a classe operária vai ao paraíso ou anotações da esquerda sempre

VIOLÊNCIA DE GÊNERO Hortência Mendes – Assessora Regional da Cáritas



O processo de inserção social de mulheres e homens é todo envolto em desigualdades e preconceitos, onde as relações de gênero são desconsideradas perpetuando a cultura do patriarcado e desigualdade de direitos. O lugar social onde o homem permanece é o de chefe, de provedor, de pai, de dominador já o da mulher é de submissa, dominada, subalterna e mãe, este paradigma tem historicamente promovido desigualdades extremas e assim fomentado também a violência.

Quando o homem se percebe detentor do poder e dos privilégios emocionalmente ele traz pra si o direito sobre as vidas das pessoas que segundo sua socialização e cultura patriarcal estão sob esse poder, são sua mulher, suas filhas e filhos, sua mãe e demais mulheres, tanto dentro da família como no espaço do trabalho e na sociedade como um todo essa relação se dá como uma cadeia, pois vivemos em uma sociedade genuinamente Patriarcal, Machista e Burguesa organizada para os homens e suas esposas, filhas e mães e não para mulheres e homens.

Toda a sociedade é organizada de forma que o gênero masculino se sobressaia ao gênero feminino, tornando o feminino muitas vezes invisível e susceptível a violência.
Como não podia deixar ser esse processo violento se traduz na vida das pessoas, deixa de ser somente citado na literatura, nos discursos e invade a vida principalmente das mulheres o seu cotidiano, violência essa que vai desde o “tapinha”, puxão de cabelos chegado muitas vezes ao assassinato.

A violência de gênero ocorre diariamente de forma sutil nas entrelinhas dos sentimentos, das músicas, das ciências, no ambientes escolar, do trabalho e familiar, na igreja e em tudo mais que nos acerca socialmente. As mulheres sempre percebem salários menores que os dos homens mesmo desenvolvendo igual atividade, isso é violência. As mulheres são obrigadas a exercerem duas jornadas de trabalho quando estão inseridas no mercado, isso é violência. As mulheres são obrigadas a manter relações sexuais com seus maridos mesmo sem querer, isso é violência. Muitas mulheres são impedidas de manterem qualquer tipo de amizade com homens que não sejam das relações de seu marido, isso é violência. É violência de gênero.

Dados dessa realidade nos fazem entender melhor esses meandros da violência de gênero e nos leva a perceber a necessidade urgente de mudar essa situação.
Ao olharmos a incidência da violência doméstica, entendemos então que há uma enorme falta de respeito ao gênero feminino em nosso país:
Ø Segundo dados da OMS – Organização Mundial de Saúde, de 10% a 34% das mulheres no mundo já foram agredidas por seus parceiros;
Ø Em S. Paulo 10% de mulheres afirmam já terem sido abusadas sexualmente por seus companheiros;
Ø Em Pernambuco as vítimas da violência doméstica chegam a 14%.

Dados da Pesquisa “A Mulher brasileira nos espaços públicos e provados” (Fundação Perseu Abramo) onde foram entrevistadas 2.502 mulheres em todos os estados brasileiros revela -se um dado alarmante 6,8 milhões de mulheres já foram espancadas ao menos uma vez na vida.

Essa evidente violência tem deixado a mulher em uma situação de exclusão e marginalização social, pois a mesma reforça um sentimento de insatisfação, indiguinação, medo, reclusão, impotência e debilidade, levando-as ao silêncio e o agressor se sentindo com mais poder para continuar violentando.





Bento XVI, pedofilia e o sacerdócio


Jung Mo Sung *

O papa Bento XVI, na sua recente visita aos Estados Unidos, reconheceu que a Igreja Católica não agiu corretamente ao tratar dos casos de pedofilia envolvendo o clero. Junto com esse reconhecimento, ele assumiu o compromisso de lutar para que esses casos não ocorram novamente.
Quando enfrentamos problemas tão graves como esse, existem três possibilidades de abordagem. A primeira é considerar o erro como proveniente basicamente do modo como os agentes responsáveis atuaram dentro das estruturas e regras existentes. A segunda é assumir que a causa principal provém das estruturas e regras. A terceira é diagnosticar o problema como sendo causado por uma mistura de erros de procedimento dos agentes e dos problemas estruturais. Parece que o papa está assumindo a primeira hipótese: a causa fundamental foram os erros de procedimentos dos responsáveis e não haveria nada de substancial na estrutura e das regras fundamentais da vida do clero (por ex., a obrigatoriedade do celibato e a exclusão das mulheres) que precisa ser revisto. No fundo ele parece partir do princípio de que a estrutura da Igreja Católica é inquestionável.
Sendo assim, dois momentos se destacam nessa luta para que esses escândalos não se repitam: (a) momento da seleção dos candidatos ao sacerdócio e (b) quando os bispos e a comunidade tomam conhecimento de casos de padres pedófilos. É possível e necessário que o processo de seleção dos candidatos ao sacerdócio seja mais rigoroso; mas é impossível evitar que alguém com tendência a pedofilia ou a outros problemas de ordem afetivo-sexual chegue à ordenação. Afinal, eles não se declaram como tais e nem todas as pessoas responsáveis pela seleção conseguem "detectar" essas tendências. Isso sem contar a pressão que os bispos sentem pela falta de clero para atender a necessidades de paróquias sem padres residentes.
Assim sendo, sempre haverá casos de pedofilia ou de outros escândalos sexuais com clero, como também em outros grupos sociais ou agremiações profissionais ou religiosas. Então vem o segundo momento: a ação dos bispos ou superiores responsáveis diante desses casos. E infelizmente a história nos condena! Os bispos dos Estados Unidos e também de outros países em que esses escândalos se tornaram públicos têm mostrado um comportamento padrão: transferir o padre para um outro lugar, ao invés de encaminhar para um tratamento ou suspender do exercício sacerdotal.
Essa postura de "negação" da gravidade do problema não pode ser visto como uma simples falha pessoal de um determinado bispo, que poderia ser corrigida com um "puxão de orelha" por parte do papa. Na medida em que esse comportamento tem sido padrão em quase todos os lugares, podemos pensar que ele é uma resposta "sistêmica" da cultura que domina no interior da Igreja Católica.
A pergunta óbvia que surge é: por que os bispos preferiram esconder ou negar o problema até que atingiu uma proporção tão grande e que custou às dioceses norte-americanas mais de dois bilhões de dólares em indenizações às vítimas? Para tentar responder a essa questão, façamos um caminho inverso. O que aconteceria se os bispos assumissem que há ou havia pedófilos entre o seu clero?
De acordo com a teologia da Igreja Católica, Deus escolhe e separa do "mundo" algumas pessoas para serem "sacerdotes", pessoas sagradas que terão o "privilégio" de ter acesso às coisas e ritos sagrados do altar. Um dos sinais exteriores dessa vocação, que marcaria e mostraria a diferença/separação em relação às pessoas comuns, seria a vocação a uma vida celibatária. Aqui o sagrado aparece intimamente ligado a um determinado modo de viver a sexualidade. Essa é, provavelmente, a razão pela qual os padres continuam sendo vistos como separados, estando acima do "povo de Deus".
A vocação sacerdotal, que sempre é subjetiva, recebe o reconhecimento objetivo e oficial pela ordenação. A Igreja assume o papel de confirmar a vocação sagrada que vem de Deus. Nesse processo, o bispo representa Deus. Mas, se esse mesmo bispo assume publicamente que um ou mais dos seus sacerdotes têm problemas graves no campo afetivo-sexual, toda essa visão do sacerdócio entra em crise. E junto com ela uma determinada visão da Igreja.
O que houve de comum a todos os bispos que preferiram esconder ou negar o problema da pedofilia ou de outros abusos sexuais cometidos pelos padres é, provavelmente, o desejo de preservar uma teologia que defende a vocação como separação do "mundo", o ministério de presbíteros como a missão dos sacerdotes de, fundamentalmente, renovar os ritos sagrados (especialmente a missa, entendida como renovação do sacrifício de Jesus na cruz) e, principalmente, manter a imagem da Igreja como instituição sagrada.
Se as minhas reflexões têm alguma razão, esses escândalos não são problemas restritos aos distúrbios sexuais de alguns padres, mas requer toda uma discussão da teologia da vocação e ministério presbiteral, das disciplinas que regem a ordenação (como a exclusividade dos homens, o celibato obrigatório, etc.) e a retomada de uma eclesiologia do Povo de Deus.
Mesmo que essas minhas reflexões estejam equivocadas, não se pode negar que o modo como as pessoas responsáveis lidaram (ainda lidam?) com casos de padres pedófilos e/ou que cometem outros abusos sexuais forma um padrão. E isso mostra que, além dos erros na condução dos problemas, há problemas no âmbito estrutural que precisam ser discutidos e enfrentados. Só assim, o compromisso do papa Bento XVI se tornará eficaz.
* Professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor, dentre outros, de "Competência e sensibilidade solidária: Educar para a esperança" (com Hugo Assmann)


A vitória de Lugo e seus reflexos no Brasil


Altamiro Borges *


Num clima de euforia, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas centrais de Assunção na noite deste domingo (20) para comemorar o anúncio oficial, divulgado pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE), da vitória do ex-bispo católico Fernando Lugo no pleito presidencial do Paraguai. A festa popular, carregada de esperança, marca uma virada histórica neste sofrido país, encerrando seis décadas de domínio do direitista Partido Colorado, e confirma a inédita guinada à esquerda do tabuleiro político na América Latina - tão temida pelo imperialismo estadunidense e pelas forças oligárquicas da região e incompreendida por alguns setores esquerdistas sectários.
Segundo várias agências de notícias, a multidão em êxtase ocupou a frente do comitê da Aliança Patriótica para a Mudança quando a apuração apontou a ampliação da vantagem de Lugo sobre a colorada Blanca Ovelar. Ninguém parecia acreditar no resultado, já que pairavam dúvidas sobre o risco de fraudes eleitorais. Cauteloso, o novo presidente anunciou: "Quando a Justiça ratificar o resultado, estaremos abertos para construir a integração real do continente". O dia do candidato foi emblemático do seu perfil progressista, de adepto da Teologia da Libertação. Ele foi votar, às 7h12, de braços dados com a argentina Hebe de Bonafini, legendária líder das Mães da Praça de Maio. Depois, ao lado do amigo brasileiro Frei Betto, Lugo rezou na paróquia São João Batista.
Intrigas da mídia venal
A vitória do "bispo dos pobres", como ele é chamado por seu trabalho junto aos sem-terra de San Pedro, uma das regiões mais miseráveis do país, enche de esperanças o povo paraguaio, reforça o processo de integração progressista do continente e desperta preocupação no Brasil. Envenenado pela mídia hegemônica, há quem tema a eclosão de conflitos com a nação vizinha em função da energia hidrelétrica de Itaipu e da presença de milhares de fazendeiros brasileiros na agricultura paraguaia. De fato, estes temas foram centrais na campanha eleitoral, com todos os candidatos - e não apenas Lugo - defendendo mudanças, principalmente nas cláusulas do Tratado de Itaipu.
Mas o que realmente pode mudar nas relações entre Brasil e Paraguai? Quais serão os reflexos da histórica vitória de Fernando Lugo? Para entender melhor o que está em jogo, sem se contaminar com as intrigas da mídia venal, torna-se indispensável a leitura do livro recém-lançado "O direito do Paraguai à soberania", organizado por Gustavo Codas (Editora Expressão Popular). Ele reúne três artigos que ajudam a explicar o surpreendente apoio ao teólogo da libertação, as propostas da sua organização eleitoral, batizada em guarani de Tekojoja (que significa "viver entre iguais") e as reais polêmicas em torno do inflamável Tratado de Itaipu - o foco principal da obra.
Dívidas do capitalismo brasileiro
Já na abertura, o paraguaio Gustavo Codas, que se exilou no Brasil durante a ditadura de Alfredo Strossner e milita na CUT, explícita que a vitória de Lugo deve, de fato, afetar a agenda externa brasileira. "O país sofre uma pesada herança da qual o Brasil é, em grande parte, responsável. O Paraguai foi castigado, primeiro, pelas conseqüências duradouras da guerra de extermínio que Brasil, Argentina e Uruguai lhe fizeram nos anos de 1864-1870, e, na segunda metade do século 20, pelo fortalecimento de um modelo capitalista mafioso vinculado à burguesia brasileira em todo tipo de negócios ilícitos - narcotráfico, lavagem de dinheiro, contrabando, etc.".
Para ele, três temas deverão pautar uma nova relação, mais justa e soberana, entre os dois países. "Primeiro, a renegociação do Tratado de Itaipu. Segundo, os resultados da invasão de boa parte do território oriental paraguaio por latifundiários brasileiros produtores de soja (iniciado nos anos 70). Terceiro, a integração ao Mercosul com uma verdadeira compensação das assimetrias deste pequeno e pobre país em relação aos dois maiores sócios deste projeto - Brasil e Argentina". O livro, como explica Codas, tem como objetivo reforçar na esquerda brasileira "o compromisso com um internacionalismo que, para além dos discursos de solidariedade, deve ser transformar em passos concretos reparando as dívidas deixadas pelo capitalismo brasileiro no Paraguai".
O programa do Movimento Tekojoja
Neste rumo, os três textos dão importante contribuição ao debate. O primeiro, de Richard Gott, membro honorário do Instituto de Estudo das Américas da Universidade de Londres, apresenta detalhada biografia do "bispo vermelho do Paraguai". O segundo traz o resumo do programa do Movimento Popular Tekojoja, que está centrado na luta pela "revolução agrária", na estratégica "soberania energética", na "planificação pró-ativa do desenvolvimento nacional", no "trabalho produtivo e digno para todos", na "universalização da seguridade social", na "integração regional solidária", entre outros itens. É um programa reformista, desenvolvimentista, mas que se inspira nos "princípios libertários que alentaram a luta patriótica do nosso povo e nos ideais socialistas".
O texto mais longo, instigante e de interesse imediato para os brasileiros é do engenheiro Ricardo Canese, um dos principais assessores do novo presidente. Ele trata da "recuperação da soberania hidrelétrica do Paraguai". Com inúmeros dados técnicos, o autor argumenta que a capacidade de produção de energia do seu país é o único fator que pode destravar o desenvolvimento e garantir maior justiça social. Para ele, a vitória de Lugo reascenderá este debate estratégico, abandonado pela oligarquia paraguaia que "trocou de forma perversa a soberania hidrelétrica por concessões e apoios políticos fornecidos pelas elites dominantes dos nossos vizinhos mais poderosos", a exemplo do que ocorreu com o canal da Panamá e com as reservas de gás e petróleo da Bolívia.
Os tratados de Itaipu e Yacyretá
Apesar de posições estranhas, como a que renega as experiências socialistas, a que reforça a tese do subimperialismo - "sofremos mais a conseqüência de depender das submetrópoles (Brasília e Buenos Aires) que do próprio império" - e a que afirma que não há alternativas ao capitalismo, Canese apresenta dados sólidos sobre o "roubo" da energia hidrelétrica do Paraguai. Revela que os preços fixados pelo Tratado de Itaipu estão bem abaixo do mercado, que os juros da obra são escorchantes e eternizam a dívida externa e que as regras de comercialização são draconianas. O Paraguai consome apenas 12% da energia gerada em Itaipu, mas é obrigado a vender o restante para o Brasil. Acordo similar foi feito com a Argentina na exploração da energia de Yacyretá,
Canese estima que o país perca US$ 3,645 bilhões ao ano em decorrência destes tratados lesivos. Para ele, a renegociação dos acordos com o Brasil e a Argentina é o único caminho para a nação poder alavancar o desenvolvimento e investir em programas sociais que superem a brutal miséria do país. "O Paraguai é um país hidrelétrico. É o único país da região com genuínos excedentes... Com um PIB da ordem de US$ 7,5 bilhões, possui uma riqueza hidrelétrica que vale 50% do seu PIB. Consequentemente, não há nada mais importante do que recuperar a soberania sobre essa valiosa riqueza natural". As propostas que formula, que serviram de base ao programa de Lugo, não pregam o rompimento dos acordos - como insinua a mídia. Mas procuram garantir preços justos, redução dos juros e novas regras. Defendem nada mais do que a soberania do Paraguai.
[Autor livro recém-lançado "Sindicalismo, resistência e alternativas" (Editora Anita Garibaldi)].





SOBERANIA POPULAR E DEMOCRACIA

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Desde 1995, quando de seu surgimento, o direito de soberania tem sido a coluna vertebral dos debates e das manifestações do Grito dos Excluídos. A data de 7 de setembro tem sido emblemática como referência dessas mobilizações sincronizadas. Trata-se, por um lado, de questionar uma independência meramente jurídico-formal e, por outro, avançar cada vez mais na conquista de um país livre e soberano, não apenas do ponto de vista político, mas em termos econômicos e sócio-culturais.
De forma direta ou indireta, o mesmo tema tem estado na pauta das iniciativas populares ligadas aos movimentos sociais, entidades, pastorais e outras organizações. Basta uma olhada rápida às numerosas páginas de reflexão produzidas pelas Semanas Sociais Brasileiras, pelo Grito Continental dos Excluídos, pela Campanha Jubileu Sul, pelo Simpósio e Tribunal da Dívida Externa, pelos Plebiscitos da Dívida e da Alca, pela Assembléia Popular, pela Consulta Popular, pela Marcha das Mulheres, entre outras – para se dar conta disso.

