? A igreja não estaria melhor longe do poder?
Gostaria de dizer aos leitores brasileiros que nem todos os evangélicos apóiam o presidente Bush e suas políticas. Especialmente no que se refere à guerra no Iraque. Provavelmente é uma minoria, mas há muitos evangélicos que questionam seriamente o que ele fez. Quase todos os missionários com quem encontro se opõem à guerra no Iraque por todo o estrago que ela causa à reputação dos EUA entre as outras nações. Martinho Lutero dizia que, se ele tivesse um problema de saúde e precisasse de uma operação, preferiria ter um cirurgião turco a um açougueiro cristão. Nós precisamos eleger políticos não apenas porque são cristãos. Eles têm que ser bons políticos, ter boas políticas. Eu lembraria os evangélicos americanos que não somente porque George W. Bush é um cristão - e eu acredito que sua fé seja sincera - é razão suficiente para que marchemos e defendamos suas políticas. Precisamos julgar se ele toma boas decisões no campo político. Esta não é uma questão tão uniforme quanto a mídia retrata. Eu considero que amor e poder estão em lados opostos, é difícil atingir os dois. Cristãos são chamados primeiramente a expressar o amor de Deus pelo mundo. Assim que você se envolve com o poder fica muito difícil expressar amor.
Como conciliar convicções morais e amor aos que se opõem a elas?
Uma das questões em debate hoje nos EUA é a do aborto. Há muitos protestos de evangélicos e católicos em frente às clínicas contra o que eles chamam de "assassinos". Mas quando você começa a usar a técnica do poder, os protestos e piquetes, então para a mulher que chega ali confusa, que está grávida e não quer o bebê, é muito difícil sentir o amor de Deus naquela situação. Quando eu olho a vida de Jesus, ele realmente demonstrou amor por pessoas que haviam cometido erros graves. Mas ele não parecia muito preocupado com a política do dia. Muitos cristãos nos EUA pensam: nossa tarefa é fazer uma limpeza na sociedade, torná-la mais moral. Jesus não parecia de forma alguma estar preocupado em fazer uma limpeza moral no Império Romano. Sua ênfase estava em construir o Reino de Deus, o qual pode crescer em qualquer lugar. De fato, recentemente, o país onde a igreja mais cresce é a China, um lugar onde os cristãos não têm qualquer acesso ao poder.Na verdade, se souberem que você é cristão na China você não poderá fazer parte do governo. E o Reino de Deus está crescendo mais ali do que em qualquer outro lugar do mundo. Eu tento sempre lembrar em meus grupos de estudo que nós somos chamados a amar. Jesus disse que todos os mandamentos foram resumidos em dois: amar a Deus a ao próximo como a si mesmo. Ele não disse nada sobre faxina social. Precisamos lembrar que estamos aqui para amar e, em especial, os negligenciados pela sociedade, os pobres, os fracos, os doentes. Quando olho para a história da Igreja, sempre que ela se aproximou do poder, como durante a Inquisição, ou com os puritanos na América, ou Oliver Cromwell, na Inglaterra, ela nunca soube muito bem como lidar com isso. Na verdade, não olhamos para essas épocas como eras douradas, mas como um constrangimento.
Que impacto teve a guerra do Iraque para a igreja americana. Ela amadureceu?
O diálogo com fiéis outras religiões ficou mais difícil? Toda grande denominação que conheço que publicou um manifesto sobre a guerra foi para condená-la. Os batistas, os metodistas, os presbiterianos. Quando as igrejas se reuniram para suas convenções anuais, o consenso era de que esta não foi uma guerra justificável. Os indivíduos que freqüentam essas igrejas manifestaram opiniões divergentes, muitos deles apoiando o presidente Bush. Acho que há uma diferença entre os membros e a liderança da igreja. Mas claro que o diálogo ficou diferente. No mundo islâmico, a visão é de que houve uma renovação do movimento das cruzadas, de 500 anos atrás. Se você está nos EUA, você percebe que aquela não é uma nação cristã, é, sim, uma nação com muitos cristãos. Mas se você está, por exemplo, na Turquia, você verá os EUA como uma nação cristã. Portanto, qualquer coisa que o país fizer, você logo irá pensar: é isso o que os cristãos estão fazendo. Claro, para os missionários cristãos que estão tentando evangelizar nos países islâmicos isso torna as coisas bem mais complicadas. Eu ouvi um comentário de um muçulmano que me pareceu verdadeiro; ele me disse: quando leio o Novo Testamento, não encontro nenhuma dica ali de como a religião cristã possa funcionar como uma religião das maiorias. É sempre retratada como uma religião para as minorias, um pequeno grupo de pessoas agitando o Império Romano. Mas quando leio o Alcorão, não encontro sinais de como o islã possa operar como uma religião de minorias, porque no islã, religião e Estado são sempre a mesma coisa. Sempre que o islã assume o controle de um país ele reescreve as leis para serem as leis da religião. A igreja é o Estado. No Irã, hoje, os líderes políticos máximos são os aiatolás. Mas no cristianismo, governo e igreja devem ser diferentes. É uma distinção importante a qual os cristãos ainda estão digerindo.
