A poesia do eu-lírico feminino ou Hortência Mendes em exercício poético


Não há dúvidas de que a poética feminina traduz, na sua integralidade, o eu-lírico da mulher. Há nele a suavidade latejante do querer, a delicadeza imagética do olhar e a sensibilidade que florece a cada verso posto numa musicalidade harmônica sem as amarras das rimas tradicionais do passado. Aqui, a opinião é minha, está uma pequena amostra de uma mulher-poeta que reflete o eu-lírico feminino em versos suaves captados de situações observadas, vividas num exercício poético de intervenções simples que somente a sensibilidade feminina consegue se apossar diante de um mundo que se diz apoético. Nestes exercícios poéticos de Hortência Mendes, naquilo que ela mesma chama de "Poesia dia a dia", decodificamos o melhor da poesia de uma mulher que é ser-agente em todas suas problemáticas vividas/sentidas. É minha sugestão de poesia agora.

Emerson Araújo

Paradoxo

Queria que ficasse assim,
Bem presente pra sempre
Poder sentir tua carne
E te amar.
Tenho medo de que venhas
Embora queira beijá-lo
Sempre
Quero não mais te ver
Nunca mais me deixar beijar
Mas à vontade de estar unida a ti
É tanta e forte
Que grita
Quero pegar tua mão
Quero te ver longe
Desejo beijar-te os olhos
Não quero te ter por perto
A tua vida não é a minha
A minha existência é a tua vida.

Um dia

Não está longe
Lembro ainda
Claro como o dia
Os detalhes
Os sussurros
As mãos, os olhos, as unhas.
Cabelos e lábios
Corpos e pensamentos
As idéias
Os sonhos,
As confissões
Perdões
Um dia o Amor.

Isso

Teus olhos
Meus sorrisos
Tuas lágrimas
Tuas mãos
Delineando-me
Teu andar me chamando
Teu carinho me querendo
Tua boca
Teus pés
Teu nariz
Tua beleza inteira
Me envolvendo
Teu cheiro me entorpecendo
Teu corpo me queimando
Tua vontade
Tua liberdade
Tua mente
Me cativando
Tu me fazendo ser
Em contemplação.

Desinteresse

Não tem valor
Nem importância
As cores, as flores.
Sem você...
Não tem brilho
Nem calor
A lua, o sol
O mundo sem você
Não tem vida
Nem abrigo
Meus olhos meu coração
Sem você
Sem você tudo é nada
Só a sua lembrança
Ainda vale
Passar a madrugada
E pela manhã acordar.

Rua sem Ruas

No teu coração
Não se entra
Não se sai
Não se fica
Nem se vai
No teu coração
Ninguém chora
Implora
Nem separa
Nunca pára
No teu coração
Não há lugar
Está vazio
Não é quente
Nem frio
No teu coração
Não sei se entrei
Se fiquei
Se dormi ou acordei
Não sei se permanecerei.




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