1. Um olhar à história
Soberania supõe liberdade e esta é o alicerce da democracia. As raízes da noção de liberdade remontam aos filósofos gregos, quatro séculos antes de nossa era. No pensamento filosófico grego, liberdade e democracia eram irmãs gêmeas. Na prática, entretanto, as coisas corriam de forma distinta, já que os escravos e as mulheres, uns por não serem livres e outras por serem dependentes, não eram considerados cidadãos. Na tradição de Sócrates, Platão e Aristóteles, “a forma mais perfeita de sociedade é a polis”, de onde deriva a palavra política. Esta, em termos gerais, designa a maneira mais correta de organizar a sociedade, em vista do bem comum. Entretanto, as decisões sobre o governo da polis, nas antigas cidades-estado da Grécia, estavam limitadas aos cidadãos livres e, entre estes, predominantemente aos sábios e filósofos. Mais do que democracia, estamos diante de uma forma aristocrática de pensar o governo.
Se, a partir dos gregos e romanos, avançamos em direção ao mundo medieval e moderno, a tradição democrática irá tropeçar com o Império Romano, com a monarquia absoluta, com a tirania e com os regimes imperialistas. A Independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789), trazem à tona os ideais de “igualdade, fraternidade e liberdade” e os princípios federalistas. Depois, com o advento da Revolução Industrial, do trabalho assalariado e do crescimento da produção e da produtividade a níveis nunca imaginados, do ponto de vista político cresce igualmente a consciência da cidadania e da participação popular. Será esse o terreno fértil onde as idéias socialistas vão mergulhar suas raízes e produzir esperanças novas. [1]
Socialismo e liberalismo passam então a travar uma batalha que irá deixar marcas em cada palmo do terreno, em cada dia da história recente, ao mesmo tempo em que atravessará os séculos. Liberdade total de comércio ou economia centralizada? Enquanto, de um lado, a liberdade de comércio coloca lado a lado forças desiguais e com isso favorece os mais fortes em detrimento dos mais frágeis, de outro, as experiências do socialismo real entram em colapso no final da década de 1980. O espírito do laissez faire, que vinha ganhando terreno desde a crise dos anos 70 com a nova onda do neoliberalismo, passa a reinar absoluto no contexto da economia globalizada.
No caso da trajetória brasileira, ainda que rapidamente, vale a pena passar os olhos pelos clássicos da economia política. Comecemos com Celso Furtado, Octávio Ianni e Caio Prado Junior, entre outros. Logo nos damos conta que a economia do país assenta-se sobre um tripé: latifúndio, trabalho escravo e monocultura de exportação. Este tripé não é apenas uma chave de leitura histórica, é também uma realidade presente nos dias de hoje. Bastaria lembrar, por exemplo, o “latifúndio” da terra e das comunicações; o “trabalho escravo” presente nos dias atuais, acompanhado do trabalho precário, degradante e infantil; e a “monocultura” do agronegócio com vistas à exportação.
Raymundo Faoro, por sua vez, cunhou o conceito de “patrimonialismo” para descrever uma prática muito comum herdada da Península Ibérica e levada ao extremo pela tradição política brasileira. Trata-se da apropriação privada da rex publica. Através dessa prática, difundida por toda a história e por todo o território nacional, os donos do poder passam a gerir os interesses da nação como se fossem negócios de família. Uma vez mais, não se trata de algo passado, mas de um vício muito atual, por exemplo, nas práticas de coronelismo, de clientelismo, bem como nos chamados currais eleitorais.
Por fim, Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda chamam a atenção para o abismo entre os moradores da Casa Grande e os moradores da Senzala. Uns podem estudar em Coimbra ou Lisboa, passar férias em Paris ou Miami; para os outros, resta o trabalho no eito, no engenho e na mina. Enquanto para os primeiros usa-se a política de privilégios, para os últimos vale a política dos favores. Estes, porém, dependem do humor do coronel ou do doutor que estiver de plantão. Os favores podem ser inesperadamente substituídos pelo chicote, pela polícia ou pelo exército. A história brasileira é pródiga a esse respeito: sempre e quando os moradores da senzala se organizam para converter os favores em direitos, a repressão adquire formas de extrema violência. Veja-se, como exemplos, a experiência do Quilombo dos Palmares, de Canudos, de Cabanas, além de outros movimentos camponeses e urbanos, até os dias atuais.
Se, como vimos, soberania supõe liberdade e esta constitui o alicerce da democracia, resta ainda muito caminho a percorrer, tanto em nível global quanto em termos nacionais. Temos de concordar que são tímidos e incertos os avanços até o momento.

2. Um olhar ao presente
Soberania supõe participação popular, também esta alicerce da democracia. Podemos partir de um artigo de José Luís Fiori, publicado na Folha de São Paulo há alguns anos.[2] Segundo ele, no cenário mais recente da política brasileira podemos identificar três projetos de nação: projeto nacional conservador, projeto liberal e projeto nacional popular. O primeiro, nacional conservador, está ligado ao Estado Novo dos anos 30 e à figura de Getúlio Vargas. O objetivo é modernizar o país, dotar a economia de um grande parque industrial, instituir a política de substituição de importações – mas tudo isso sem mexer na estrutura econômica e política, isto é, deixando intacta a desigualdade crônica que acompanha a história desde a colônia e o império. Talvez Juscelino Kubitschek seja também um dos expoentes desse projeto.
O segundo projeto, liberal, vincula-se diretamente ao golpe de Estado de 64 e à política dos militares. Trata-se de atrelar o país ao dinamismo da economia mundial, na condição de nação periférica, fornecedora de matérias-primas e de mão-de-obra barata. A dívida externa funcionará como um dos mecanismos de expropriação e de transferência de renda. Pela intermediação do governo de plantão, as riquezas recolhidas através do trabalho e do imposto passam do bolso dos trabalhadores e contribuintes para as contas bancárias dos grandes especuladores, nacionais ou internacionais.
Por fim, o projeto nacional popular. Como o nome indica, ele mergulha suas raízes históricas na resistência negra, indígena e popular. Mas ganha uma certa consistência política no decorrer dos anos 50 e 60, com as lutas camponesas, a reflexão universitária e algumas lideranças nacionais. Paulo Freire será um de seus inegáveis porta-vozes. Com o golpe de 64, podemos afirmar que esse projeto sofre um aborto ou entra num período sombrio. Retorna no decorrer da década de 70, com as lutas sindicais, os movimentos estudantis, a prática das comunidades eclesiais de base, os movimentos populares na cidade e no campo e um punhado de intelectuais voltados para as causas populares. Nos anos 80 e 90 irá ganhar grande visibilidade política, passando a concorrer às eleições em todos os níveis e chegando ao Planalto em 2002, na pessoa do presidente Lula. Sua eleição, longe de ser um improviso, representa a convergência de muitas iniciativas populares e de inúmeras forças sociais agrupadas em torno de um projeto. Projeto, neste caso, não em termos de programas e metas concretas, e sim em termos de expectativas de mudança.
Neste processo histórico, a luta pela soberania criou uma rede capilar bastante considerável de movimentos, entidades, associações, campanhas e outras iniciativas, as quais vão abrindo espaço para a participação popular. Difunde-se amplamente o exercício do debate, do diálogo e da cidadania. Fortalecem-se as experiências democráticas por todo território nacional. Tudo isso dinamiza a política partidária, reforça o Partido dos Trabalhadores, mas este, uma vez eleito, encontra enormes dificuldades de levar adiante o projeto popular e responder às expectativas. Tende mais, muito mais, a uma aliança pela governabilidade que pouco ou nada tem a ver com suas raízes sociais.
Se soberania supõe participação popular e esta é também alicerce da democracia, o que está ocorrendo na política atual? Tem ela o respaldo da população ou segue um caminho de auto-regulação? O sistema democrático vigente em nossos países, formal e de fachada, não se tornou de fato um suporte jurídico institucional da economia de mercado globalizada e do sistema neoliberal? É possível ultrapassar os limites estreitos de uma democracia apenas representativa? O que fazer com esses entraves históricos e estruturais que hoje bloqueiam qualquer tipo de mudança?

3. Um olhar ao futuro
Soberania supõe conhecimento e este robustece a democracia. Hoje em dia, no contexto da informatização e da robotização crescentes, o maior dos latifúndios talvez seja o do conhecimento. É ele que permite um domínio mais eficaz sobre o conjunto da população. O caso das patentes sobre a produção agrícola e sobre a biodiversidade amazônica ilustra bem isso. Não é à toa que o conhecimento sobre a seqüência genética constitui um dos direitos de propriedade mais cobiçados. Representa poder, domínio e, não raro, monopólio sobre setores inteiros da produção mundial. Fatores como este colocam novos desafios ao tema da soberania e da democracia. Em termos prospectivos, podemos refletir sobre quatro de entre os maiores desafios, levando em conta que a democracia real requer o conhecimento de suas diversas faces, nenhuma delas podendo ser ignorada.

3.1. Democracia econômica
A democracia não pode restringir-se ao âmbito da política ou, pior ainda, ao jogo periódico das eleições. A pergunta de fundo é a seguinte: por que é tão fácil democratizar o direito de voto, o sufrágio universal, enquanto os direitos sobre os benefícios econômicos continuam escandalosamente concentrados? Por que essa disparidade entre poder político e poder econômico? A resposta não é tão complicada. Numa sociedade capitalista e neoliberal, o que efetivamente confere poder a um indivíduo, a um grupo ou a um partido é a propriedade privada. Os donos das terras, da renda e da riqueza são também os donos das decisões sobre o destino do país. Quanto maior a extensão de terra, a herança ou a conta bancária, mais poder de decisão. Em termos bem populares, “quem paga a conta escolhe o cardápio”.
Cabe aqui uma citação do filósofo alemão Bertrand Russell. Escreve ele: “É curioso que a refutação do princípio hereditário em política não tenha tido quase nenhum efeito no campo econômico nos países democráticos. Parece-nos ainda natural que um homem deixe sua propriedade aos filhos; aceitamos o princípio hereditário por aquilo que se refere ao poder econômico, enquanto o rejeitamos no que se refere ao poder político. As dinastias políticas desapareceram, mas as dinastias econômicas sobrevivem. E pensar o quanto nos parece natural que o poder sobre a vida dos outros, derivado de uma grande riqueza, deva ser hereditário!” [3] Para o filósofo inglês Locke, a quem Russel combatia, o conceito de democracia estava estreitamente vinculado à defesa e manutenção da propriedade privada, o que veio a ser um dos fundamentos do neoliberalismo.[4]
Sob o domínio dos interesses econômicos, o processo eleitoral torna-se, assim, um jogo de cena para manter intacta a estrutura de propriedade e de poder. Os três poderes da União – judiciário, legislativo e executivo – estão montados para garantir e perpetuar essa estrutura. Mudam-se os atores, mas o cenário permanece o mesmo. As mudanças aparentes servem apenas para manter a continuidade de fundo. Os cidadãos são chamados a votar, mas não podem alterar as regras do jogo. Estas já foram previamente determinadas pelos representantes dos empresários, banqueiros, fazendeiros, grandes comerciantes, os quais fazem tudo para perpetuar-se nos gabinetes dos três poderes. Daí que votar, na forma em que hoje se encontram as eleições, não passa de jogo de cena. Os eleitos, por sua vez, têm uma margem de manobra bem pequena, inexpressiva mesmo, para alterar as regras. Acabam acomodando-se a elas e, em não poucos casos, fazendo do mandato uma espécie de cadeira cativa, às vezes vitalícia.
A conclusão é de que enquanto os princípios democráticos permanecerem apenas na esfera política, sem alterar a base econômica da sociedade, será esta que continuará dominando sobre aquela, impondo as regras de um modelo neoliberal, comandado pelo capital financeiro. Aliás, “a idéia de que a liberdade política é um remédio superficial sem a igualdade econômica”, vem do período revolucionário da história francesa, especialmente no último quartel do século XVIII.[5]

3.2. Democracia plural
As sociedades atuais estão fortemente marcadas por um pluralismo crescente, seja do ponto de vista étnico-cultural e religioso, seja do ponto de vista do intercâmbio de fatos e informações. Nunca, como hoje, o mundo se pareceu tanto a uma aldeia. A revolução dos transportes, das comunicações e da informática, bem como os movimentos migratórios em todas as direções, aproximam os quatro cantos do planeta. A bem dizer, tropeçamos a cada dia com os “mil rostos do outro”. É bem verdade que essa espécie de “globalização cultural” não se dá sem contradições. Ao mesmo tempo em que os diferentes povos se aproximam um do outro, aumenta também a resistência das identidades e as hostilidades de caráter religioso. Ao lado de encontros e reencontros novos e imprevistos, verifica-se o crescimento do preconceito e da discriminação, da xenofobia e do racismo, bem como o surgimento de focos de neonazismo.
Seja como for, o universo do pluralismo e das migrações coloca hoje um segundo desafio à construção de uma democracia real. Historicamente, a democracia é bem mais comum entre as sociedades de iguais. Sua base tem sido, ao longo do tempo, uma certa igualdade étnico-cultural: democracia para os gregos, para os franceses, para os norte-americanos, e assim por diante. A democracia neste caso pressupõe uma determinada origem comum dos cidadãos a ela vinculados.
Na sociedade plural, as coisas são bem mais complexas. Trata-se de tecer relações democráticas entre desiguais. Neste caso, o fundamento real da democracia assenta-se menos sobre a igualdade étnico-cultural e mais sobre a igualdade de direitos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, por um lado, e o direito à vida e aos meios necessários a preservá-la, por outro, ganham aqui predominância absoluta. A democracia em terreno heterogêneo de grupos e povos é bem mais desafiadora do que a democracia num grupo homogêneo. Enquanto neste caso ela descansa sobre a origem e a história comum das pessoas envolvidas, naquele ela reside no direito à “vida em primeiro lugar”, como dizia a primeira edição do Grito dos Excluídos. [6]
Se o que temos em vista é uma democracia real e profunda, não podemos nos contentar com a mera convivência entre povos distintos, ou com um nível de tolerância recíproca. Não basta suportar o outro, o estranho o diferente. Faz-se necessário avançar além da mera tolerância. O desafio é superar um simples multi-culturalismo, sinônimo de coexistência pacífica com o diferente, em vista de um progressivo inter-culturalismo, isto é o confronto e o diálogo entre os valores e contra-valores de cada cultura. “No coração de cada pessoa e no coração de cada cultura existem sementes do Verbo”, diz a Doutrina Social da Igreja. Impõem-se aqui um longo processo de inculturaçao, marcado pela abertura e a compreensão a diferentes visões de mundo.
O novo e o diferente sempre nos questionam e interpelam, exigem mudança de atitude. Mas como observa H.G. Gadamer, “o outro tem algo a dizer não só sobre si, mas também algo a dizer sobre nós e para nós”.[7] Os deslocamentos humanos de massa, cada vez mais intensos e longos e cada vez mais diversificados e complexos, ajudam a desmascarar as chamadas democracias ocidentais. Estas muitas vezes abrem aos imigrantes a porta dos fundos, porque necessitam de mão-de-obra fácil e barata para os serviços sujos e pesados, mas ao mesmo tempo fecham-lhes a porta da frente. Em outras palavras, querem trabalhadores braçais, mas não lhes oferecem o status de cidadão. O resultado é o aumento de imigrantes clandestinos em regiões como Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália, mas também nas capitais dos países periféricos. Daí que as migrações hoje desafiam a repensar os conceitos de soberania e de democracia. Ambos devem levar em conta, não apenas a homogeneidade cultural e histórica, mas sobretudo os direitos humanos fundamentais.

3.3. Democracia cotidiana
Neste item, o desafio desce a um nível bem mais concreto. Pode ser formulado do seguinte modo: como aplicar os princípios básicos da democracia radical às nossas práticas cotidianas, sejam elas de caráter religioso e pastoral, sejam elas de natureza social, política ou cultural?
É evidente que o simples fato de fazer a pergunta supõe relações não democráticas no interior mesmo dos movimentos sociais, pastorais e entidades que, em seu dia-a-dia, pretendem reger-se democraticamente. A pergunta nos convida a um olhar corajoso sobre nossas atitudes e comportamentos de lideranças, militantes e agentes pastorais. Trata-se de olhar no espelho para corrigir possíveis distorções e desvios de conduta.
Quais seriam essas práticas não democráticas? De cara vêm à tona, também aqui, uma série de “ismos”: autoritarismo, centralismo, machismo, consumismo, dirigismo, entre outros. São verdadeiros vírus que descobrimos com facilidade nos adversários e inimigos, mas que temos imensa dificuldade de perceber em nós mesmos. Muitas vezes, se fossemos capazes de tomar certa distância e olhar a partir de fora nossa forma de agir em reuniões, assembléias, etc., certamente ficaríamos surpresos. Como estão, por exemplo, as relações diárias entre companheiros e companheiras de uma mesma pastoral, movimento ou entidade, enfim, de uma mesma causa? E as relações entre as lideranças intermediárias e as pessoas da base? Ou ainda, entre estas últimas e os agentes, assessores e as chamadas “estrelas”? Assessores e estrelas comportam-se como intelectuais orgânicos, no conceito de Gramsci, ou limitam-se às tarefas de gabinete? Prevalecem ou já desapareceram as antigas fórmulas do trabalho de base, trabalho de formiguinha, como também da escuta e do diálogo com o povo?
Estamos falando concretamente do risco de burocratização e profissionalização dos movimentos sociais e das pastorais vinculadas à luta pela transformação da sociedade. Até que ponto o acompanhamento orgânico das lutas sociais é ou não substituído por uma assessoria à distância, descolada do chão e do clamor popular? Não será esse um dos fatores que dificultam nossa aproximação aos setores mais excluídos da sociedade? Alguns estudiosos vêm questionando o que chamam de “oeneigização” dos movimentos sociais (conversão do movimento em ONG). Enquanto movimento social permanece organicamente ligado à luta e às reivindicações populares, a ONG corre o risco de desviar o foco de sua atenção para a própria manutenção da entidade.[8]
Outras atitudes nocivas à democracia são o isolamento, a fragmentação de esforços, o paralelismo de atividades, a sobrecarga de tarefas, aliadas à disputa surda e muda pelo poder no âmago mesmo do movimento, da pastoral ou da entidade. Quantas lutas intestinas, fratricidas, são travadas em silêncio! Há aqui um grande desperdício de energia que poderia ser canalizada para a ação social e política. Não será difícil para cada um de nós identificarmos essas “brigas de foice no escuro”. Fica a pergunta: como superá-las em vista de uma verdadeira democracia interna e cotidiana?
Por trás de determinadas práticas anti-democráticas pode estar a falta de uma espiritualidade profunda. Tem sido cada vez mais comum o uso da Bíblia, da religiosidade popular e da mística da natureza nos eventos da ação pastoral e social. O problema é que, em não poucos casos, não fazemos mais do que instrumentalizar esses valores para justificar posições ideológicas. Não nos damos conta dos valores em si, nem nos deixamos interpelar por eles.
Que será da “sociedade economicamente justa, politicamente democrática, ecologicamente sustentável, socialmente igualitária, culturalmente plural” – expressão das Semanas Sociais Brasileiras – se os homens e mulheres que a compõem seguem com seus vírus corrosivos no corpo e na alma? Sociedade nova requer homens e mulheres novos, ou então, para utilizar a metáfora do Evangelho, “vinho novo exige odres novos”.