Como resultado da guerra, vemos surgirem igrejas evangélicas em Bagdá. A conversão de muçulmanos ao cristianismo ajuda ou complica as relações dos EUA com o Oriente Médio?
Acho que complica. Que eu saiba, o país no Oriente Médio em que a igreja mais cresce na verdade é o Irã, e ali a igreja tem sido muito perseguida. Houve muitas notícias de assassinatos de pastores pentecostais, atropelados. Nos últimos anos contam-se cerca de 50 mil convertidos. As pessoas estão desiludidas com o governo e impressionadas pelo amor que os cristãos têm demonstrado por elas. Por outro lado, se a impressão for de que a igreja faz parte do militarismo americano e parte da ocupação americana no Iraque, isso não faz os muçulmanos quererem considerar o cristianismo como uma alternativa. Eles irão pensar: "Ah, então é por isso que eles estão vindo aqui, para nos forçar a nos converter, como os cruzados". Acho que isso só complica as coisas.
A guerra contra o terror não deve então ser necessariamente uma guerra contra o islã.
Temos muito o que aprender com a forma como o Reino Unido lidou com isso. Eles não falam tanto numa guerra contra o terror. Quisera nós nunca tivéssemos usado a palavra guerra. Para mim nós tivemos indivíduos que cometeram um ato criminoso e tínhamos que ter procurado essas pessoas e feito justiça com elas. Dado uma resposta policial.
O IRA anunciou que iria depor armas e passar a buscar a independência da Irlanda do Norte de forma pacífica. Isso significa que a guerra entre protestantes e católicos tornou-se muito pequena agora que o terror está mundialmente disseminado? Perdeu o sentido?
Estive na Irlanda várias vezes nos últimos anos. Hoje, os católicos na Irlanda do Norte são quase 45% da população, porque tendem a ter famílias maiores. Os católicos costumavam ser a minoria perseguida e agora são metade da população. Acho que o que aconteceu foi que o IRA perdeu contato com o povo da Irlanda do Norte. As causas pelas quais lutavam 50 anos atrás - eqüidade entre protestantes e católicos, pelos direitos econômicos - essas questões não são mais tão importantes pois a economia mudou. A tática que usavam também hoje é condenada por todos os países. O IRA não apenas perdeu as causas mas perdeu o apoio dos países. Ninguém mais quer estar associado a terroristas. 20 anos atrás os católicos americanos ajudavam a fornecer armas para o IRA, mas ninguém mais faria isso hoje.
No Brasil, parte do crescimento evangélico está associado à chamada Igreja Universal do Reino de Deus, que afirma ter 6 milhões de membros. Um de seus líderes foi preso há algumas semanas com sete malas cheias de dinheiro, R$ 10 milhões no total, e está sendo investigado por corrupção, evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Nada foi provado, mas o episódio afeta a imagem da igreja em geral e dos cristãos sinceros. Qual deveria ser a reação da igreja a fatos como esse? Vinte anos atrás nos EUA prosperavam os chamados televangelistas, como Jim Baker. Como repórter, escrevi matérias críticas sobre ele. Minha opinião é que os próprios evangélicos deveriam estar se policiando. Temos que dar aos nossos irmãos o benefício da dúvida, mas Jesus disse que deveríamos confrontá-los em amor. Precisa haver o confronto. Nos EUA, a forma crítica como a igreja reagiu a esses escândalos ajudou a não machucar tanto a igreja. Jim Baker foi preso, passou tempo na prisão e depois acabou saindo e escreveu um livro chamado "Eu Estava Errado". No Brasil cresce também a chamada teologia da prosperidade, com igrejas propagando bênçãos divinas para os fiéis ao dízimo.
O evangelho precisa dessa abordagem materialista para atrair uma sociedade materialista?
Eu me oponho fortemente à teologia da prosperidade. Eu não acho que seja bíblica. Se você for à igreja atrás da promessa de uma vida sem problemas, vai ficar decepcionado. Se espera que Deus o proteja de problemas como esterilidade ou de ter filhos com doenças como a síndrome de Down, vai ficar desapontado.Nas bem-aventuranças, por exemplo, você lê: "bem-aventurados os pobres; bem-aventurados os perseguidos; bem-aventurados os que sofrem". Na teologia da prosperidade, muda para bem-aventurados os ricos, os saudáveis, os alegres. É o oposto do que Jesus pregava. O próprio Jesus não foi próspero, materialmente, ele afirmou: "Não tenho nem onde deitar a cabeça". Ele morreu pobre.
Esta entrevista foi reproduzida com a devida autorização do jornal Valor Econômico.

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