3.4. Democracia participativa
Este último parágrafo nos leva de volta à relação entre economia e política numa sociedade democrática. De fato, para que as grandes transformações, hoje mais necessárias e urgentes do que nunca, ultrapassem a esfera da política e cheguem de fato às estruturas econômicas, não bastam as eleições, a organização político partidária, o Congresso Nacional e os demais poderes públicos. Uma das principais lições do governo Lula é que as mudanças não se originam a partir de cima. Aliás, já o sabíamos há muito, mas fomos pegos pela ilusão momentânea do poder. Tendo o governo em nossas mãos, tudo nos será possível. Nada mais enganoso e perigoso.
O verdadeiro poder de transformação social está nas ruas, nas praças e nos campos. Está na organização popular. Sem esta, pouco será capaz de fazer um governo, por mais democrático que seja. Somente a organização dos movimentos sociais e suas mobilizações podem dar suporte e continuidade às mudanças mais profundas. Caso contrário, como vimos acima, caímos numa espécie de mudancismo que só serve para deixar tudo como está. As classes dominantes no Brasil, vale repetir, são extremamente retrógradas e avessas a qualquer mudança. Só a força popular organizada é capaz de mover a sociedade, é o principal motor da história.
Isso nos conduz ao último desafio. Como somar os esforços dispersos e fragmentados, hoje diluídos em milhares de iniciativas populares? Como avançar, num salto qualitativo, da luta específica para a luta política, do movimento para a rede de articulação, da visão local para uma visão global? Como congregar as forças sociais num plano conjunto de reflexão e ação, em vista de um projeto popular para o Brasil? Sabemos que, nas últimas décadas, uma série de iniciativas foi tomada a esse respeito, sendo o Fórum Social Mundial a mais expressiva. Mas, em muitos casos, ainda prevalecem o individualismo e a disputa de espaços que levam à fragmentação e desperdício de esforços. Outras vezes, jogamos todas as fichas na via político-partidária, o que trouxe um perigo duplo: de um lado, a manipulação das energias sociais por parte do oportunismo de plantão, de outro, o abandono da organização nas bases.
A Assembléia Popular Mutirão por um Novo Brasil mostrou a necessidade de encontrar novos canais de participação popular, novos instrumentos de controle do poder e do orçamento públicos e novas estratégias de ação social e política. Entre tais canais, instrumentos e estratégias estão, respectivamente, os movimentos sociais organizados, os Conselhos Populares nas áreas das políticas públicas vitais e as assembléias populares nos mais diferentes níveis. Impõe-se, por outro lado, o resgate, fortalecimento e/ou criação de novos mecanismos e instituições onde a população mais excluída possa participar, o que exige novas formas de linguagem e de comunicação. Os espaços forjados pelo Grito dos Excluídos, pelas Semanas Sociais Brasileiras, pela Campanha Jubileu Sul, pelos Plebiscitos, pela Consulta Popular, entre tantos outros, apontam para esse caminho da participação popular.
Por fim, tudo isso nos leva a um passo tão decisivo quanto desafiador nos dias atuais. Trata-se do processo que deverá levar-nos de uma democracia representativa, hoje claramente enferma de corrupção e promiscuidade, a uma democracia direta e participativa. É um processo lento, laborioso, feito de avanços e recuos, mas é o único que nos pode tirar do atoleiro em que se tornou a política na história do Brasil. Só assim, combinando soberania popular e democracia, é que a política deixará de estar a serviço das classes dominantes e de seus interesses, para estar a serviço do bem comum, como nos mostra a reflexão da filosofia política através da história.
Conclusão
Os quatro adjetivos da democracia – econômica, plural, cotidiana e participativa – têm um fundo em comum: a soberania popular de um povo deve responder não tanto às expectativas, e sim às necessidades básicas da população. Os apelos da sociedade moderna, ou pós-moderna, induzem às respostas imediatas, mesmo que sejam superficiais. O afã de tudo resolver rapidamente joga as pessoas e instituições numa roda viva que não pode parar. Com isso, priorizam-se programas de emergência, deixando de lado um planejamento mais sério e duradouro.
Em termos políticos, como já vimos, as políticas públicas de largo alcance são substituídas pelas políticas compensatórias. O curto prazo ganha total primazia sobre o médio e longo prazo. Os políticos de plantão não pensam um plano de município, de estado ou de país, mas um plano voltado para a própria carreira ou o próprio partido. Ao invés de trabalhar com projetos, trabalham com a meta de perpetuar-se no poder.
Responder às expectativas da população constitui uma via muita mais fácil e curta, além de gerar retorno imediato, seja em votos, seja em prestígio. A via longa de identificar as necessidades fundamentais, escolher prioridades e contar com as instituições é sempre mais laboriosa. E o pior é que o retorno pode resultar em votos para o partido adversário! Essa democracia de curto prazo transformou-se numa verdadeira farsa, onde os políticos utilizam os partidos como escadas para subir e, depois de instalados no poder, fazem de tudo para manter-se aí.
Entre expectativas e necessidades, a lição vem do comportamento das crianças. Às vezes torna-se necessário frustrar as expectativas para responder seriamente às necessidades. Um exemplo banal: minutos antes do almoço a criança pede um pirulito, mas a mãe, de olho na refeição o recusa. Quantas vezes a população prefere “pirulitos” a uma comida sólida! Aqui é que se mede a estatura do político. Se ele estiver de olho num projeto de nação, saberá ultrapassar o nível das expectativas; e inversamente, se ele estiver de olho num projeto de poder, cai facilmente na armadilha das respostas imediatas. O vício do paternalismo e da demagogia rondam as portas de toda política. Daí a necessidade de abrir espaço para a participação popular, seja no sentido de escolher as verdadeiras prioridades frente às necessidades da população, seja no sentido de assumir a responsabilidade das próprias escolhas.

[1] Para estes parágrafos, Cfr. a vasta obra histórica de HOBSBAWM, Eric.



[2] FIORI, José Luís. Artigo Folha de São Paulo ( ? ).
[3] RUSSELL, Bertrand. In História do pensamento ocidental. Fondo de cultura económica, México, 1977.

[4] SABINE, George H. Complejidad de la teoria de Locke, In Historia de la teoria politica. Fondo de cultura económica, México D.F., 1978, pags. 396ss.
[5] SABINE, Geroge H. Idem.
[6] HABERMAS, Jurgen. In L’ Inclusione dell’altro, Studi di teoria politica, Giangiacomo Feltrinelli Editore, Milano, Italia, 1998.
[7] GADAMER, Hans-Georg. In Verdad y Metodo, Ediciones Sígueme, Salamanca, España, 1994
[8] RICCI, Rudá. In Palestra sobre Plebiscito da ALCA, proferida em Bauru, São Paulo, Brasil.





FEMINISMO E MOVIMENTO FEMINISTA – O que há de novo?

(*) Hortência Mendes


Toda pessoa tem uma forma única de sentir, conceber, avaliar, interagir, formular e sintetizar a experiência vivida consigo e com as outras pessoas diante de cada situação da vida. Quer esta pessoa seja, negra, branca, amarela; intelectual, analfabeta, mulher, homem, criança, adolescente, jovem, adulta ou idosa ou mesmo hétero ou homossexual, pobre ou rica.

Cada pessoa indistintamente tem sua maneira específica de ver e analisar a vida e a partir daí tomamos nossas decisões. É essa rica e complexa diversidade humana que o preconceito, a discriminação, a homofobia, a marginalização, a violência e a exploração dos seres humanos, poldam e retiram de alguns grupos humanos.

A década de 1970 foi consagrada pela ONU como a décadas da mulher, principalmente porque nós mulheres no mundo inteiro tínhamos naquela época uma vida desumana, desfrutamos de poucos direitos. Por esse motivo a mesma ONU em 1990, consagrou o ano como o Ano Internacional da Alfabetização, porque entendeu que o analfabetismo em massa está ligado diretamente à pobreza, a injustiça social e estrutural de uma sociedade, concordamos com isso, mas precisamos ver o analfabetismo a partir da ótica de que a alfabetização vai para além das habilidades básicas da leitura e da escrita, entendendo assim, a ONU estabeleceu que o público prioritário para todas as ações contra o analfabetismo naquele ano seria as mulheres e as crianças mulheres, que há época compreendiam 70% das pessoas analfabetas do mundo.

Percebemos assim, como um único problema pode acarretar para uma certa população uma situação de descriminação que promoverá muitas outras dificuldades, pois nada é estático, tudo é movimento.

O mundo todo está em constante movimento. Nada é estático, nossas células, as plantas, as águas, o ar, tudo é movimento. As relações estabelecidas na sociedade também, por isso chamamos de movimentos sociais, tudo o que se realiza pela nossa ação junto às comunidades, aos sindicatos, mulheres, etc, Sabemos também que o movimento provoca mudanças e, todas as pessoas querem essas mudanças e querem ainda que essas mudanças sejam mudanças boas, mudanças para melhor, fato que nem sempre acontece.

Na política e na economia para falar de dois campos que incidem diretamente sobre nossas vidas imediatas, o que tem havido são mudanças para pior, como por exemplo: nossos salários pioram a cada dia; nosso poder de compra também, a violência no campo e na cidade só aumenta, assim, temos a impressão de que as coisas estão estáticas. Mas não estão.

O mesmo ocorre com o MOVIMENTO FEMINISTA, as relações desenhadas pelo patriarcado estão sempre em movimento, se analisarmos a história mais recente do feminismo, na década de 1960 e 1970, vamos perceber que houveram muitas mudanças na vida das mulheres e como conseqüências toda a sociedade mudou também isso porque o feminismo se constituiu em um movimento que não traz no seu bojo as amarras do corporativismo. Nós mulheres não lutamos para melhorar somente as nossas vidas, não nos preocupamos somente conosco mesmas, toda a sinergia do feminismo está relacionada diretamente com toda a sociedade, com todas as pessoas. A cada vitória do feminismo vem sempre uma mudança social.

O movimento feminista tocou fundo na ferida patriarcal em toda sua extensão, se não, vejamos: reflitamos um pouco sobre o mito cristão sob a ótica de Robert Kurz: “segundo mito da criação bíblico, a mulher nasceu quando Deus retirou uma costela ao homem. Essa imagem patriarcal é dúbia: de um lado, a mulher parece um simples apêndice do homem; do outro, porém, subtende-se que o homem, ao ser cindido de sua parte feminina, é ele próprio ferido e sofre uma perda”. Sem entrar no mérito da questão, podemos analisar somente o fato de que quando Deus retira a costela do homem e cria a mulher não necessariamente a mulher será menor, inferior, menos importante que o homem, a mudança que ocorreu a partir desse fato atinge o homem e a mulher, se estivermos falando de uma sociedade, atingiu a todas as pessoas da sociedade em questão.

Então, mesmo esse mito milenar pregado por todas as religiões cristãs no mundo todo, que tem sido um dos fortes mitos usados para explicar e eternizar a submissão da mulher e supremacia do homem, mesmo ele, quando colocado sob a lente do feminismo tem outra conotação.

Se continuarmos a lê a bíblia vamos encontrar uma Eva insubordinada que levou Adão a querer o conhecimento, a assumir responsabilidades, a dialogar com seu criador. È assim a história do feminismo: nós mulheres descobrimos desde sempre que a vida pode e deve ser melhor. E será. A vida pode ser saudável, boa, prazerosa e todas essas coisas queremos não somente para nós, mas para todo o mundo.

O feminismo quebrou o silêncio obediente e milenar das mulheres, quebrou as amarras da opressão que violentou multidões de mulheres durante toda a história do domínio patriarcal. O feminismo quis o conhecimento e fomentou a participação das mulheres em todas as esferas da sociedade, forçando assim o diálogo com o poder opressor.

É a partir dessa reflexão de que a vida deve ser vivida por inteiro por todas as pessoas, de que as pessoas têm igual direito de se expressar, de participar e ser por inteiro, é que o feminismo assentou suas bases e construiu seus postulados, surgiu na história como algo inovador, diferente, revolucionário, por isso amedrontou e ainda amedronta muita gente.

Incomodamos o mundo masculino que se estabeleceu através do patriarcado nas relações humanas, onde estamos enclaustradas até os dias atuais. O feminismo continua a existir como uma forma de resistência à mesmice masculinizante. Em todos os paises do mundo há sempre mulheres que não se submetem aos ditames dos machos, não aceitam essa fórmula universal de vida masculina. Reivindicamos nossa participação, mas, como mulheres, não como homens de saia e batom.

A história recente nos diz que as primeiras manifestações feministas surgiram no século XIX com o evento da revolução francesa através da voz de Louise Otto as mulheres francesas reivindicaram independência e maioridade no estado usando o lema que embalara aquela revolução: IGUALDADE, FRATERNIDADE E LIBERDADE, não se encerassem nas fileiras masculinas dos exércitos, mas fossem temas vividos igualmente por homens e mulheres. Por que as mulheres francesas não aceitaram serem tratadas como revolucionárias coadjuvante? Por que?

Porque as obrigações imputadas às mulheres na sociedade patriarcal são muito pesadas, elas vão desde ser mãe, esposa, dona-de-casa, prostituta, religiosa até ser bela de acordo com os padrões da época, junto a tudo isso a obrigatoriedade de espalhar o amor, a compreensão, a bondade, o cuidado, nas suas famílias e na sociedade como todo.

Com o surgimento do movimento feminista como o conhecemos na atualidade essa sobrecarga não desaparece, ela continua, se desloca, elastece, mas não acaba. Cabe a nós entendermos essa realidade para poder transformá-la. O feminismo ao longo de sua história foi fazendo várias propostas de mudanças e sempre tendo que inová-las, quer ampliá-las para mobilizar cada vez mais mulheres.

Dizíamos que a emancipação econômica era fator primordial, ao conquistarmos nossa independência econômica, todo o resto viria por acréscimo. Não veio. Por vários motivos, mas principalmente por um: estamos em uma sociedade onde a economia é realizada para uma minoria, não há lugar para todas as pessoas nessa economia mercantil do capitalismo, como não havia também na economia feudal e em nenhuma outra economia onde a base é o patriarcado e o modelo de produção mercantil.
Defendemos então, a profissionalização das mulheres, deveríamos ser profissionais de sucesso, arrojadas, sabe-tudo e resolveríamos nossos problemas. Nos profissionalizamos, mas não resolvemos todos os problemas;
Então, deveríamos partir para a política, precisávamos ser ativistas, irromper nos palanques, nos partidos, nos sindicatos, associações, cooperativas, etc, etc, etc. cá estamos, muitas de nós emancipadas, politicamente, economicamente, profissionalmente, mas as marcas sociais impostas a nós pelo patriarcado está em carne viva, não sararam. Vejamos:

Somos nó mulheres ainda responsáveis pelas nossas crias, somos nós mulheres ainda responsáveis pelas nossas famílias, somos nós mulheres ainda responsáveis pelas comida, pela roupa lavada e passada, pelo remédio e ainda somos nós mulheres que mais sofremos a violência doméstica, os maus tratos. Onde está então o problema? Não basta conquistar direitos iguais escritos nas constituições dos mais diversos paises do mundo, temos que superar o PATRIARCADO.

R. Kurz nos traz novamente à reflexão: A emancipação feminina, diz ele, não é medida pela mudança dos homens do âmbito do privado, mas pela mudança das mulheres no âmbito público. Não adianta sermos coroadas como rainhas do lar. Não adianta termos os mais sofisticados aparelhos domésticos, não adianta termos babá, empregadas domésticas e etc, e tal, as mudanças reais não viram por essa via, pois ainda somos nós mulheres a nos responsabilizar por todas as tarefas domésticas. As mudanças são necessárias que ocorram no âmbito público. Nos perguntemos: Que mudanças estamos promovendo no âmbito público?

Olhemos bem para as mulheres que estão nas esferas públicas: essas mulheres conseguem quebrar a lógica empresarial desumana, descuidada e a racionalidade destrutiva, das relações desrespeitosas e até violentas na luta pelo poder? Ou são somente aquelas mulheres de carreira que tem o poder e para conseguir o sucesso passam por cima de tudo? As mulheres que sobem nos palanques e se embrenharam nas fileiras políticas, trazem novidades e uma nova forma de realizar essa atividade? Ou simplesmente para ocupar esse ou aquele cargo se tornaram tão masculinas quanto os homens?

E, olhemos também para os homens que estão se ocupando do espaço privado: eles ajudam nos serviços domésticos quando acham necessário? Ou quando são obrigados a exercerem essa tarefa? Ou ainda, estão realmente mudando esta relação de repartição do direito e dever de assumir essas responsabilidades? Ou estamos nos permitindo a um outro tipo de opressão? A moral? A sexual? A financeira?

Tanto a atuação da mulher no âmbito público como a atuação do homem no âmbito privado, não se deu e nem se dá em sua totalidade, por conta de mudanças reais reclamadas pelo feminismo, na maioria das vezes essas mudanças ocorreram por imposição do sistema capitalista. Ao capitalismo e ao capitalista interessa o que dá lucro e o eterniza no poder, assim foi o que ocorreu com a entrada em massa das mulheres (e crianças) no mercado de trabalho formal, por volta da década de 30.

Para o sistema capitalista não há nenhuma importância no fato de se, ser homem ou mulher, importa somente o lucro, a mercadoria e o valor.

Hoje o capitalismo procura promover inclusive na mídia o modelo da mulher versátil, dinâmica, que está na Internet, no celular, na universidade, aquela que consegue unir carreira e família e ainda por cima ser bela, sex, amorosa e feliz, em contrapartida quem cuida do interior dessas mulheres? Quem cuida da saúde mental dessas mulheres? Quem cuida dos direitos reprodutivos dessas mulheres? Como está a relação dessas mulheres nas suas famílias? Com filhas, filhos, companheiros, maridos e namorados? A feminista alemã Roswitha Scholz diz para termos cuidado, pois este mundo patriarcal e capitalista está transformando nossas crianças em assassinas e psicopatas e depois chama a nós mulheres para a cadeira de ré.

Roswitha continua dizendo que nas primeiras experiências do movimento feminista o que estava em jogo para a maioria das mulheres não era de modo algum a plena igualdade de direitos, pois a maternidade já fora internalizada como uma vocação natural às supremas diferenças entre os sexos não deviam ser violadas, mas havia também uma minoria dentro do movimento que era conhecida como radical representada por Helene Stöcker que defendia a “Nova ética”, esse agrupamento colocou em xeque a domesticação patriarcal; exigia um direito próprio para as mulheres em relação a sua sexualidade, aos direitos reprodutivos, ao sufrágio feminino e ao direito na família.

Esse grupo então possibilitou que o movimento feminista trouxesse de volta a fogueira da inquisição, o martelo da bruxa para que pudéssemos extirpá-los de nós, de nossas sociedades, de nossas relações. Foi nesse contexto de contradição que o movimento feminista se encontra com o movimento operário formado por uma classe operária surgida com a industrialização ainda no século XX, vivia à margem da sociedade burguesa oficial e por esse motivo houve uma inserção maior da mulher pobre e das crianças que estavam na fábrica.

Com esse encontro histórico do feminismo com o movimento operário se constituiu um conflito: as associações femininas foram em apoio e amparo às mulheres e as crianças operárias, e o movimento trabalhista era contra essa inserção por razões de concorrência. As feministas não faziam a reflexão sobre as péssimas condições de trabalhos de crianças e mulheres colocando em xeque o modo de produção capitalista e o movimento operário também não fazia essa discussão sobre a opressão burguesa àquelas mulheres e crianças e nem mesmo aos operários, eles se preocupava somente com o desemprego dos homens que se agravou a partir dessa inserção de mulheres e crianças no mundo fabril.

A social democracia na época defendia uma melhor remuneração para as atividades femininas, mas por outro lado afirmava que, o salário de um trabalhador operário haveria de ser suficiente para sustentar dignamente sua família essa era uma questão paradoxal que se colocou na pauta dos dois movimentos, porque os mesmos não foram fundo na crítica ao modelo de produção. Mesmo assim, podemos afirmar que o feminismo amedrontou o sistema de produção capitalista, principalmente porque era um movimento feito pelas mulheres e para as mulheres, tanto teórica como praticamente, dele não participava os homens, portanto estava preservado, em parte, da influência patriarcal.

O movimento se firmou tanto a ponto de Ulrich Bech, afirmar em 1990: estamos, portanto – com todos os antagonismos, oportunidades e contradições – apenas no início do processo que nos libertará das atribuições “estamentais” do sexo. A consciência da mulher adiantou-se às relações sociais. Que os ponteiros de sua consciência possam voltar atrás é algo improvável tudo depõe a favor da prognose de um extenso conflito: a contraposição dos sexos define os anos vindouros “e assim é.

O século XXI nos encontra em plena movimentação, são vários os movimentos que propõem mudanças radicais dessas estruturas podres e colocam no centro da discussão a modernização capitalista e o sentido da vida das espécies e crítica a civilização. O movimento feminista se fortaleceu nessa contexto, avançou, trocou formas de fazer a luta e a discussão, mas o grande conflito se impõe: as relações ainda se dão sob o paradigma das diferenciações entre os sexos. Machos e fêmeas de nossa espécie ainda são tratados de forma diferenciada e as fêmeas estão sendo discriminadas, violentadas e assassinadas.

As relações machistas, ainda são as relações primordiais na sociedade, mas o feminismo continua a se impor a amedrontar. Por isso afirmamos que o FEMINISMO não é antônimo do MACHISMO, pois o Feminismo – é a uma ação militante que é motivada pela liberdade já o machismo é uma cultura perversa que sobrevive com base na opressão.

Não há nenhuma outra forma de transformação social que não seja acabar com as relações patriarcais de poder e de seu modo de produção capitalista. O feminismo propõe essa sociedade inovadora baseada na Liberdade, na igualdade, na pluralidade, na solidariedade e na felicidade de todas as pessoas.




(*) Hortência Mendes – é natural de Teresina, estado do Piauí, tem 51 anos, é educadora popular, feminista, terapeuta naturista e desenvolve na CB - Regional projetos sociais, é pesquisadora sobre a violência da mulher.


O último desejo de Martin Luther King


Taylor Branch*


Há 40 anos, no dia 31 de março, na Catedral Nacional, o reverendo Martin Luther King Jr. fez aquele que seria o seu último sermão de domingo, quando estava a caminho de Memphis. Naquela mesma noite, em 1968, o presidente Johnson chocou o mundo ao anunciar que não disputaria a reeleição.
Eu era aluno do último ano de faculdade. A minha mãe me visitava, quatro noites depois, quando toda a conversa subitamente cessou em um restaurante cheio de gente. Um garçom anunciou que King tinha sido assassinado.Direitos civis, Vietnã, King, Memphis - estes são marcos históricos. Mesmo assim, este ano é um divisor de águas. Como King viveu apenas 39 anos, de agora em diante fará mais tempo que ele partiu do que esteve entre nós. Desde Memphis, duas gerações atingiram a maturidade.
Isto não significa que o nosso entendimento seja acurado ou completo. Uma certa dose de verniz e mitologia é sempre inevitável em se tratando das grandes figuras, seja George Washington cortando uma cerejeira, Abraham Lincoln serrando um dormente de ferrovia ou King pregando um sonho de cidadania igualitária em 1963. Porém, bem além disso, nós envolvemos King e a sua era em um mito impregnante, falso para a nossa herança histórica e perigoso para o nosso futuro. Nós distorcemos toda a nossa cultura política para evitar as lições da era de Martin Luther King.
Ele próprio nos advertiu. Quando subiu ao púlpito, naquele domingo, 40 anos atrás, King adaptou um dos seus sermões padrões, "Remaining Awake Through a Great Revolution" ("Permanecendo Desperto Durante uma Grande Revolução"). A partir da alegoria de Rip Van Winkle, ele falou de um homem que dormiu antes de 1776 e acordou 20 anos depois, em um mundo repleto de roupas e costumes estranhos, dotado de um vocabulário inteiramente novo e marcado por uma preocupação assombrosa com o plebeu George Washington, e não com o rei George III.
King suplicou a sua platéia que não dormisse enquanto o mundo clamava continuamente por liberdade. Quando os antigos hebreus obtiveram uma libertação miraculosa do cativeiro no Egito, muitos sentiram um intenso desejo de voltar atrás. A família do faraó parecia ser melhor do que o pacto oferecido por Moisés, e assim os hebreus vagaram pelas terras desertas. Eles demoraram 40 anos para recuperar o rumo. Passaram-se 40 anos desde que King se foi, mas nós ainda dormimos sob o reino do faraó. É hora de acordar.
King estava em Memphis para participar de uma passeata em apoio aos trabalhadores do setor de saneamento. Dois deles, Echol Cole e Robert Walker, haviam sido esmagados em um acidente provocado por um defeito mecânico. As leis da cidade proibiam os funcionários negros de se abrigarem da chuva, a não ser na carroceria dos caminhões compressores, junto com o lixo. Mas pela primeira vez uma marcha de King descambou para desordem e saques.
Quando apareceu em Washington na manhã daquele domingo, ele estava longe de ser a pessoa mais amada dos Estados Unidos. Manchetes em Memphis o chamavam de "Galinha a la King", acusando-o de ter corrido da sua própria briga. O "Saint Louis Globe-Democrat" chamou King de "um dos homens mais ameaçadores dos Estados Unidos de hoje", e publicou uma charge na qual o ativista mirava uma pistola, em meio a uma nuvem de fumaça de pólvora, com a legenda: "Não estou disparando a arma. Estou apenas puxando o gatilho".
Assim, King estava no púlpito como um homem marcado, ridicularizado e repreendido, e também afligido por conflitos interiores. Mas, como sempre, ele alçou a esperança que trazia no fundo da sua alma. King rogou à congregação que se mantivesse viva e desperta para as grandes revoluções que estavam em andamento. "Digo a vocês que a nossa meta é a liberdade", bradou. "E eu acredito que chegaremos até lá porque - por mais que o país desvie-se deste objetivo - a meta dos Estados Unidos é a liberdade!"
Nós enfrentamos um precedente assustador na História. A nossa nação dormiu durante décadas, enfeitiçada por mitos referentes a raça. Eu cresci aprendendo que a Guerra Civil dizia respeito ao federalismo, e não ao escravagismo. Os meus livros escolares chegavam até a utilizar um termo religioso, os "redentores", para descrever os políticos que restauraram a supremacia branca com o terrorismo da Ku Klux Klan no final do século 19. A Hollywood moderna foi fundada sobre o poder emocional desse mito, conforme se constata no filme "O Nascimento de Uma Nação" ("The Birth of a Nation", EUA, 1915). Forças ditas progressistas defendiam a hierarquia racial por meio da pseudociência da eugenia.
Mais de uma vez a cultura dominante virou a História de pernas para o ar a fim de sentir-se confortável. E quando um movimento pelos direitos civis surgiu a partir de grupos marginais formados por empregadas domésticas e arrendatários, fazendo com que não fosse mais respeitável defender a segregação racial, vozes magoadas mais uma vez se adaptaram para maldizer o governo como agente da calamidade geral. Nós pintamos a era de King como uma época de licenciosidade desbragada e sem objetivo, cheia de hippies comportando-se como doidos.
A palavra-chave do discurso degenerou-se, passando de "movimento" a "onda". Na era King, a palavra "movimento" deixou de ser uma inspiração pessoal e virou salto de fé, e depois evoluiu da descoberta e sacrifício compartilhados para a esfera da luta por direitos, gerando movimentos semelhantes até que locais famosos nos quais se lutou pela liberdade, de Selma ao Muro de Berlim, fossem literalmente capazes de sentir a movimentação da História.
Agora temos em vez disso as "ondas", sugerindo que não está em jogo no debate político uma direção real, e tampouco qualquer conseqüência, exceto para os protagonistas de um determinado jogo. Tal linguagem acolhe o cinismo, ao reduzir a política ao entretenimento.
O equilíbrio democrático dorme há 40 anos, e nos deparamos com um mundo que é algo como uma história de Rip Van Winkle de trás para frente. Nós acordamos e vemos Tiger Woods, Condoleezza Rice e Barack Obama, enquanto o nosso governo exige o domínio arbitrário por meio do secretismo, de conquistas e de calabouços. O rei George III parece ter ressuscitado.
Por favor, resista a enxergar nisto qualquer conotação partidária. O nosso problema é bem maior do que isso. De fato, creio que o desafio mais urgente para os admiradores de King é reconhecer a nossa própria cumplicidade nos mitos sufocantes a respeito da história dos direitos civis. Aliados de King, derrotados e tendo sofrido por muito tempo, descartaram-no como sendo um moderado cansado muito antes do início da campanha reacionária no sentido de transformar a palavra "liberal" em um beijo de morte para candidatos de todo o país. De modo similar, forças chamadas de radicais e militantes voltaram-se contra os governos liberais por estes terem demorado tanto tempo para responder à injustiça racial, e depois à Guerra do Vietnã. Somente uma convergência da esquerda e da direita poderia causar uma erosão tão duradoura da promessa do governo livre.
Vários dos camaradas mais próximos de King rejeitaram este compromisso para com a não violência. O movimento dos direitos civis criou ondas na História enquanto permaneceu não violento, e a seguir estacou. Sem dúvida, o instrumento mais poderoso para a reforma democrática foi o primeiro a tornar-se antiquado. Ele desapareceu entre os intelectuais, nos campi universitários e nas ruas. Até hoje quase ninguém pergunta por quê.
Nós temos que voltar a reivindicar a ampla gama de pontos positivos do movimento dele. Para King, a questão racial fazia parte da maioria das outras questões, mas, sozinha, não definia nada. A sua mensagem atraente estava enraizada no contexto maior da não violência. O seu objetivo declarado sempre foi o de redimir a alma dos Estados Unidos. Ele calcou um pé na Constituição e o outro nas Escrituras. "Nós conquistaremos a nossa liberdade porque a herança da nossa nação e o desejo eterno de Deus estão encarnados nas nossas demandas que ecoam", disse ele diversas vezes. Enxergar King e os seus colegas como algo menos do que os fundadores modernos da democracia - até mesmo como reconciliadores e curadores de feridas raciais - é diminuí-los sob o feitiço do mito.
King afirmou que o movimento libertaria não só o povo negro segregado, mas também os brancos do sul. Sem dúvida isto é verdade. Nunca se ouviu falar na região do Sun Belt quando o sul era segregado. O movimento disseminou prosperidade em uma região anteriormente imprópria até mesmo para times esportivos profissionais. O meu prefeito em Atlanta durante a era dos direitos civis, Ivan Allen Jr., disse que assim que a legislação dos direitos civis foi assinada em 1964, nós construímos um estádio de beisebol em um terreno do qual não éramos proprietários, com dinheiro que não tínhamos, para um time que não criamos e logo atraímos o Milwaukee Braves. Miami organizou uma equipe de futebol americano chamada Dolphins.
O movimento também acabou com o estigma que pairava sobre a política branca sulista, criando uma competição bipartidária. Ele abriu as portas para os deficientes, e começou a reduzir o medo entre os homossexuais antes que a idéia moderna de "gay" passasse a ser utilizada. Durante 2.000 anos de judaísmo rabínico pouco se pensou em rabinos (ou, melhor dizendo, rabinas) do sexo feminino, mas a primeira ordenação de uma delas ocorreu pouco depois do movimento lançar uma luz nova sobre o significado de almas iguais. Agora nós não paramos para pensar nas rabinas, nas precentoras e nas sacerdotisas e bispas episcopais como figuras polêmicas, com as suas colegas das mais diversas formações. Atualmente os pais aceitam como corriqueiras as oportunidades que os filhos herdaram do boicote aos ônibus de Montgomery.
É ao mesmo tempo correto e político para todos os indivíduos, incluindo os milhões que vêem com bons olhos, ou os que são indiferentes em relação ao movimento pelos direitos civis, ou os rudes e ressentidos, observar que eles, também, assim como os seus herdeiros, estão juntos conosco sobre os ombros de Rosa Parks, Medgar Evers e Fannie Lou Hamer.
King demostrou de forma mais profunda que em um mundo interdependente, o poder duradouro cresce em oposição à violência, e não aliado a ela. Tanto a Guerra Fria quanto o apartheid sul-africano terminaram com os acordes do hino libertário "We Shall Overcome", desafiando todos os preparativos para o Armagedon. O movimento dos direitos civis continua sendo um modelo para a nova democracia, tristemente negligenciada no próprio local em que nasceu. No Iraque atual, estamos, em vez disso, atolados no modelo do Vietnã. Não existe um campo mais importante ou negligenciado do que o estudo do relacionamento entre poder e violência.
Nós recuamos da não violência e assumimos um risco. King viu isso no coração da democracia. A nossa nação é uma grande catedral de eleições - eleições não só para o Congresso ou para presidente, mas também para as decisões da Corte Suprema e de incontáveis júris. As eleições governam as diretorias das grandes corporações e das pequenas instituições de caridade. De forma visível e invisível, tudo depende dos votos. E cada voto não passa de uma partícula de não violência.
Assim sendo, o que deveríamos fazer, agora que 40 anos se passaram? Como restauraremos a nossa cultura política, da onda para o movimento, da balbúrdia para o objetivo? Devemos agir, perguntar, estudar a não violência e reivindicar a nossa história.
O que King prescreveu no seu último sermão de domingo tem início com a história de Lázaro e Dives, no 16° capítulo do evangelho de São Lucas. Narrado inteiramente pela boca de Jesus, trata-se de uma história com Abraão, o patriarca do judaísmo, passada no além. Não existe nada igual na Bíblia.
King adorava essa parábola como o contexto para o famoso sermão de 1949 feito por Vernon Johns, o seu predecessor na Igreja Batista da Avenida Dexter, em Montgomery. Lázaro era um mendigo aleijado que certa vez pediu esmolas, sem que ninguém se dignasse a notar a sua presença, em frente aos suntuosos portões de um homem rico chamado Dives. Ambos morreram, e Dives atormentou-se ao ver Lázaro, o mendigo, seguro sob a proteção de Abraão. O restante da parábola é uma discussão entre Abraão e Dives, entre o céu e o inferno.
Dives primeiro pediu a Abraão que "mandasse Lázaro" com água para refrescar os seus lábios ardentes. Mas Abraão disse que havia um "grande abismo" entre eles, que jamais poderia ser atravessado. No seu sermão, Johns fez uma conexão entre esse abismo e a segregação racial.
Mas, segundo Johns, Dives não estava no inferno por ser rico. Ele estava longe de ser tão rico quanto Abraão, um dos homens mais ricos da antiguidade, que se encontrava no céu. E Dives também não estava no inferno por ter deixado de dar esmolas a Lázaro. Dives estava lá porque jamais reconheceu Lázaro como um ser humano. Mesmo ao se deparar com o veredicto eterno, ele falou apenas com Abraão e desprezou o mendigo, tratando-o como um servo e na terceira pessoa - "mande Lázaro".
Os sermões de King acrescentaram mais camadas significativas a esta parábola. Ele disse que devemos aceitar o homem rico sofredor não como um pecador comum e asqueroso. Quando teve a água recusada para si, ele imediatamente preocupou-se com os seus cinco irmãos. Dives pediu novamente a Abraão que enviasse Lázaro, desta vez como mensageiro para advertir os irmãos a respeito dos seus pecados. Diga a eles que sejam bondosos com os mendigos que ficam do outro lado do muro. Por favor, faça algo, para que eles não terminem aqui como eu.
King disse que Dives era um liberal. Apesar do seu próprio destino, ele quis ajudar os outros. Abraão negou também este pedido, dizendo a Dives que os seus irmãos já contavam com amplas advertências contidas na lei do Torá e nos livros dos profetas hebraicos. Mesmo assim Dives persistiu, dizendo: "Não, Abraão, você não entende - se os irmãos virem algo realmente ressurgindo do mundo dos mortos e avisando-os, eles entenderão".
Jesus cita Abraão negando este pedido. Se os irmãos não aceitam o cerne dos ensinamentos do Torá e dos profetas, eles não acreditarão nem mesmo em um mensageiro que renasce do mundo dos mortos. King afirmou que esta parábola de Jesus remete a diferenças entre o judaísmo e o cristianismo. A lição subjacente a qualquer teologia é a de que devemos agir em relação a toda a criação vendo os outros como almas e vozes iguais. A alternativa para isso é o inferno, algo que King em certas ocasiões definiu como sendo a dor que infligimos a nós mesmos ao recusarmos a graça de Deus.
A seguir King retornou a Memphis para solidarizar-se com os trabalhadores oprimidos, com as famílias de Echol Cole e Robert Walker. Vocês devem ter visto os cartazes usados na greve dos trabalhadores do setor de saneamento, com os dizeres, "Eu Sou um Homem", significando que eles não eram lixo que pudesse ser esmagado e ignorado. Para King, a resposta foi um chamado patriótico e profético. Ele desafia todos a encontrarem um Lázaro em algum lugar, das nossas prisões lotadas à terra que sangra. Essa busca em comum transforma-se na centelha dos movimentos sociais, e é, portanto, o motor da esperança.
*Taylor Branch é escritor. O seu livro mais recente é "At Canaan's Edge" ("À Beira de Canaã"), o terceiro volume da sua história sobre a era moderna dos direitos civis. Este artigo é uma adaptação de um discurso feito por ele na segunda-feira (31/03) na Catedral Nacional.

Paraguai - Eleições históricas

Anuncio Martí *

Poucos sabem hoje que no vizinho Paraguai, o 20 de abril haverá eleições gerais. A desinformação faz parte da política e da mídia corporativa brasileira, que da as costas aos processos latinoamericanos e privilegia, por exemplo, as eleições dos Estados Unidos, que acontecerão só em novembro próximo e aos acontecimentos da Europa, até da sua realeza britânica, como no caso do filho menor da princesa Diana, embarcado numa aventura genocida no Afganistão. No Mato Grosso do Sul, onde há uma importante faixa de fronteira com o Paraguai à desinformação e o desconhecimento é quase total, até mesmo dentro da própria comunidade paraguaia, a mais numerosa do Brasil.
È uma necessidade resgatar ou contribuir, colocando clareza nos simbolismos ou significados, em especial para os que moram perto dessa nação, dizendo que o Paraguai é mais do que o Tereré, a Galopera e a Casa China. Detrás desse nome está o povo guarani, construtor da única república independente, popular e antiimperialista na América do Sul, para muitos intelectuais a primeira revolução radical na América Latina; este povo paraguaio foi protagonista de uma heróica e resistente luta na defesa de sua soberania e independência no século XIX (1811-1870). Um povo com um presente de sofrimento, pobreza e opressão, vitima da rapina do intervencionismo estrangeiro e das oligarquias locais que seguem entregando às riquezas do país a troca de migalhas ao capitalismo depredador e aos piratas de plantão. Um povo que entregou a vida de seus melhores filhos políticos e intelectuais na luta contra á sangrenta ditadura militar (1947-1989) o mais longo da recente e vergonhosa história latino-americana. De trás da palavra Paraguai, é justo conjugar a palavra dignidade que abrange a maioria absoluta de sua população honesta e trabalhadora. Dignidade que desmente à banalização do nome que é pronunciado normalmente quando se buscam sinônimos à pirataria, contrabando, narcotráfico, corrupção e outras ilegalidades que imperam no país, más que são impérios construídos por uma pequena elite mafiosa vinculada fundamentalmente ao Governo e as instituições do Estado e políticos corrompidos ao longo de mais de meio século de partido único.
O mesmo partido político da tirania militar, o Partido Colorado, logo da abertura política em 1989, continua no poder, completando 67 anos de governo (1947-2008). O triste legado dessa instituição partidária, convertida em toca de ladrões, converteu o Paraguai num dos países mais corrupto do mundo. Mais seria um erro esquecer a responsabilidade do Partido Liberal, que, como o Colorado, nasceu em 1877 sobre os ossos dos 606.000 mortos, dos 800.000 habitantes que tinha então o Paraguai, e a ocupação militar estrangeira, quando terminou a Guerra Contra a Tríplice Aliança. O primeiro respondendo aos "bandeirantes" exploradores brasileiros e os liberais à oligarquia argentina. Entre os mortos, cinco anos depois, 180.000 eram mulheres e 9.800 crianças menor de dez anos.
Em termos incontestável os dois partidos políticos garantiram ao imperialismo inglês e aos seus representantes crioulos espalhados na América Latina o saque e o roubo das imensas riquezas do Paraguai e da região sul americana, com a exploração dos trabalhadores, obreiros, indígenas e camponeses, com base na implantação da propriedade privada dos meios de produção. O país, com exceção de uma primavera democrática de seis meses em 1947, jamais voltou a acordar do longo pesadelo da guerra, cuja projeção em tempo de paz entre outras guerras, foi garantida pelos dois partidos tradicionais da oligarquia paraguaia. Este ano, a poucas semanas da chegada de um novo calendário eleitoral, a pergunta é: Será que está chegando o inicio do fim da era do império da corrupção?
Histórico
Pela primeira vez em quase 70 anos de hegemonia do Partido Colorado surge no cenário do país vizinho uma figura que esta conseguindo articular ás principais forças políticas partidárias e sociais para enfrentar ao "poderoso" partido do governo, que depois de se manter aliado durante 35 anos à ditadura militar do tiranossauro Alfredo Stroessner conseguiu continuar com mais 18 anos de ditadura civil-partidaria, com forte componente de terrorismo de estado, com apoio do imperialismo dos Estados Unidos.
A figura é um bispo da Igreja Católica, da congregação do Verbo Divino, de nome Fernando Lugo. O bispo tem tudo a seu favor por um lado e ao mesmo tempo por outro tem tudo contra. Tem o apoio de quase toda a esquerda social e política e dos partidos de centro e da direita, representada pelo maior partido de oposição ao governo o Partido Liberal Radical Autentico (PLRA). Justamente, o vice de Lugo é Federico Franco, do PLRA. Contra tem o aparelho do estado controlado pelo Partido Colorado na base da corrupção. O controle do executivo sobre os membros da Corte Suprema de Justiça e do Superior Tribunal Eleitoral e o baixo nível de consciência somado ao fanatismo dos eleitores do partido de governo. Alem disso tem contra Ele a Casa Branca e como se não bastasse, ainda tem o Vaticano. No inicio de 2007, porem, não havia duvida da vitória do Bispo sobre o Partido Colorado e contra a história e tradição política esclerosada do Paraguai. O governo, como estratégia eleitoral, no final de 2007 libertou o ex general Lino Oviedo, popular caudilho militar ligado à ditadura militar do Stroessner. Este fato mudou todo o cenário político. Hoje, o Lino Oviedo e candidato a presidente pelo Partido União Nacional de Colorados Éticos (UNACE), além de Blanca Ovelar, candidata do governo (Partido Colorado). Outros candidatos a presidente são Pedro Fadul pelo Partido Pátria Querida (PQ) e Julio López do Partido dos Trabalhadores (PT) de tendência trotskista.
Expectativa e campanha suja
A grande expectativa gerada com as próximas eleições gerais do Paraguai esta precisamente no fato de que o bispo Fernando Lugo está na frente de todas as pesquisas eleitorais. A pesar da entrada no cenário eleitoral do Lino Oviedo, o Partido Colorado com sua candidata Blanca Ovelar, pela primeira vez em mais de meio século, não garante uma vitória fácil e existe uma grande possibilidade de que percam pelo menos o poder no governo.
O governo populista do atual presidente Nicanor Duarte Frutos, foi caracterizado pela atuação ditatorial deste num intento de resgatar e vigorar o estilo fascista do partido único do ditador Stroessner. Com este roupagem, por meio da coerção, mentiras, ameaças apocalípticas e repressão, colocaram em marcha uma verdadeira maquinaria para a guerra suja contra a candidatura do bispo da Igreja Católica Fernando Lugo. A campanha suja está impulsionada sobre dois eixos fundamentais: O fato do Lugo não haver conseguido autorização do Vaticano para se candidatar e a suposta vinculação do mesmo com movimentos guerrilheiros do Paraguai e com as FARC da Colômbia. O governo tenta por todos os meios de estigmatizar o candidato Lugo como perigoso terrorista, seqüestrador, lúcifer e comunista infiltrado na igreja católica.
Com tudo isso, Lugo continua na frente das pesquisas. A campanha está condimentada também com o desejo oculto do governo de adiar as eleições para ele se oxigenar e até a possibilidade de não entregar o poder a oposição em caso de uma vitória do "bispo do povo".
Os principais programas da Aliança Patriótica, que tem Fernando Lugo como candidato, são: o inicio real da transição democrática no Paraguai, luta frontal contra corrupção, renegociação do tratado de Itaipu, recuperação da soberania nacional e energética, industrializaçã o do país, reforma judicial e constitucional, reforma agrária e justiça social no campo e na cidade.
O 20 de abril de 2008, se a Casa Branca e o Partido Colorado permitirem, pode ser o inicio da redenção da nação guarani.


(*) Jornalista, poeta e militante do Partido Pátria Livre (PPL). Refugiado político paraguaio no Brasil, baixo a proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR)


A ESQUERDA BRASILEIRA EM TEMPOS NEOLIBERAIS

Marcel de Almeida Freitas *

1. Introdução

Vivemos hoje sob a hegemonia do sistema capitalista e num mundo em que as possibilidades de transformação da ordem sócio-política se mostram bastante reduzidas e para muitos não há mais meios para se fazer qualquer transformação. Nesta perspectiva, a palavra transformação é, nos nossos dias, incompatível com o contexto sócio-político que experimentamos. O capitalismo se apresenta como a única alternativa viável para qualquer sociedade e para qualquer povo. A sociedade burguesa deve ser a base de qualquer sociedade que queira progredir, se desenvolver economicamente e, principalmente, que queira efetivar os ideais democráticos e as liberdades civis. Capitalismo passa a ser sinônimo de desenvolvimento, progresso, democracia e liberdade. Para muitos, só ele pode fazer girar tudo de forma eficiente.
Ao lado dessa hegemonia capitalista, o que percebemos é que o mundo hoje, é um mundo cheio de contradições e conflitos, principalmente contrastes de natureza social. O planeta se divide cada vez mais, em ricos e pobres, em desenvolvimento e subdesenvolvimento. Não há como negar o desenvolvimento econômico, os avanços tecnológicos, o progresso científico e a modernização de uma parte do mundo. Mas, por outro lado, não há como negar as desigualdades sociais, as injustiças, a miséria, a fome e o subdesenvolvimento que está presente numa outra parte do mundo, muito maior do que a primeira. Assim, estamos num mundo sob a égide capitalista que se caracteriza por duas esferas contrastantes. Uma esfera é a da modernização e do desenvolvimento, a outra é da desigualdade e do subdesenvolvimento, que é a esfera onde está a maioria da população.
É importante ressaltar a origem dessa conjuntura sócio-política e o que foi responsável por essa hegemonia do capitalismo nos dias atuais. Sem dúvida, o desmoronamento da ex-URSS e a derrocada dos regimes socialistas do Leste Europeu foram os principais fatores que determinaram para que o mundo chegasse à atual conjuntura. É evidente que o capitalismo não chegaria à posição que chegou hoje se o socialismo não tivesse dado a sua contribuição de forma decisiva. Não nos cabe aqui discutir quais os fatores que levaram a essa derrocada, nem se esses erros e defeitos foram do socialismo em si, enquanto doutrina, ou se foram dos governos comunistas que dirigiram tais sistemas. O importante é percebermos que essa derrocada e esse desmoronamento foram primordiais para a ascensão capitalista hoje.
É dentro do presente contexto, de ascensão capitalista e fracasso socialista e do desaparecimento da bipolaridade mundial, que surge uma grande e importante questão, que pode ser colocada da seguinte maneira: será que o desmoronamento da ex-URSS e a derrocada dos regimes socialistas do Leste Europeu teriam estabelecido a impossibilidade de se propor alternativas à sociedade capitalistas? E a partir desse quadro, não haveria mais sentido falar de esquerda e direita no mundo atual já que a esquerda se propunha de certas formas, a contestar o capitalismo? Poderíamos afirmar de forma enfática, como Blackburn (1993), que esses acontecimentos implicaram no ‘fim da história’?
Todavia, uma coisa é o sentido dos termos esquerda e direita, ele se alterar em face de tais transformações, outra é esse sentido desaparecer. A ascensão capitalista e a derrocada da antiga URSS e dos regimes socialistas não são suficientes para se afirmar que os termos esquerda e direita estejam ultrapassados e não tenham mais significação. A dicotomia esquerda-direita vai além da bipolaridade capitalismo-socialismo, que orientou toda a ordem política mundial, durante anos. Não podemos dizer que o fim dessa bipolaridade represente o fim da dicotomia esquerda-direita, pois os princípios típicos de esquerda como a igualdade e a justiça social, não acabam com o fim da bipolaridade. O fim dos regimes socialistas pode representar a derrocada de uma via que possibilitava a realização desses ideais, mas não que há uma única via.
Diante disso, é mister frisar que o que define realmente a dicotomia esquerda-direita, não é tanto a antiga bipolaridade capitalismo-socialismo, mas é fundamentalmente a contraposição mercado versus justiça social. É essa contraposição o elemento primordial para pensar em esquerda e direita, principalmente nos dias de hoje, pois, atualmente essa contraposição se mostra não só presente, mas fundamental para a análise do cenário político brasileiro. Quanto a essa questão, Emir Sader escreve:
"Nessas condições, nunca como hoje a contraposição mercado x justiça social foi tão essencial. Jamais esta contradição cruzou tanto nossas sociedades desde os 30 milhões de desempregados do próprio hemisfério norte, junto à discriminação e segregação de suas dezenas de milhões de imigrantes, até as grandes maiorias do hemisfério sul, vivendo em sociedades cada vez mais apartadas" (Sader, 1995:17).

É dentro desse contexto sócio-político que compreendemos a dicotomia esquerda-direita no Brasil, procurando ressaltar o novo sentido que essa dicotomia tem atualmente. Para isso, é necessário atualizar a contraposição mercado versus justiça social e conseqüentemente, fazendo isso, estaremos atualizando o próprio sentido dos termos esquerda e direita. Por fim, ao reciclar o significado dos termos esquerda e direita, apontaremos para a possibilidade de surgimento de uma nova esquerda.
2. Conceitos de Esquerda e Direita
Para fazer uma sólida análise da dicotomia esquerda-direita e para que se possa entender bem o sentido destes conceitos hoje, se faz necessário conceituar, minimamente, os próprios termos esquerda e direita, verificando o significado político que tiveram e, principalmente, averiguando como estes termos estiveram presentes em grandes acontecimentos históricos.
Os dois termos simbolizam localizações geográficas que se opõem uma a outra. Os termos ganharam significado estritamente político, inicialmente, na Revolução Francesa. Durante a Assembléia Constituinte, aqueles que apoiavam e que estavam a favor do antigo regime ficavam originalmente, do lado direito, por outro lado, aqueles que defendiam a nova ordem social e política se sentavam do lado esquerdo. Isso significa que os conservadores, que pretendiam manter o regime anterior, se agrupavam à direita no parlamento, os defensores da mudança se agrupavam à esquerda.
A partir dessa distinção básica, as concepções esquerda e direita adquirem significado fundamentalmente político. Esquerda passou a designar aquele conjunto de forças que luta, essencialmente, por transformações numa determinada ordem social e política, transformações que resultem na instauração de uma nova ordem, ou transformações que resultem na reformulação da ordem vigente. Mesmo que o teor e o grau das mudanças possam variar, de acordo com uma esquerda mais ou menos ‘radical’, o que está presente em qualquer esquerda é o caráter contestatório assumido.
A direita já seria o contrário disso. Direita passou a designar, no âmbito político, aquelas forças favoráveis à manutenção de uma ordem social e política. A direita se preocupa, basicamente, em conservar e não alterar um sistema que está dado. Isso pelo fato de que a manutenção de um sistema, tal como ele foi instaurado e tal como ele se apresenta, é amplamente favorável aos interesses econômicos, sociais e políticos daqueles que compõem as forças de direita. Para a direita não é vantagem alterar o sistema, mas sim preservá-lo.
Analisando as noções ‘esquerda’ e ‘direita’ poderíamos identificar a direita com aquele conjunto de forças políticas interessadas em manter o sistema atual vigente, que é o capitalista. A esquerda seria identificada com aqueles que se propõem a lutar por mudanças no sistema capitalista, seja no sentido de reformulá-lo ou seja no sentido de superá-lo e instituir um outro sistema. Dessa forma, as pessoas ou partidos que lutam para implementar mudanças e até pela superação do sistema capitalista, constituem a esquerda. Quanto a essa diferenciação, podemos colocar que
"Assim, hoje a direita se compõe dos conservadores daqueles que se interessam pela reprodução e manutenção do sistema vigente, o capitalismo, e a esquerda se caracteriza por integrar aqueles que desejam a evolução e a superação de tal sistema" (Sader, 1995:21).

A contraposição mercado versus justiça social que é fundamental para entendermos a díade esquerda-direita no Brasil, e que sempre faz parte dos cenários políticos em todo o mundo, principalmente no tocante às lutas políticas entre esquerda e direita, tem o ponto de origem na própria Revolução Francesa. Isso pelo fato de propor a implementação de ideais que se mostravam bastante contraditórios, o que permitiu uma série de críticas à efetivação dos ideais por completo. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade se mostravam contraditórios porque a efetivação de um, implicaria a negação do outro, de modo que não haveria como esses planos se concretizarem conjuntamente. Garantir a liberdade significa garantir o direito de propriedade e a liberdade de mercado, instituindo relações econômicas de mercado, o que por sua vez, entrava em choque com a realização da plena igualdade.
Essa contradição existente entre os ideais da Revolução Francesa proporcionou críticas quanto ao rumo que o processo revolucionário estava tomando, e essas críticas eram dirigidas, principalmente, por parte daqueles que colocavam a igualdade em primeiro lugar. Os críticos da Revolução Francesa começavam a delinear o que seria a esquerda e o que ela representaria posteriormente como força política. Além disso, a contraposição mercado versus justiça social emergia no cenário político mundial como um divisor de águas no que se refere à divisão entre as várias forças políticas e a luta que elas passariam a travar a partir da Revolução Francesa. Tal contraposição seria o ponto de referência para o posterior enfrentamento entre as forças de esquerda e de direita.
Na verdade, todas as críticas à Revolução Francesa e seus ideais tinham fundamento, pois a realização da liberdade tal como era entendida, em especial a econômica, resultava na não realização da igualdade. Rousseau, muito antes, já ressaltava essa visão. Segundo ele, a propriedade privada era a base da desigualdade entre os indivíduos, visto que a partir do momento em que alguns passam a donos, proprietários e outros não, os indivíduos se tornam também desiguais. Emir Sader deixa claro esse pensamento de Rousseau, quando destaca:
"A tradição de esquerda partiu justamente dessa crítica: antes mesmo da Revolução Francesa, um de seus fomentadores ideológicos, Rousseau afirmava que a desigualdade humana tinha suas origens na propriedade privada, ao dividir os homens em proprietários e não-proprietários, isto é, em poderosos e fracos, em governantes e governados" (Sader, 1995:23).

A partir dessas críticas e dos antagonismos provocados pela Revolução Francesa, aquelas forças que atuaram juntas contra o antigo regime começaram a se dividir e, principalmente, começaram a optar por caminhos diferentes e antagônicos e, diríamos, um caminho mais a ‘esquerda’ e outro mais a ‘direita’. Aqueles que pretendiam seguir um caminho à direita defendiam o livre mercado, a propriedade privada, uma economia auto-regulada, enfim, a liberdade econômica estava em primeiro plano e deveria se realizar mesmo que isso afetasse a igualdade. Com esse caminho se identificavam basicamente a alta burguesia industrial e comercial e alguns setores médios da burguesia. Por outro lado, aqueles que pretendiam seguir um caminho à esquerda advogavam o interesse público, o bem coletivo e a justiça social. Para tais pessoas a igualdade estava acima da liberdade econômica. Nessa linha estavam, principalmente, a pequena burguesia varejista e os setores populares.
Ao longo do tempo o movimento político de esquerda veio se desenvolvendo e fazendo adeptos. O cenário político mundial, após a Revolução Francesa passaria por uma redefinição devido aos novos atores que estavam atuando na arena política e também em razão da nova agenda política. Simultaneamente, a esquerda ia se repartindo em vários grupos. Embora esses grupos fossem orientados por diferentes ideologias e utilizassem estratégias de luta diferentes, eles se assemelhavam num ponto básico, ou seja, eram forças de esquerda, grupos contestadores da ordem capitalista vigente.
Essas coletividades tinham uma tendência anticapitalista, mas eram orientadas por várias correntes ideológicas, principalmente as correntes anarquistas, reformistas e comunistas em suas diferentes variações. Como se sabe, a abordagem que mais se expandiu mundialmente foi a comunista. Ela não só foi importante para a evolução das várias facções de esquerda como foi o principal marco de referência para as lutas de esquerda em todo o mundo. Esta corrente entrou no cenário político em 1848 com O Manifesto Comunista de Marx e Engels (1988) e, a partir daí, foi a grande corrente ideológica de contestação do sistema capitalista. Foi nesta vertente que se aglutinaram as principais propostas de esquerda e por muito tempo representaria a principal possibilidade de superação do capitalismo.
A divisão que foi se instaurando na esquerda em nível global não dizia respeito somente às correntes ideológicas que a orientavam, desde a anarquista até a comunista. Essa divisão se estendia a outro âmbito, isto é, o âmbito da trajetória, da melhor via a ser escolhida pelos partidos de esquerda para que se pudesse efetivar a superação do capitalismo e, conseqüentemente, instaurar uma nova ordem. A escolha da via a ser percorrida provocou, então, uma divisão nos partidos e organizações de esquerda. Havia duas grandes opções: transformações graduais e contínuas do capitalismo, até se chegar a uma nova sociedade, ou ruptura total com o capitalismo e a construção imediata da nova sociedade.
A primeira via era caracterizada como de longo prazo, o sistema capitalista seria eliminado aos poucos até chegar a sua totalidade e, por outro lado, o socialismo seria implantado gradualmente. Nesse caso, o que teríamos seria uma transição reformista. Os adversários dessa via colocavam que, jamais, uma sociedade socialista poderia ser implantada dessa maneira, porque as forças conservadoras e os interesses capitalistas e burgueses não permitiriam que essas transformações graduais se efetivassem e, possivelmente, utilizariam todos os meios repressivos para impedir essas alterações. Para os adversários dessa alternativa não se destrói o sistema capitalista com reformas.
A segunda via é a revolucionária. Acredita que a implantação da sociedade socialista só é possível por meio de uma revolução, só ela consegue destruir as estruturas capitalistas e que é estritamente necessário romper com o Estado capitalista e com a sociedade burguesa para que existam condições de instaurar uma nova ordem. Para os defensores desse caminho, participar das instituições políticas burguesas e atuar dentro da legalidade democrática capitalista significaria dar apoio ao sistema capitalista.
Essas duas vias de ação, que caracterizavam dois caminhos alternativos para a construção de uma nova sociedade e para a superação do capitalismo, possibilitaram uma divisão entre as forças de esquerda em todo o mundo. Parte da esquerda optou pelo primeiro caminho e outra parte optou pelo segundo. Ao mesmo tempo em que a esquerda se dividia entre essas duas posições uma grande questão emergia: qual seria a melhor via, a mais eficaz para derrubar o capitalismo? Quanto a essa divisão, Sader (1995) frisa que grande parte dos dirigentes socialistas alemães optou pelo caminho das transformações graduais e institucionais, enquanto o nascente movimento revolucionário russo escolheu a via da insurreição.
A partir dessa divisão mundial que ia se estendendo entre as forças de esquerda, o movimento político considerado de esquerda passou a se constituir de uma série de subgrupos, de facções e ideologias que não atuavam dentro de uma mesma linha e nem seguiam uma mesma trajetória, mas que (ainda) buscavam um objetivo semelhante. Tal clivagem fez com que o movimento de esquerda fosse separado entre revolucionários e reformistas, internacionalistas e nacionalistas e entre comunistas e social- democratas.
Assim, Entender a dicotomia esquerda-direita no presente, não só no Brasil, mas em qualquer parte do mundo, requer uma avaliação do atual quadro político e social em que vivemos. Não há como analisar a divisão entre forças de esquerda e direita que prevalece em todo o mundo, se não levarmos em conta que o cenário político hoje, é novo.
Ser de esquerda ou de direita no início do milênio tem uma conotação diversa da que anteriormente caracterizava esses dois termos. Com o desmoronamento da antiga URSS e a derrocada dos regimes comunistas do Leste Europeu uma nova conjuntura sócio-política emergiu, não mais caracterizado pela bipolaridade mundial, pela divisão do mundo em dois grandes líberos, o capitalista e o socialista. Estamos hoje dentro de um contexto dominado pelo capitalismo e, que por isso, obriga-nos a pensar a dicotomia esquerda-direita de uma forma diferente, sem entretanto chegarmos ao ponto de dizer, como muitos, que não há mais sentido nem necessidade em falar de esquerda e direita.
Sublinhamos que o fim da bipolaridade mundial entre capitalismo e socialismo não significa o fim da contraposição esquerda-direita, mas significa que tal contraposição se expressa de uma forma diferente e nova. É importante entendermos que a contraposição mercado versus justiça social, que é o aspecto fundamental e elemento primordial para se analisar a dicotomia esquerda-direita, continua efetivamente presente nessa nova conjuntura sócio-política brasileira. E mais do que isso, tal contraposição se apresenta hoje, no cenário político brasileiro, de maneira extremamente forte.
A nova situação sócio-política brasileira expressa o fim da bipolaridade capitalismo-socialismo mas não o fim da contraposição mercado versus justiça social, que é o que, na verdade, sempre marcou a divisão entre esquerda e direita em todo o mundo e ao longo da história. Já na Revolução Francesa essa contraposição marcaria ou definiria toda a divisão de forças políticas. Aqueles que privilegiavam a igualdade em detrimento da liberdade (principalmente a econômica), passariam a lutar pela justiça social, já aqueles que privilegiavam a liberdade em detrimento da igualdade, tenderiam a defender o mercado.
Sem dúvida que a bipolaridade entre capitalismo e socialismo expressava a contraposição mercado versus justiça social, já que colocava em enfrentamento um sistema sócio-econômico que caracterizava a hegemonia do mercado e outro que caracterizava a hegemonia da justiça social. Mas o fato de não haver mais a hegemonia da justiça social não significa que tal contraposição tenha acabada. O que acontece é que essa contraposição, hoje, se encerra ou se apresenta de uma maneira diferente, pois, como foi dito antes, vivemos numa conjuntura sócio-política nova.
Dessa forma, para analisar a dualidade esquerda-direita, nesse novo contexto, há de ressaltar que essa recente conjuntura sócio-política é caracterizada principalmente, pela emergência e ascensão do neoliberalismo. É internamente nesse contexto de ascensão do neoliberalismo que devemos situar a bipolaridade esquerda-direita. É também, a partir do neoliberalismo que vamos conseguir atualizar o significado dos dois termos.
O neoliberalismo é o ponto chave para se entender, no atual quadro político, a divisão de forças entre esquerda e direita. É através da ascensão neoliberal que se pode perceber a redefinição da divisão de forças que hoje ocorre no país. A própria interpretação da contraposição mercado e justiça social, que é o elemento primordial que definiu historicamente e ainda define a dicotomia esquerda-direita, não pode ser desenvolvida sem que tenhamos como referência o neoliberalismo. A contraposição ou a defesa da doutrina neoliberal são os aspectos principais que hoje definem e orientam a divisão das forças políticas. Falar em esquerda e direita na atual conjuntura política requer falar em política neoliberal. Não há como analisar o pensamento político atual, seja ele no campo da esquerda ou no campo da direita, sem menção ao neoliberalismo.
A contraposição mercado versus justiça social, que ao longo da história a partir da Revolução Francesa definiu a dicotomia esquerda-direita, em qualquer lugar do mundo, se expressa, nessa nova conjuntura sócio-política, na contraposição neoliberalismo versus anti-neoliberalismo, e não mais na bipolaridade capitalismo e socialismo. O fim da bipolaridade cedeu lugar a uma nova forma de expressão da contraposição que é a base da discussão entre esquerda e direita na arena política, ou seja, a contraposição mercado versus justiça social.
Dito isso, pode-se ressaltar que o pensamento, a atuação e o discurso político de esquerda, nesse novo contexto sócio-político, se reflete ou se exprime na contraposição ao neoliberalismo. O neoliberalismo é hoje o grande divisor de águas entre forças de esquerda e de direita, e apresenta uma séria ameaça à justiça social. Essa doutrina representa o privilégio do mercado em detrimento da justiça social, apontando para um caminho de desenvolvimento econômico e de modernização capitalista que se efetiva as expensas de injustiças sociais e de grandes desigualdades.
O privilégio e a ênfase que a doutrina neoliberal fornece ao mercado em detrimento da justiça social não é algo difícil de se perceber, pois fica bastante claro nos seus próprios fundamentos que mostram as raízes do neoliberalismo, e podemos perceber que em nenhum aspecto há preocupação em se defender a distributividade social, mas pelo contrário, o objetivo é destruir qualquer idéia que se relacione à justiça social.
Presentemente o neoliberalismo é o mais novo figurino da direita mundial e, principalmente, da direita dos países do terceiro mundo. É a mais nova bandeira de oposição dos segmentos conservadores, daquela parcela reduzida que compõe a elite econômica e política da sociedade brasileira e que tenta, nesse atual contexto sócio-político, maximizar cada vez mais seus interesses econômicos, não importando se isso vai acarretar o aumento das desigualdades sociais no país. Quanto a esse novo modelo assumido pela direita brasileira, similar ao “menenmismo” argentino, ressalte-se que:
"Durante os governos Sarney, Collor e Itamar Franco, o poder foi assumindo uma nova cara no Brasil. A partir de 1989, o último ano do governo Sarney, a ideologia predominante no Brasil passou a ser o neoliberalismo. Este é um figurino novo para a direita brasileira, que já havia adotado vários modelos" (Sader, 1995:37).

Dessa forma, devemos entender que ao longo da história política brasileira, vários figurinos caracterizaram a ação política dos setores conservadores da nossa sociedade. Na verdade, todos esses figurinos tentavam encobrir o objetivo maior, ou seja: a manutenção da ordem social e política vigente e a hegemonia do mercado sobre a igualdade social. Em última instância, o que setores de direita pretendiam era evitar que o pólo da justiça social prevalecesse sobre o pólo de mercado.
A doutrina de segurança nacional, o figurino típico da direita brasileira nos anos 1960, acabou resultando no golpe militar de 64. Esse golpe decretava a derrubada de qualquer tentativa de se implementar as reformas de base, que seriam reformas que privilegiariam a justiça social:
"A partir da ditadura militar, a direita assumiu uma cara que estava gestando desde o final dos anos 40: a doutrina de segurança nacional, para a qual os objetivos fundamentais do país deviam estar no binômio desenvolvimento e segurança. A direita reivindicava agora o desenvolvimento industrial e até mesmo, a atividade estatal na economia, associada ao capital estrangeiro" (Sader, 1995:186).

Mas essa não foi a única face assumida pela direita ao longo da história. Vários outros artifícios foram colocados em cena e expressaram os interesses de toda a direita brasileira. O importante é destacar que agora o neoliberalismo representa a sua mais nova faceta. É um projeto de modernização e de desenvolvimento que se caracteriza pela hegemonia e pela ênfase no mercado e que apresenta fundamentos que desconsideram a idéia de justiça social. O neoliberalismo carrega consigo um caráter exclusivista e discriminatório. É uma via de modernização do sistema capitalista na qual as vantagens propiciadas serão exclusivas de parcelas da sociedade, principalmente dos segmentos ligados ao capital privado, financeiro e monopolista. Portanto, é uma via de modernização que se contrapõe a propostas de inclusão social e que só é possível se concretizar às custas do aumento das desigualdades sociais.
É importante ressaltar também que o próprio neoliberalismo se reveste de um certo ‘ar’ de modernização bastante específico e que é assaz criticável. É uma idéia associável ao pensamento político da direita brasileira, na medida em que negligencia qualquer dimensão social da modernização. A modernização bem como o desenvolvimento tratado na concepção neoliberal se refere, basicamente, à dimensão meramente econômica. Não que a dimensão econômica não seja importante (é importante desde que seja um desenvolvimento econômico que alcance os diversos setores da sociedade), o problema é que a modernização é vista apenas financeiramente, ou seja, é pensada distanciando-se o progresso econômico de políticas sociais. SADER ressalta bem a concepção de modernidade defendida pela doutrina neoliberal:
"... é concebida apenas na sua dimensão econômica. Mesmo que fosse assim, os países que mais se desenvolveram nas últimas décadas - Japão, Alemanha, Coréia do Sul - não o fizeram por essa via. E a verdadeira modernidade significa a superação do atraso, a implantação dos direitos de cidadania para todos, e tem assim uma inerente dimensão ética, espírito público e preocupação social" (Sader, 1995:192).

A passagem acima, além de mostrar a idéia de modernização inerente ao neoliberalismo, tenta também desmistificar certos pressupostos que estão inseridos no caminho neoliberal. O principal deles é o que se refere ao suposto caráter inevitável do neoliberalismo. Aqueles que o defendem, na verdade, procuram mostrar que não defendem uma alternativa possível, mas que defendem o único caminho, a única e inevitável alternativa. Seus partidários tentam mostrar que não se tem outra opção, a via neoliberal seria, hoje, a ordem natural das coisas. Mas o que podemos notar, na atual conjuntura política e social, é que existem outras saídas. Ressaltamos que países como Japão e Alemanha adotam uma via diferente do projeto neoliberal e obtêm resultados satisfatórios.
Há que se destacar que vários motivos levam a esquerda brasileira ainda a se contrapor ao neoliberalismo. Dentre estes, ressaltamos:
1º) As políticas neoliberais representam uma grande ameaça de eliminação dos direitos sociais conquistados e de liquidação das grandes conquistas coletivas que se efetivaram até hoje e que ameaçariam todos os avanços e os progressos em termos de justiça social que se concretizaram no país;
2º) Por outro lado, quando não torna impossível, o neoliberalismo torna difícil qualquer tentativa ou possibilidade de implementação de reformas sociais no sistema capitalista. Esses seriam duas grandes razões que levam a esquerda brasileira a se opor e a lutar contra o neoliberalismo, expressando seu caráter totalmente antipopular.
Antes de passar para a análise desses fundamentos urge frisar que o neoliberalismo surgiu como alternativa à crise que se verificou no chamado Estado do bem-estar social. Na verdade, o neoliberalismo representou uma reação de direita a esse Estado. O Estado de bem-estar social se caracterizou pela intervenção na economia buscando um crescimento mais prolongado, por grandes investimentos estatais no setor econômico, pela concessão de créditos e subvenções fiscais estimulando o desenvolvimento e, mormente, pela execução de políticas sociais abrangentes. Era um Estado que procurava minimizar as desigualdades sociais, assumindo uma função social e procurando consolidar um conjunto de direitos sociais primordiais no sentido de amenizar as graves conseqüências sociais provocadas pelo capitalismo. Enfim, propiciou progressos em termos de justiça social, embora tenha deixado falhas e lacunas em alguns aspectos, como por exemplo, uma pesada máquina burocrática.
Contrário a esse tipo de sistema surgiu a ideologia neoliberal, que viria propor um novo modelo de estado, alicerçado em princípios bastante diferentes. O que o neoliberalismo propõe é um Estado desvinculado de qualquer papel social, descompromissado com as questões populares, o que significa a desintegração da dimensão social da cidadania, cuja efetivação e consolidação se deu no Estado do bem-estar social. Se a dimensão social da cidadania é o que caracteriza, em grande parte, o Estado do bem-estar, o neoliberalismo enquanto reação a esse estado só pode almejar a sua deterioração.
Por mais falhas que o Estado do bem-estar social possa ter apresentado (alvo de críticas, principalmente daqueles setores conservadores e ligados ao grande capital privado), ele aumentou os níveis de conforto material das classes trabalhadoras, possibilitando grandes avanços na área social. É importante fazer tais referências históricas quanto ao processo de formação e constituição da doutrina neoliberal para entendermos porque, atualmente, a esquerda brasileira se coloca em posição de enfrentamento a esse projeto.
É mister destacar três pressupostos básicos que orientam e estruturam as políticas neoliberais. O primeiro fundamento do neoliberalismo é a desregulamentação da economia, o que é o contrário do que acontecia no Estado do bem-estar. Segundo a doutrina neoliberal, a desregulamentação permitiria a livre circulação do capital e os recursos da economia seriam repartidos pelas regras do próprio mercado de forma equilibrada para os diversos setores da sociedade. Na verdade, o que, historicamente, aconteceu foi que quanto mais a economia esteve desregulamentada, mais se produziram desequilíbrios econômicos entre os seus diversos setores.
Como é sabido, o mercado nunca se mostrou capaz de repartir os recursos de uma maneira equilibrada, que beneficie todos os setores da sociedade. Além do mais, numa economia como a brasileira, caracterizada por grandes monopólios, oligopólios, cartéis e amplamente dominada pelo grande capital privado internacionalizado, a desregulamentação da economia torna o mercado mais desigual do que ele já é e muito mais excludente. A competição ficaria fortemente ameaçada e, possivelmente, sem a intervenção estatal, o mercado seria dominado em pouco tempo pelos cartéis nacionais e estrangeiros que têm interesses convergentes.
Talvez a desregulamentação possa até gerar desenvolvimento econômico, mas isso nos remete a uma pergunta crucial: que tipo de desenvolvimento se produzirá? Será um progresso amplo, global, que trará benefícios aos diversos setores da sociedade e que favorecerá a distribuição de renda no país como seria ideal, ou será um desenvolvimento do tipo do milagre econômico nos anos 1970, restritivo, desigual, que trouxe benefícios para determinadas camadas sociais e que teve como base a concentração de renda?
Outro pilar básico do neoliberalismo são os programas de privatização. Tais estão inseridas na desregulamentação da economia e a complementam. Esses programas são importantes para diminuir, gradualmente, a presença do Estado na esfera econômica. A redução significativa do setor público é importante na doutrina neoliberal para propiciar a expansão do setor privado, que é o grande objetivo do neoliberalismo. Busca-se, também, reduzir a presença do Estado em outras áreas, com as sociais, abrindo caminho para que o grande capital privado ocupe essas esferas também. Dessa forma, fica garantida a expansão do setor privado.
Concretamente, o objetivo maior dessas privatizações é repassar ou transferir para o setor privado, de forma gradual, as áreas tradicionalmente de atuação maciça do setor público, como as áreas de educação, saúde, habitação, telecomunicações até possibilitar amplo controle do capital privado sobre as mesmas. Embora os programas de privatizações busquem, em primeiro lugar, reduzir a atuação do setor público sobre as áreas sociais (e não só sobre essas áreas, todas as outras) e, simultaneamente, aumentar a presença do grande capital privado, a idéia central é eliminar qualquer participação ou atuação do Estado em tais áreas.
Ao se instituir, através das privatizações, esse processo de substituição da presença efetiva do Estado pelo controle do setor privado nas áreas sociais, estará possibilitada a expansão do grande capital privado e, com isso, o desenvolvimento capitalista, mas com graves conseqüências sociais. Há também que se destacar o perigo que esses programas representam para os direitos sociais, já que tais direitos dependem, diretamente, de um setor público eficiente e fortalecido.
Outro fundamento básico do neoliberalismo é o corte do déficit público. Isso significa, precisamente, a redução significativa dos gastos públicos através da execução de uma política de contenção das despesas do Estado. Essa contenção das despesas estatais se direciona, especialmente, para os gastos com pessoal, buscando uma redução na folha de pagamentos, e para as políticas sociais, o que seria altamente prejudicial para as camadas mais populares que dependem, em grande medida, dessas políticas. Para a doutrina neoliberal, os gastos com pessoal e com as políticas sociais geram inflação e descontrolam as contas públicas, logo, devem ser eliminados ou pelo menos ser drasticamente reduzidos. Portanto, podemos inferir que:
"O diagnóstico neoliberal considera que a inflação e o descontrole dos gastos estatais viriam da folha salarial do Estado e de seus gastos em educação, saúde, habitação, saneamento básico, considerados populistas. Uma parte destes seria absorvida pelo mercado, na medida em que as pessoas dispusessem de recursos para se associar a planos privados de saúde ou para colocar seus filhos em escolas particulares" (Sader, 1995:189).

Com essa política de contenção de gastos, ficam evidentes as conseqüências que ela acarretaria e que seriam sentidas, como já foi dito, principalmente pelos setores médios e baixos da sociedade. Além do grande desemprego que tais medidas fatalmente provocariam, iriam ferir frontalmente a democracia social ou pelo menos tudo aquilo que foi conquistado no Brasil, em termos de democracia social, na medida em que liquida com substanciais conquistas sociais.
Vale ressaltar que sem um setor público forte e sem investimentos maciços do Estado nas áreas sociais não é possível atender às demandas sociais, o que implica numa grande ameaça aos direitos humanos e às conquistas sociais. Além disso, tal política de contenção dos gastos públicos ameaça também todo o conjunto de garantias e direitos trabalhistas, já que grande parte dessas prerrogativas depende da atuação do Estado, principalmente no que se refere à questão da Previdência Social. De todos os trabalhadores que certamente seriam prejudicados com a contenção dos gastos públicos, sem dúvida, os mais afetados seriam os funcionários públicos, já que todos os benefícios e garantias que estes adquiriram dependem, diretamente, do tesouro estatal. Eles seriam os primeiros a sentir os efeitos da execução de tal política.
Uma análise bastante sucinta da via de modernização e desenvolvimento que vem sendo defendida pela esquerda brasileira mostra que esta não chega a ter um formato bem definido. Tal caminho nasce como uma alternativa neoliberal e se contrapõe aos fundamentos do neoliberalismo. Essa via vem sendo chamada pela própria esquerda e pelos seus principais partidos que a compõem como a via democrático-popular ou o projeto democrático-popular.
O caminho democrático-popular busca contestar os alicerces do neoliberalismo e propor um projeto de modernização antagônico àquele proposto pela corrente neoliberal. São projetos que culminam em objetivos finais amplamente diferentes e opostos entre si. Há que se ressaltar, como já foi lembrado em algumas passagens dessa exposição, que a própria noção de modernização defendida pela corrente democrático-popular é diferente daquela defendida pela corrente neoliberal, ou seja, a ênfase da modernização, segundo o neoliberalismo, é a dimensão econômica e não mais do que isso. E é esse aspecto que a vertente democrático-popular contesta. Para seus defensores, e aqui se coloca a esquerda brasileira, a ênfase da modernização deve ser a dimensão social.
Na verdade, o que ocorre é um problema de conceituação da palavra modernização. Não se consegue entender o que venha a ser essa tão defendida modernização segundo o neoliberalismo. O que acontece, concretamente, é a defesa de um certo padrão que não significa, necessariamente, que ele seja melhor, ou pelo menos, o melhor para a grande parte da população brasileira. O que o neoliberalismo tenta fazer é obscurecer, encobrir essas questões e mostrar que as suas propostas representam a modernização e que tudo o que se contrapõe a ela é retrógrado, arcaico, obsoleto. Isso significa atrelar a noção de modernização a uma dimensão meramente econômica.
O que o ‘projeto’ democrático-popular, que é a principal bandeira da atual esquerda brasileira, propõe é, justamente, defender a dimensão social da modernização. Isso se realiza na defesa e manutenção dos direitos sociais e de todo um conjunto de benefícios, garantias e direitos trabalhistas, na manutenção e consolidação da dimensão coletiva da cidadania e do aparato social do Estado, na consolidação e efetivação das políticas sociais, na ratificação do papel social do Estado, enfim, na reafirmação e dos importantes avanços e progressos, em termos de justiça social, que se efetivaram no país até o momento, que favoreceu o aumento significativo nos níveis de bem estar material das classes trabalhadoras e das camadas humildes.
O projeto neoliberal, ao contrário do democrático-popular, representa uma séria ameaça a tudo isso que foi colocado. Pelo fato de privilegiar a dimensão econômica da modernização e de pleitear um desenvolvimento econômico condenável, através da desregulamentação da economia. Mas é através de seus fundamentos básicos que essa ameaça se consolida. A execução desses fundamentos representa grande possibilidade de liquidação das grandes conquistas sociais, da própria extinção da dimensão social da cidadania, enfim, representa grave ameaça de destruição daquilo que foi conquistado em termos de democracia social. Se isso se concretiza, acarretaria um aumento assustador das desigualdades sociais a níveis alarmantes.
O projeto democrático-popular surge não somente para se contrapor ao neoliberalismo e defender os direitos sociais e tudo aquilo que foi conquistado no país em termos de democracia social, mas surge também como via de modernização que busca ampliar os direitos sociais, a obtenção de novas conquistas e de novos progressos em termos de justiça social, a ampliação e intensificação das políticas sociais, enfim, procura construir uma sociedade capitalista mais humana, menos desigual e menos injusta socialmente.

3. Uma Nova Esquerda
O fim da bipolaridade mundial entre capitalismo e socialismo provocou uma série de conseqüências no âmbito político internacional. O fenômeno da crise do socialismo e da desintegração dos regimes comunistas no Leste Europeu levou, sem dúvida nenhuma, a uma nova releitura dos termos esquerda e direita como vimos tentando demonstrar ao longo desse artigo.
No entanto, o que ressaltamos é que essa nova releitura não implicou na falta de sentido dos termos citados, não significou que a dicotomia esquerda-direita tinha desaparecido do cenário político mundial e, em especial do cenário político brasileiro. Para que isso tivesse ocorrido, seria necessário demonstrar que os discursos e os pensamentos políticos das várias correntes ideológicas estariam apontando, se não para um mesmo caminho, ao menos para um caminho semelhante. E não é isso que ocorre, hoje, no Brasil.
É claro que não se trata, no momento, de apontar uma rota alternativa ao capitalismo, ao modo de produção capitalista, até mesmo porque seria difícil convencer a sociedade brasileira que o ideal do socialismo ainda pode ter sucesso. A queda dos sistemas do Leste Europeu parece que, se não tornou impossível, pelo menos ampliou os obstáculos à realização desse ideal, obstáculos estes que já eram grandes.
A queda desses regimes do Leste Europeu e o solapamento da antiga URSS foi um fenômeno que alterou, radicalmente, a forma de expressão das lutas políticas entre esquerda e direita a nível mundial. O importante a ser considerado é que essas lutas ainda continuam se travando politicamente, embora dentro de um novo contexto, e os ideais de justiça social e de mercado é que estão sustentando tais lutas.
É dentro desse novo contexto, marcado principalmente pela emergência do neoliberalismo, que o pensamento político da esquerda brasileira está se desenvolvendo. Se não se trata, hoje, de apontar alternativas ao sistema capitalista, se trata, na atual conjuntura, de apontar um caminho de modernização para o sistema capitalista alternativo e diferente daquele proposto pelo neoliberalismo. E é exatamente isso que a esquerda brasileira, seja no âmbito de partidos políticos ou de movimentos populares, vem tentando implementar. E é também por isso que não se pode dizer que a dicotomia esquerda-direita desapareceu, que ela está extinta. O que percebemos hoje é que estão sendo apresentadas vias de modernização e de desenvolvimento para o sistema capitalista conflitantes e que se sustentam em princípios opostos.
Se não ocorre uma convergência entre as múltiplas forças políticas e se as vias de modernização e desenvolvimento apresentadas não apontam para um caminho semelhante, é porque as expressões esquerda e direita ainda continuam vigorando no cenário político brasileiro e, também, porque os ideais de justiça social e de mercado ainda permanecem. Prova disso é o fato da esquerda, se contrapor ao neoliberalismo, que representa uma saída de modernização que contempla o pólo do mercado, desconsiderando totalmente os ideais de justiça social.
O fato de ter emergido uma inovadora conjuntura sócio-política e da dicotomia esquerda-direita passar a ser expressar de uma nova forma e com ideais de justiça social e de mercado ganhando novo contorno, acarretaram um processo de reformulação e revisão do pensamento e do discurso político da esquerda nacional. A luta pelos ideais de justiça social, que sempre orientou a atuação da esquerda brasileira, não se expressa mais da mesma forma que se expressava antes da queda do socialismo. Na verdade, essa luta ganhou novo formato, o que não significa que a busca de uma sociedade mais justa e menos desigual tenha se tornado inviável. Essa busca continua por caminhos diferentes, caminhos que foram abertos com o fim da bipolaridade mundial, que deu lugar a um novo modo de expressão da contraposição mercado versus justiça social, que é a base fundante da dicotomia esquerda-direita.
Todas essas mudanças que ocorreram a nível mundial, isto é, o surgimento de uma nova conjuntura sócio-política e a nova moldura que ganhou a luta pela justiça social, acabaram implicando na formação e na emergência de uma nova esquerda brasileira. Uma esquerda que se mantém fiel aos ideais de eqüidade social, mas que adota novos percursos de luta e projetos diferentes daqueles adotados anteriormente. O caminho que se tem hoje para a implantação de uma sociedade mais humana e menos desigual é bastante diferente daquele que a esquerda brasileira acreditava antes da derrocada do comunismo.
A emergência dessa nova ordem esquerdista é um fenômeno importantíssimo para se entender, nos dias de hoje, a dicotomia esquerda-direita e resultou de um complicado processo de revisitação do pensamento político da esquerda não só no Brasil, como também em todo o mundo. O que essa revisão fez foi abrir novos horizontes para o duelo das forças políticas revitalizando o papel dessa esquerda que estava, de certa forma, confuso. Em realidade, o papel da esquerda nacional é ainda mais crucial do que em qualquer outro momento da história brasileira. Isso porque, atualmente, o mais importante não é tanto lutar para se obter direitos e progressos em termos de justiça social ou conquistar novos direitos, benefícios e garantias para as camadas mais baixas da sociedade (isso faria parte de um segundo momento). O mais importante agora é defender tudo aquilo que já foi conquistado no país, é garantir a manutenção das garantias e dos benefícios sociais e trabalhistas já adquiridos na área social, e que estão fortemente enfraquecidos pelo neoliberalismo.
Cabe a essa nova esquerda brasileira procurar atuar ativamente no cenário político e social no sentido de mobilizar a sociedade e, mormente, as camadas populares, alertando-as com relação aos objetivos pretendidos pela política neoliberal. Para caracterizar melhor essa nova esquerda brasileira e, com isso, resumir um pouco de tudo o que foi exposto até agora nesse texto, gostaríamos de abordar três aspectos que expressam a formação e a emergência dessa nova esquerda. Esses aspectos servem também para contrapor a esquerda brasileira antes da derrocada dos regimes comunistas e a esquerda emergente após esses acontecimentos.
Um primeiro aspecto que chama atenção é o fato de que o marco de referência para a atuação, o discurso e o pensamento político das várias correntes ideológicas da miríade de segmentos sociais e organizações partidárias é o neoliberalismo e não mais o capitalismo, como acontecia antes de toda a derrocada dos regimes comunistas e da ex-URSS. Anteriormente, o que delimitava a divisão das correntes políticas entre esquerda e direita era o capitalismo. Enfim, a posição assumida por um partido ou por um grupo social era definida de acordo com sua relação com o capitalismo e esta poderia ser caracterizada pela luta em favor da consolidação do sistema capitalista ou caracterizada pela luta em favor da transformação e da superação do sistema capitalista.
Antes de passar ao segundo aspecto destacamos um ponto importante: por mais que o termo esquerda seja complexo, a idéia de esquerda que se tem nesse trabalho, antes da derrocada, é de um posicionamento que lutava para implementar transformações estruturais no sistema capitalista, transformações que culminassem na sua superação e que permitissem a instituição de uma nova ordem social e política. Dessa forma, esta conotação de esquerda não pode ser resumida à idéia de reformas sociais, embora isso tenha feito parte das lutas oposicionistas no Brasil.
O segundo aspecto que expressaria a emergência dessa nova esquerda brasileira é a maneira como ela se coloca hoje, no cenário político nacional. O comportamento da esquerda dentro dessa atual conjuntura sócio-política, se caracteriza, primeiramente, por uma postura defensiva e não ofensiva. A necessidade fundamental é defender os direitos, benefícios e garantias sócio-trabalhistas, que já se concretizavam e que se vêem amealhados, hoje, pelas políticas neoliberais. Há que se sublinhar que dentro dessa nova conjuntura toda a dimensão social da cidadania se encontra ameaçada e, dessa forma, a esquerda tem que se esforçar para garantir a sua manutenção.
Um terceiro aspecto que caracteriza essa nova esquerda brasileira é o fato de que a luta empenhada não se desenvolve nos mesmos moldes que se desenvolvia antes do fim da antiga URSS e dos governos do leste europeu. O objetivo maior de construção de uma sociedade menos desigual não é mais pensado pela esquerda brasileira da mesma maneira que era pensado quando a bipolaridade mundial era vigente. Na vigência da bipolaridade mundial havia por parte da esquerda grande aproximação com os ideais comunistas e socialistas, alguns setores e partidos de esquerda mais, outros menos. Mas, o fato é que existia tal aproximação e, de uma forma ou de outra, os ideais de justiça social estavam dentro daquele contexto, associados ao comunismo e ao socialismo.
O que fica claro antes da derrocada é que os ideais de justiça social se operacionalizaram mediante transformações estruturais no sistema capitalista, que acabariam levando à superação. Obviamente que setores, partidos e organizações que se diziam de esquerda no Brasil divergiam em relação muitos pontos. Alguns defendiam transformações processuais e de forma gradual, outros exigiam transformações radicais e imediatas, através de um processo revolucionário independente.

4. Considerações finais
Essa divisão que se efetivara na França, ainda naquela época, já mostrava a contraposição mercado versus eqüidade social, que é o aspecto fundamental ainda hoje, para entendermos a dicotomia esquerda-direita. De um lado, estavam aqueles que davam ênfase no mercado, do outro estavam aqueles que privilegiavam a justiça social. A partir dali, os termos esquerda e direita ganhariam solidez e passariam a fazer parte do cenário político mundial.
Já a nova esquerda brasileira, surgida após a derrocada da URSS, se particulariza por um relativo distanciamento em relação a esses ideais comunistas e socialistas. A aproximação que existia antes não existe mais, o que significa que os ideais de igualdade social não estão mais associados ao comunismo e ao socialismo, a não ser em alguns poucos grupos de esquerda que ainda retomam esses pilares. E é isso que peculiariza a nova esquerda brasileira.
O que se tem hoje é uma luta que não se caracteriza mais pela necessidade de destruição do sistema capitalista e de construção de uma nova sociedade. O ideal de justiça social não se expressa na implementação de transformações estruturais. Esse ideal se manifesta numa abrangente reformulação do sistema capitalista, na escolha de uma via de modernização e desenvolvimento alternativo à via neoliberal e que seja norteada pelo objetivo de construir uma sociedade capitalista mais humana e menos desigual.
O que a esquerda brasileira pretende, nessa presente conjuntura, é efetivar um amplo processo de democratização e humanização do sistema capitalista, mas tentando seguir por uma via de modernização contrária àquela proposta pelo neoliberalismo. Isso significa que a nova esquerda brasileira adota uma tendência reformista e não transformadora. Os ideais de justiça social se efetivam, na prática, através da implementação de reformas sociais do capitalismo. São reformas que passam pela consolidação de todo o aparato social do Estado, pela ratificação do papel social do Estado, pela destinação de investimentos estatais maciços nas áreas sociais, pela ampliação das políticas sociais, fazendo-o capaz de atender as grandes demandas sociais que são dirigidas a ele.
É necessário que tais reformas abarquem, também, um conjunto de medidas e políticas econômicas que busquem instaurar um desenvolvimento global, com um grande poder de abrangência, que esteja, fundamentalmente, alicerçado e baseado em um amplo processo de distribuição de renda no país e também, em um processo efetivo de reforma agrária. De forma que seja um desenvolvimento que estimule e incentive, efetivamente, o crescimento dos salários e que estimule também o aumento significativo da participação dos salários na renda nacional, acarretando, como isso, o aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores.

Referência Bibliográfica
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SADER, Emir. O anjo torto: esquerda (e direita) no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1995.

Resumo
O objetivo deste breve artigo é tecer alguns comentários a respeito de certas mudanças valorativas e estruturais pelas quais passou o movimento esquerdista brasileiro nas últimas duas décadas. O texto destaca, entre outras coisas, a introdução da economia de mercado, desde que alinhada com a eqüidade social, no pensamento de grande parte da política de esquerda no país. Ademais, também são sublinhadas as alterações que os conceitos ‘direita’ e ‘esquerda’ tiveram nos anos mais recentes.

Palavras-chave: esquerda brasileira, justiça social, capitalismo neoliberal.

* MARCEL DE ALMEIDA FREITAS. Mestre Em Psicologia Social. Professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG. Autor do livro: Meretrizes, Amazonas e Magas: um estudo dos arquétipos femininos nos mitos da humanidade. Belo Horizonte: edição do autor, 2001; 175 p. ISBN: 1001275902.


O Equador, o Brasil, e a tríplice fronteira

Mauro Santayana


Em política nada ocorre por acaso, embora o acaso possa ajudar nos projetos de poder. Essa constatação é mais freqüente nas relações internacionais. Constatação inquietante, no caso do incidente entre a Colômbia e o Equador é a de que a operação militar foi deflagrada no momento em que a França negociava diretamente com Reyes a libertação de Ingrid Betancourt. Há que se presumir que as Farc, até mesmo por tática política, estavam buscando alternativa à mediação de Chávez. Os contatos com Chávez e a operação de libertação dos outros reféns haviam vulnerado, de uma e de outra forma, a segurança dos guerrilheiros. Tudo indica que eles preferissem - como alguns observadores sugeriram - negociar a libertação da senhora Betancourt e de outros reféns, mediante o Equador. Houve, em terceiros países, encontros entre representantes das Farc e emissários de Quito, o que é natural em situações semelhantes. Do ponto de vista político, logo depois de obtida, com a ajuda de Caracas, a última libertação de reféns, convinha às Farc afastarem-se, com discrição, do presidente da Venezuela. Urgia negociar com o governo francês o modo de libertar a Senadora, no momento enferma. Quando mais depressa pudesse libertá-la - desde que não lhe fora possível fazê-lo antes - melhor seria para a ação militar e política das Farc. É nesse momento que entra em jogo outro e importantíssimo fator: o interesse direto de Washington em dificultar o envolvimento do Elisée e do Quai d'Orsay na região. Sabendo-se que as operações militares do governo de Bogotá são assessoradas, há décadas, por conselheiros norte-americanos, seria de esperar que os setores da inteligência do Pentágono e da CIA agissem rapidamente, e em conjunto, para a localização dos guerrilheiros e a operação que os matou. E é preciso suspeitar que os documentos "apreendidos" pelos colombianos com Reyes sejam tão autênticos quanto as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. É inverossímil - e, portanto, improvável - que Reyes levasse consigo, em missão, tão delicada quanto perigosa, ao território equatoriano, supostas anotações sobre a ajuda de Chávez à guerrilha e fuzis de brinquedo para treinamento. Chega a ser estúpida a hipótese de que as Farc fossem fabricar munições radiativas em plena selva. Especialistas em fabricá-las e usá-las são os ianques, como se viu nos Bálcãs. Os Estados Unidos continuam movidos pelo enunciado do Destino Manifesto (de 1845) e da Doutrina Monroe (1823). A Doutrina Monroe não chegou a ser aplicada, embora fosse invocada, em 1867, para pressionar a França a abandonar suas pretensões no México. Em 1898 voltou a ser reivindicada na Guerra contra a Espanha - e se perverteu de vez, em 1904 - com a mensagem de Theodore Roosevelt ao Congresso. Nesse documento, conhecido como Corolário da Doutrina Monroe, os Estados Unidos se arrogam o direito de intervir na América Latina, quando considerem que qualquer governo da região não aja "corretamente". O discurso de Bush, ao reiterar apoio a Bogotá, e considerar legítima a violação do território equatoriano, sob o pretexto do "direito de perseguição", deve ser entendido em Paris como advertência a Sarkozy. A França tem seus interesses na área, com a velha presença na Guiana. Qualquer conflito ali a obrigará a nele envolver-se, sob o risco de perder o departamento ultramarino. É velha a constatação de que é preciso manter, até a exaustão, as conversações em busca do entendimento. E outro velho aviso recomenda restringir-se a área do conflito, buscando a neutralidade dos vizinhos. A diplomacia brasileira está bem preparada para agir. Trata-se também de oportunidade para que os países da América Latina dispensem a tutela do big stick de Ted Roosevelt e as tentativas recolonizadoras da Europa, tão claramente expostas pelos espanhóis, sob a presunção imperial de Juan Carlos. Não entende o Bourbon que uma coisa é nascer Carlos V e legar o reino e o Império a Filipe II; outra é dever o trono ao fascista Francisco Franco. A proposta do presidente Lula - que poderia ter sido formulada por Rio Branco - de se criar organismo regional de segurança da América do Sul, é a primeira reação, serena e firme, a fim de que o continente dispense, de vez, a tutela européia e norte-americana sobre a região. Não cremos em destinos manifestos, mesmo porque o nosso é o de conquistar o que já temos, mediante a ocupação dos grandes vazios geográficos internos. Mas, para proteger a própria soberania, devemos contribuir para que a soberania dos outros também seja preservada, no Equador, como na Tríplice Fronteira. A isso podemos chamar diplomacia responsável - e estrategicamente pragmática.


O fim de uma era na esquerda brasileira

Não sei se todos se deram conta, mas estamos vivendo tempos interessantes – para usar a expressão do professor Hobsbawn – no que diz respeito ao "ser" de esquerda no Brasil. Um período de mudanças em que um dos efeitos é a falta de entendimento entre grupos que, teoricamente, defendem o mesmo objetivo. A questão ambiental é um dos palcos principais dessa batalha, em que a razão tem sido morta e enterrada – principalmente pelo grupo que está no poder.
Tivemos três grandes ciclos da esquerda no país durante o século 20. Grosso modo, o primeiro deles, anarquista, foi fomentado pelos imigrantes europeus que vieram trabalhar na então nascente indústria paulista e difundiram seus ideais. O segundo, com os movimentos comunistas e socialistas, da intentona à resistência à ditadura militar dos anos de chumbo. O terceiro veio com o processo de redemocratização do país e a liberdade de organização civil e tem um forte tom partidário.
Ou seja, a esquerda durante o século 20 variou de acordo com a relação que firmava com o Estado. Do anarquismo, que não acreditava que ele fosse fundamental para o desenvolvimento da sociedade, passando pelo comunismo, que defendeu a necessidade de destruir o Estado para depois reconstruí-lo sob a direção do proletariado, até o "petismo" em que a esquerda acreditou que seria possível tomar o Estado dentro das regras do jogo da classe dominante, ou seja através da disputa político-eleitoral.
Veio o século 21 e uma das poucas certezas que tenho é que o paradigma do sistema político representantivo está em grave crise por não ter conseguido dar respostas satisfatórias à sociedade. Bem pelo contrário, apesar de ser uma importante arena de discussão, ele não foi capaz de alterar o status quo. Apenas lançou migalhas através de pequenas concessões, mantendo a estrutura da mesma maneira e apopulação sob controle. O Estado, assim como há 100 anos, continua servindo aos interesses de alguns privilegiados detentores dos meiosde produção. E a maioria das disputas relevantes no seio do Estado são eminentemente intra-classe, no caso a elite.
Os atores desse terceiro ciclo da esquerda, que tem seu cerne no petismo, fracassaram em sua idéia original de mudar o Estado por dentro. Grande parte do PT (deixando claro que há notáveis exceções) adotou práticas que ele mesmo abominava. Bem, todos conhecem a história.
Onde está a força da esquerda hoje? Nos movimentos sociais e nos grupos de base. Ou seja, atores que dialogam com o Estado, mas que estão fora dele, atuando na transformação da sociedade pelo lado de fora. Creio que isso deve-se à desilusão com a política partidária tradicional, à incapacidade dessa velha esquerda em dar alternativaspara os jovens e ao fortalecimento de grupos que nunca adentraram no sistema partidário por não acreditarem em sua natureza ou por serem dele alijados.
O mais importante grupo político hoje no país, concordando ou não com seu modus operandi, é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra(MST), que através da luta pela reforma agrária tenta alterar o modelo de desenvolvimento econômico. Ou seja, faz política.
E não é só a luta pela terra. A incapacidade do sistema representativode gerar respostas satisfatórias levou também ao fortalecimento da luta da sociedade civil em outras frentes, como trabalho, comunicação, direitos humanos e meio ambiente. Ressalte-se, apenas, que sociedade civil não é a mesma coisa que organizações não-governamentais, pois, a despeito das ONGs comprometidas com mudanças estruturais, muitas delas são de ordem cosmética e apenas reforçam as condições atuais.
O interessante é que esse quarto ciclo de esquerda, dos movimentos e da sociedade civil organizada ou não, tem muito a ver com o primeiro, lá no início do século 20. Ao questionar o papel do Estado e agir por conta própria, adota nuances de anarquismo. Alguns podem falar que o que chamo de nuances de anarquismo seria, na verdade, um processo de aprofundamento do Estado mínimo em que o governo se exime de suas responsabilidades entregando ao mercado a gestão da sociedade.
Há de se ter cuidado com isso e não confundir programas como "Amigos da Escola" – que, na verdade, são mais daquelas migalhas que falei acima – de um processo sério de organização popular pela transformaçãoda realidade social, econômica, cultural, política. Mas essa separação é fácil de ser feita, basta verificar quais são os impactos da ação de determinado grupo. Se elas não se encaixam em um panorama maior, de transformação real, e limitam-se à sua pontualidade, estamos falando de migalhas.
Por exemplo, ocupações como a da Reitoria da USP pelos estudantes, de terras improdutivas pelos sem-terra ou de prédios abandonados por sem-teto têm um objetivo muito maior do que apenas obter concessões de curto prazo. Elas não servem apenas para tapar as goteiras das salasde aula, desapropriar uma fazenda ou destinar um prédio aos sem-teto. Os problemas enfrentados pelos movimentos envolvidos nesses atos políticos não são pontuais, mas sim decorrência de um modelo de desenvolvimento que enquanto explora o trabalho, concentra a renda efavorece classes de abastados, deprecia a coisa pública (quando ela não se encaixa em seus interesses) ou a privatiza (quando ela se encaixa). Ou seja, as ocupações são uma disputa de poder feita simultaneamente em âmbito local e global que, no horizonte histórico, poderá resultar na manutenção da pilhagem econômica, social e culturalda grande maioria da sociedade ou levar à implantação de um novo modelo – mais humano e democrático.
O problema é que toda mudança leva a um enfrentamento. No caso daquestão ambiental, por exemplo, há uma disputa sendo travada entre pessoas da velha e da nova esquerda via mídia. O discurso de que o desenvolvimento é a peça-chave para a conquista da soberania (o que concordo) e que, portanto deve ser obtido a todo o custo (o que discordo) tem sido usado por pessoas que foram comunistas, tornaram-se petistas e hoje fazem coro cego ao PAC do governo federal. Mantém viva a parte ruim do pensamento do genial Celso Furtado que, na prática,s ignifica que é necessário sacrificar peões para ganhar o jogo.
Do outro lado, os movimentos sociais e ONGs sérias que atuam nesse campo defendem que o crescimento não pode ser um rolo compressor passando por cima de pessoas e do meio ambiente. Por suas ações, que impedem um laissez-faire generalizado, são taxados de entreguistas e de fazerem o jogo do capital internacional. Nas últimas semanas,presenciamos isso nas críticas levantadas contra o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que ocupou a hidrelétrica de Tucuruí,ou nos impropérios lançados às comunidades que protestaram contra as obras de transposição de parte das águas do São Francisco.
É claro que os países do centro querem que nós arquemos com o ônus da preservação do planeta. O mercado de carbono, na prática, é isso: compra-se créditos de terceiros (que vão adotar práticas ou projetosque absorvam carbono da atmosfera) para que se possa poluir. Ao mesmotempo que isso acontece, esses países se beneficiarão do alargamentoda já grande distância de desenvolvimento entre o centro e aperiferia.
Mas o atual modelo, gestado no seio do capitalismo, e em plenavigência no Brasil tem um potencial destruidor muito grande, além deser extremamente concentrador. Ou seja, o resultado da pilhagem dosrecursos naturais e do trabalho humano, mantendo o padrão adotado atéaqui, continuará nas mãos de poucos, sejam eles brasileiros ouestrangeiros. Não faz sentido defender algo que também está nosafundando.
Como se resolve esse enfrentamento? Na minha opinião, não se resolve.O problema entre a velha e a nova esquerda está no contexto históricoem que seus atores foram formados. Não adianta mostrar fatos novos ou uma nova luz para a interpretação da realidade, há grupos que fecham enão abrem com o padrão de desenvolvimento forjado na ditadura –paradoxalmente a mesma ditadura que os torturou. A meu ver a soluçãose dará através de renovação geracional, ou seja, os mais antigos seretirando com a idade para dar lugar aos mais novos. É triste que sejaassim, mas tendo em vista os últimos embates, não acredito emconciliação possível.
Tudo o que foi discorrido aqui, é claro, diz respeito à esquerda internamente. Agora, como diria o professor Garrincha, falta combinar com o inimigo. Porque a história mostra que apesar da esquerda ter capacidade de influenciar a realidade no país, ela não foi capaz detransformá-la. E a menos que algum dos novos ciclos traga respostas para romper com a estrutura atual, continuaremos vendo eles se repetirem nos fracassos. Para a alegria da direita.

Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pelaUniversidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em TimorLeste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismoda ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendorecebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como oVladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedorsocial Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seurepresentante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).

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